Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
*Por Gabriela Cidade
Quinze mil professores temporários, salas de aula lotadas, educadores sem apoio e uma categoria que já fez duas greves no atual governo sem ver reposição salarial significativa.
Esse é o cenário que levou os professores da rede pública do Distrito Federal a se reunirem nesta quarta-feira (18) em assembleia do Sinpro-DF para cobrar mudanças nas condições de trabalho na área de educação
A primeira assembleia geral com paralisação de 2026 aconteceu no estacionamento do Eixo Cultural Ibero-Americano. Não houve decretação de greve.
O encontro aprovou o calendário de lutas 2026 da categoria, que inclui: zerar o banco de aprovados no último concurso para professores efetivos, que aconteceu em 2022; novo concurso público para suprir a carência de profissionais em diversas áreas; reestruturação da carreira; celeridade e desburocratização de aposentadoria aos profissionais da Secretaria de Educação; combate à militarização das escolas e a favor da gestão democrática.
A reestruturação da carreira do magistério é uma das principais pautas da categoria. O objetivo é equiparar o salário base dos professores e orientadores educacionais à média dos demais servidores públicos do DF com a mesma escolaridade, meta prevista no Plano Distrital de Educação (PDE). A categoria ainda recebe salários abaixo da média.
Entre as mudanças reivindicadas está a redução dos níveis da tabela salarial de 25 para 15, com progressão a cada três anos. Na prática, isso significa que os professores chegariam mais rápido ao topo da carreira com impacto direto no cálculo da aposentadoria.
A categoria também cobra a regulamentação da gratificação de coordenação pedagógica (Gacop), hoje fixada em R$ 300, valor que, segundo o sindicato, é perdido assim que o professor deixa a função.
Professores alfabetizadores que atuam nos anos iniciais e no primeiro segmento da Educação de Jovens e Adultos (EJA) reivindicam a Gratificação de Atividade de Alfabetização (GAA).
Já os que trabalham com alunos com deficiência ou transtornos em escolas regulares cobram a garantia da Gratificação de Atividade de Ensino Especial (GAEE), benefício que, atualmente, não é assegurado a todos que exercem essa função.
Professores temporários
A quantidade de professores temporários na rede pública do DF é outro ponto central do debate. São 15 mil contratos temporários ativos, e os impactos dessa realidade se fazem sentir dentro das salas de aula. Na Escola Classe 115 Norte, o professor Janio Alcantara, de 57 anos, que é coordenador pedagógico, estima que entre um terço e 45% do corpo docente é formado por temporários. Na escola onde leciona, a pedagoga Ingrid Santos, 29 anos, esse número chega a 50%.
Um dos impactos principais é a descontinuidade do ensino, que afeta o aprendizado das crianças, afirma Jânio. Para ele, a precariedade do vínculo também impacta o próprio professor: sem estabilidade, o temporário tem menos condições de se dedicar ao trabalho.
A categoria reivindica a nomeação de todos os aprovados no concurso público de 2022 — mais de 2 mil pessoas ainda aguardam a convocação. Das três mil nomeações realizadas recentemente, 718 candidatos não tomaram posse. O Sinpro-DF também cobra a realização de um novo concurso público para suprir a carência de profissionais em diversas áreas da rede.

Dentro das escolas
A lotação das salas de aula é um dos problemas mais citados pelos docentes. Jânio Alcantara observa o problema de perto. “As classes aumentam”, diz. Cerca de 15% dos 300 alunos da escola têm alguma deficiência ou Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD), e o apoio disponível se resume ao monitor ou Educador Social Voluntário, cargo que, segundo Jânio, é precarizado e insuficiente para a demanda.
No Centro de Ensino Médio Paulo Freire, o professor de matemática Luan do Planalto, 24 anos, divide oito turmas de segundo ano com cerca de 40 alunos cada. “É muito ruim, pois é um colégio que tem muitos alunos e as salas são pequenas”, conta. Uma das estudantes é usuária de cadeira de rodas e cega, e só conseguiu monitor de apoio neste ano.

Foto: Gabriela Cidade
“O professor se sente desamparado”, afirma. “Não tem condição de alfabetizar uma criança com a sala de aula lotada.
O adoecimento da categoria é consequência direta desse cenário. Andressa Vieira, 37 anos, pedagoga com 14 anos de rede, viveu isso na pele: teve burnout enquanto estava na direção de uma escola. Ela não é exceção. Nájila Mota, professora de quinto ano, nunca se afastou por questões de saúde mental, mas faz questão de ressaltar: “ainda não me afastei”, brinca, sem esconder o peso da frase.
*Supervisão de Luiz Cláudio Ferreira