Ludmila Rocha, Carla Rodrigues e Suzano Almeida
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A organização arrojada dos suspeitos de terem invadido a agência bancária da QNN 38, em Ceilândia, surpreendeu até mesmo a polícia. Três deles foram presos em flagrante e outros três detidos horas depois. Com eles, foram localizadas armas de uso restrito das Forças Armadas, perucas e dezenas de máscaras, uma delas de silicone, imitando perfeitamente um rosto humano. O grupo também seria responsável pelo assalto ao Banco de Brasília (BRB), do Shopping Popular, em abril último.
“Alguns deles têm várias passagens por crimes graves, vários por roubo. Um dos grandes articuladores do grupo, o Paulo César (PC), era conhecido da DRF. No início dos anos 2000, PC integrava uma quadrilha de roubo a banco. O grupo contava, inclusive, na época, com a conivência de policiais civis de São Paulo, onde ele teria começado a cometer os crimes”, afirma o delegado de Repressão a Roubos e Furtos (DRF), Fernando César Costa.
Plano
Segundo ele, o grupo, que ontem chegou a render clientes e funcionários dentro da agência, planejava roubar outros bancos. “Eles chegaram a fazer o acompanhamento dos funcionários. E ressalta-se que tudo isso no horário em que pelo menos três deles, em cumprimento de regime semiaberto, deveriam estar trabalhando”, diz. “Eles estiveram pelo menos três vezes na porta da agência de Ceilândia, fazendo levantamento do local”, lembrou.
A DRF monitorava o grupo desde a última ação, no Shopping Popular, e, ciente da intenção de praticar novos roubos, enviou agentes à paisana ao local. Percebendo a movimentação suspeita, porém, alguns moradores da região acionaram a PM. Um dos policiais reconheceu o assaltante que aguardava do lado de fora e tentou abordá-lo. Assustado, o homem fugiu. E dois comparsas, que já estariam saindo da agência, voltaram para o interior da agência e renderam oito pessoas. O Departamento de Operações Especiais da PM (DOE), a Tropa de Choque e o Corpo de Bombeiros foram chamados. Após 1h10 de negociações, os acusados se entregaram.
Operação Anônimos
Para o delegado Fernando César, “os integrantes da quadrilha são experientes e perigosos. Isso ficou claro pelo aparato que eles utilizavam. Eles tinham a intenção de agir com armas caso fosse necessário”. A polícia sabia que a quadrilha dispunha de coletes à prova de balas, roubados de vigilantes no assalto anterior.
Pagamento de salário é chamariz
De acordo com o delegado Fernando César Costa, as investigações continuam. “Estamos com agentes nas ruas. Novas prisões devem ser feitas nos próximos dias. Mas posso garantir que 100% da operação foi deflagrada. Já temos uma lista de suspeitos”.
Segundo o coronel Neviton Pereira Júnior, da PM, por ser época de pagamento de salários, os ladrões sabiam que encontrariam muito dinheiro. “Sabendo da incidência de roubos a bancos nessa época, fazemos operações nas imediações. Assim que fomos chamados, nos dirigimos para cá”, explicou. Segundo a Polícia Civil, no entanto, a viatura da PM assustou o criminoso e chegou a atrapalhar a ação.
Júlio César Nunes, gerente da agência há dois meses, contou como tudo aconteceu. Segundo ele, embora o atendimento ao público comece às 11h, às 7h os caixas eletrônicos começam a funcionar. Por isso havia clientes no local.
“Quando cheguei, a copeira e o vigilante já estavam rendidos. Um homem que usava peruca loira e estava de cabeça baixa me abordou. Ele me levou ao cofre e insistia para que eu informasse a senha. Ele não acreditava que eu não tinha essa informação e ficou nervoso. Colocou a arma no meu pescoço e ameaçou me matar. Mesmo assim, tentei mantê-lo calmo. Eu sabia que a intenção era só levar o dinheiro. Eles tinham consciência de que se matassem alguém se complicariam”.
Com medo de serem alvejados, os assaltantes passaram a exigir a presença da imprensa. “Conversei com a polícia e expliquei o pedido. Falei também com a minha esposa. Foram momentos difíceis, nunca passei por nada parecido. Quando resolveu se entregar, o assaltante que estava comigo se mostrou assustado e eu me ofereci para sair na frente, como uma espécie de escudo”, lembrou o gerente.
População apreensiva
Do lado de fora da agência bancária em Ceilândia, familiares dos reféns aguardavam ansiosos por informações. Luciene Alves, uma das vítimas, trabalha no Centro de Saúde 6, próximo ao banco. Ela passou na agência para sacar uma quantia em dinheiro, que entregaria ao filho e à nora.
