A mulher sóbria, case de fala mansa e sorriso tímido, story respira descontração ao chegar em casa. Já do portão, pharm a voz pronuncia palavras dengosas. Toma ares de mãe. Antônia Rodrigues, 50 anos, administradora, surge do quintal com Sheik, cinco anos, e Atos, seis anos, cães machos da raça mastim napolitano. “Eu crio os dois desde filhotes. São muito apegados a mim”, revela. Apesar do encontro feliz, a expressão de Antônia é triste. Ela acabou de descobrir que Atos está doente, pois apresentou resultado positivo no exame para detectar leishmaniose, feito pela Secretaria de Saúde.
Foram entregues, ontem, 319 laudos com os resultados dos exames no Lago Norte e outros 50 no Varjão. Os proprietários dos cães podem pegar os resultados até amanhã nos centros de Saúde da QI 3 (Lago) e da Quadra 5 (Varjão), das 9h30 às 16h, com intervalo para almoço (12h às 13h). No Lago Norte, a Secretaria de Saúde coletou o sangue de 5.474 cães, dos quais 1.017 estão infectados. No Varjão, dos 658 examinados, 76 contraíram a doença. As coletas para os exames começaram em junho, quando alguns casos de leishmaniose em cães foram confirmados por clínicas veterinárias da região.
De acordo com a Diretoria de Vigilância Ambiental, quem não conseguir ir ao posto de saúde até amanhã, poderá pegar o resultado posteriormente na Secretaria de Saúde. “Nós iremos ajudar os moradores da seguinte maneira: os resultados que deram positivo, nós iremos ligar e informar. Se for possível, iremos colocar os negativos nas caixas de correio das casas, mas isso não está garantido. De qualquer forma, o resultado estará disponível na secretaria”, informa o técnico veterinário Péricles Massunaga.
Dos proprietários de cães que pegaram o laudo ontem, alguns estavam desolados. Outros, muito felizes. Todos aqueles que possuem animais que apresentaram resultado positivo para a presença da doença, tiveram uma orientação individual sobre os próximos passos a ser tomados. Antônia descobriu que tem direito a realizar uma contraprova por meio de dois exames. Só depois disso, será orientada a fazer, ou não, a eutanásia do cão.
“Vou fazer os dois exames, até porque o Atos está saudável, não apresenta nenhum sinal da doença. Se der positivo novamente, eu aceito o sacrifício dele. Eu só fico com pena do outro cachorro. Se um for morto, acho que o Sheik morre em três meses, de depressão”, conta a administradora. Os exames de contraprova – chamados parasitológico e molecular – devem ser providenciados pelo dono do cão em clínica particular e entregues à Secretaria de Saúde em até 30 dias. Depois desse prazo, o cachorro pode ser recolhido para a eutanásia.
“Nós estamos tendo o cuidado de indicar dois exames diferentes daqueles que a secretaria fez, para que a margem de erro não seja a mesma. Se um dos exames extras pedidos der positivo, o cão deve ser sacrificado. Se os dois derem negativo, iremos desconsiderar o exame positivo da secretaria”, explica Péricles. A Secretaria de Saúde realizou exames sorológicos, capazes de detectar os anticorpos do animal à leishmaniose – e que podem existir também se o cão tiver tomado uma vacina contra a doença.
Os humanos só são considerados reservatórios da doença em casos muito específicos. Isso ocorre quando a pessoa está com imunidade bastante baixa (situação de pessoas contaminadas pela leishmaniose e Aids, por exemplo).
Segundo o pesquisador César Carranza, do Núcleo de Medicina Tropical da Universidade de Brasília, nas nações onde o tratamento de cães é difundido, existe outra questão em jogo.
“São países mais desenvolvidos, que conseguem combater com eficácia os insetos. Se não há insetos, eles garantem que não haverá contaminação. Mas essa não é uma realidade local”, enfatiza o médico.
Ao determinar o sacrifício dos cães, a Secretaria de Saúde está calcada na Lei 6.259, de 30 de outubro de 1975, que dispõe sobre a organização das ações de vigilância epidemiológica.
Caso o proprietário se recuse a encaminhar o animal para o orgão responsável pelo controle de zoonoses, terá que assinar um termo dizendo que está ciente do resultado do laudo. O caso, então, será levado à Justiça.
De acordo com a Promotoria de Defesa dos Usuários do Sistema Único de Saúde do Ministério Público, as pessoas que não autorizarem o sacrifício do animal estarão cometendo um crime.
Estarão se opondo à política sanitária adotada pelo estado e, portanto, colocando em risco a saúde das demais pessoas.
A leishmaniose viceral é causada por um protozoário denominado leishmania. Ele precisa do mosquito fletobomíneo (vetor) e de um animal vertebrado (reservatório) para completar o seu ciclo de vida. O cão é o principal reservatório da leishmaniose no ambiente urbano. A doença, que pode ser transmitida ao homem, só ocorre por meio da picada do inseto. Assim, o fletobomíneo pode depositar o sangue de um cão contaminado no homem, ou em outro cão, cujo organismo é mais suscetível ao protozoário.
Se um ser humano foi picado, os sintomas podem aparecer entre 10 dias e dois anos depois, mas o período médio é de dois meses. O fletobomíneo vive em locais ricos em matéria orgânica em decomposição, com presença de umidade, ausência de movimentação de ar e ausência parcial ou total de luz.
Este ano, foram confirmados quatro casos de leishmaniose em pessoas, todas elas moradoras da Fercal, área rural de Sobradinho II. Apesar do tratamento da doença em humanos funcionar em mais de 90% dos casos, a medicação é considerada muito forte, e pode afetar os órgãos internos do doente. Se não for tratada, por outro lado, a doença pode matar.
O tratamento em humanos é feito por meio de dois medicamentos. Algumas clínicas veterinárias usam os mesmos remédios nos cães, o que não é recomendado pelo Ministério da Saúde. O Núcleo de Medicina Tropical da Universidade de Brasília (UnB) também condena o tratamento de cães.
“O problema é que os cães são muito suscetíveis à essa doença. Com o tratamento, o animal pode melhorar fisicamente, mas ele não elimina o parasita. Por isso, continua sendo um reservatório e pode transmitir a doença”, explica o médico César Carranza, pesquisador da UnB.