No Trecho II do Sol Nascente, no Distrito Federal, um projeto da Universidade de Brasília (UnB) tem colocado em prática estratégias de adaptação climática em área periférica marcada por alagamentos, erosões e carência de infraestrutura verde. A iniciativa propõe o uso de Soluções Baseadas na Natureza (SbN) como alternativa às obras tradicionais de drenagem.

Intitulado “Ação nas Periferias: Apoio à Implementação de Soluções Baseadas na Natureza (SbN) para a Adaptação Inclusiva das Periferias Urbanas às Mudanças Climáticas”, o projeto recebeu apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), por meio do edital Seleção Pública de Projetos de Extensão (2024).
A coordenação é da professora Liza Maria Souza de Andrade, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB e do Laboratório Periférico – Assessoria Sociotécnica. A pesquisadora atua na área de urbanismo sensível à água e desenvolve trabalhos voltados à aplicação de ciência em territórios periféricos.
Diagnóstico e resposta local

A proposta partiu de um diagnóstico realizado no próprio território, que identificou problemas recorrentes como alagamentos frequentes, processos erosivos, drenagem insuficiente e escassez de áreas verdes. Esses fatores, segundo a equipe, se intensificaram com o aumento de eventos climáticos extremos.
As chamadas Soluções Baseadas na Natureza utilizam processos naturais para enfrentar desafios urbanos. Em vez de depender exclusivamente de canalizações e estruturas de concreto, a estratégia integra vegetação, solo permeável e sistemas naturais de drenagem para permitir a infiltração da água da chuva no solo, o que reduz o escoamento superficial e o risco de enchentes.
Jardim de chuva como protótipo

No Sol Nascente, foi implantado um jardim de chuva integrado à bacia de detenção da Quadra 209. A estrutura foi dimensionada para captar e infiltrar a água pluvial, com o objetivo de reduzir riscos socioambientais na região.
A intervenção seguiu metodologia participativa baseada em pesquisa-ação. Moradores contribuíram no diagnóstico, na escolha do local e na execução da solução. Oficinas técnico-comunitárias, curso de extensão com módulos teóricos e práticos, atividades educativas com escola local e capacitação de agentes territoriais fizeram parte da iniciativa.
“O que buscamos foi demonstrar que é possível construir adaptação climática a partir do território, com a comunidade como coautora das soluções”, afirmou a coordenadora do projeto.
Parcerias e tecnologia

A ação integra o projeto SbN nas Periferias, coordenado pelo Ministério das Cidades, e contou com parceria da Administração Regional do Sol Nascente/Pôr do Sol, do CAU-DF, do Coletivo Panã, da Rede Ecosol, da Escola PNorte, do gabinete Aba Reta da CLDF e do Consórcio Internacional TRANS-Lighthouses, vinculado ao Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
O projeto também utilizou drones e fotogrametria — técnica que gera mapas detalhados a partir de imagens aéreas — para identificar áreas de risco e orientar as intervenções.
Formação e impacto

A formação foi eixo central da proposta. Moradores, lideranças comunitárias e estudantes receberam certificação institucional após participação nas atividades, ampliando a capacidade local para manutenção e monitoramento das estruturas implantadas.
Entre os resultados apontados estão a implantação de infraestrutura verde em área vulnerável, a sistematização de metodologia para replicação em outros territórios, a produção de material técnico e científico e a elaboração de subsídios para políticas públicas de adaptação climática.
A estimativa é de que cerca de 500 pessoas tenham sido beneficiadas diretamente e entre 3 mil e 5 mil indiretamente, considerando o alcance territorial e o potencial de replicação.
Para o diretor-presidente da FAPDF, Leonardo Reisman, a iniciativa demonstra o papel da pesquisa aplicada na redução de vulnerabilidades e na promoção de desenvolvimento sustentável no Distrito Federal.