“Minha sogra veio sacar dinheiro e foi feita refém. O ass altante ia fugir com o carro dela, mas desistiu. Viemos encontrá-la, mas assim chegamos fomos avisados do que estava acontecendo”, disse Raquel Ribeiro, de 24 anos.
A estudante Rosângela Xavier da Silva, de 38 anos, mora na rua acima da agência e acompanhou as negociações. “Essa região está muito perigosa. Ontem mesmo teve um tirot eio próximo a minha casa. A segurança do DF vive um momento caótico. Parece que os bandidos não têm mais medo da polícia”, desabafou.
Segundo a moradora, porém, é a primeira vez que o banco é assaltado. “Desde que moro aqui nunca vi assaltos a essa agência. Hoje notamos uma movimentação estranha e chamamos a polícia”.
Multa por negligência na segurança
No início deste ano, oito bancos foram multados em R$ 272 mil por negligência na segurança de agências e postos de atendimento. As principais infrações cometidas pelas instituições foram equipamentos inoperantes, número insuficiente e falta de rendição de vigilantes no horário de almoço, transporte de valores feito por bancários, inauguração de agências sem plano de segurança aprovado e cerceamento da fiscalização de policiais federais, dentre outras.
O delegado-chefe da DRF, Fernando César Costa, enfatizou que a tentativa de assalto é também resultado do baixo investimento dos bancos em segurança. Para ele, isso favorece a ação dos criminosos. “Apesar das arrecadações exorbitantes das instituições financeiras, os investimentos em segurança ainda são ínfimos”, afirmou.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban), entretanto, afirmou que os investimentos avançaram nos últimos anos e que “novas medidas estão sendo tomadas”. De acordo com a entidade, “os bancos investem anualmente bilhões de reais em sistemas de segurança para garantir a tranquilidade de seus clientes e colaboradores. Também atuam em parceria com governos, polícia e com o Poder Judiciário para combater os crimes e propor novos padrões de proteção”.
Memória
8 de janeiro
Um grupo de assaltantes explodiu caixa eletrônico de posto de combustível em Sobradinho II, durante a madrugada. Os suspeitos, contudo, não tiveram acesso ao dinheiro, já que a dinamite acabou explodindo o conteúdo das gavetas.
13 de janeiro
Um caixa eletrônico do Banco 24 horas foi explodido dentro de uma panificadora em Luziânia (GO), Região Metropolitana do DF. De acordo com informações da polícia, os bandidos tentaram explodir dois caixas, mas só conseguiram danificar um.
22 de janeiro
Um grupo de assaltantes fez cinco funcionários reféns por mais de uma hora durante um assalto a uma agência do BRB no SIA. Por volta das 7h45, um assaltante aguardava dentro do terminal de autoatendimento da agência a chegada do gerente. O funcionário foi rendido ao chegar e outro assaltante, usando uma máscara, entrou na agência.
24 de abril
Quatro homens armados assaltaram a agência do BRB do Shopping Popular. Segundo a Polícia Civil, os ladrões levaram R$ 50 mil. O BRB informou que os assaltantes invadiram a agência no momento em que o gerente, acompanhado do vigilante, chegava ao local. Três pessoas foram feitas reféns. Os suspeitos fazem parte do mesmo grupo que cometeu o assalto ontem.
3 de junho
Quatro homens armados entraram pela porta giratória de uma agência bancária na 516 Sul. Eles renderam os vigilantes, funcionários e clientes. Quase todos foram obrigados e ficar deitados no chão.
Ponto de vista
Na avaliação do especialista em segurança Antônio Testa, os bancos não se preocupam o suficiente com a segurança dos clientes. “Faltam mais investimentos em câmeras de monitoramento e segurança particular. Durante muitos anos, houve uma série de assaltos a bancos e aí, então, eles decidiram começar a investir em segurança, mas isso parou por aí. Eles não se aparelharam mais. Enquanto isso, por outro lado, os bandidos ficaram mais atentos e descobriram novas maneiras de cometer os crimes”, analisa o estudioso. De acordo com o ele, “cabe, agora, ao governo cobrar isso das instituições”.
Saiba mais
Em todo o País, um total de 65 pessoas foram assassinadas em assaltos a bancos em 2013.
O número equivale a uma média mensal de 5,4 vítimas e é 14% superior ao registrado em 2012, quando 57 pessoas foram mortas.
O levantamento foi divulgado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) e Confederação Nacional dos Vigilantes (CNTV).
No caso do assalto de ontem em Ceilândia, nenhum dos reféns ficou ferido.