Jurana Lopes
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Famosa por ser uma cidade planejada, muitos não imaginam que, no centro da capital, existam prédios abandonados que se tornaram abrigos para moradores de rua e usuários de drogas. São edificações destruídas repletas de pichações, mato alto e sujeira.
Na 713 Sul, um hospital abandonado tornou-se abrigo para moradores de rua. O prédio, onde funcionava o Hospital São Braz, está jogado às traças. Com paredes pichadas e vidros quebrados, o local gera insegurança. Muitas casas da região estão com placas de venda, e quem vive perto toma suas próprias precauções.
“Eu tenho medo de caminhar na calçada no final da tarde ou no início da noite. É bastante perigoso. Tem muito morador de rua que se abriga no prédio. Eles acabam incomodando, porque, além de causar insegurança, batem nos portões pedindo. Eles são insistentes, batem com força até a gente abrir”, relata a professora aposentada Marilourdes Solino, 77 anos.
Antônio Vieira, 44 anos, é dono de um quiosque ao lado do antigo hospital. Ele explica que o local foi desativado há, pelo menos, cinco anos e, depois, passou a ser ocupado por usuários de drogas e moradores de rua. Por causa da presença deles, nem o estacionamento do edifício é utilizado. Segundo o comerciante, quem deixa o carro no local acaba ficando sem as rodas. Outro problema, relata, é a sujeira.
“Esses moradores de rua fazem de tudo aí dentro. Desde que eles ocuparam o local, ratos e insetos começaram a aparecer, o que é um grande problema”, reclama. O comerciante afirma ainda que, no final da tarde, a região se torna ainda mais perigosa por conta da falta de movimento nos prédios vizinhos.
Segundo Antônio, muitos estudantes foram vítimas de assaltos porque insistiram em passar na lateral do prédio abandonado, próximo a duas escolas. A equipe do JBr. não conseguiu contato com os donos do hospital. A Agência de Fiscalização do DF (Agefis) informou que o Hospital São Braz sofre ações administrativas da Agefis há cinco anos. A antiga unidade hospitalar é notificada desde 2011.
Centro Islâmico: mato, lixo e abrigo
Outro local abandonado é o Centro Islâmico do Brasil, na 712/912 Norte. O prédio, uma mesquita antiga, está repleto de mato, entulho e lixo. Como as cercas foram cortadas, moradores de rua usam o lugar como abrigo. Além disso, à noite, há quem entre no que restou da mesquita para beber e fazer arruaças. No lote, existem quatro casas. Procurados, os moradores do terreno não quiseram dar entrevistas.
Com uma mesquita em frente, em funcionamento, o Centro Islâmico informou que o terreno é da Embaixada da Arábia Saudita. A Terracap vendeu o lote ao centro em 1981. Em nota, a delegação da Arábia Saudita informou que a área foi doada à embaixada e que não está abandonada e, em breve, será construído algo para a comunidade islâmica, uma escola ou um salão para eventos religiosos.
A professora Elouise Choma, 30 anos, mora perto da antiga mesquita e diz que o local não a incomoda. “Nunca percebi nada estranho, a não ser à noite. O que vejo é o mato alto. Na minha opinião, não traz prejuízos à população”, avalia.
Escola de Guerra: Ruínas da UnB
Concreto e mato cercam o local conhecido como Ruínas da UnB. A construção interrompida fica em uma área ao lado da Universidade de Brasília e às margens do Lago Paranoá. Para ir até lá, é preciso passar por uma estreita estrada de terra. A construção abrigaria a Escola Superior de Guerra, com projeto do arquiteto Sérgio Bernardes, na década de 1970. Entretanto, o local ficou esquecido, e o mato tomou conta da construção. As vigas, altas, foram danificadas pelo tempo e hoje estão repletas de rachaduras.
Vista de perto, a obra exibe um aspecto intrigante e até assustador. As grossas paredes com poucas portas e sem janelas avançam até o Lago Paranoá. Escadas sem uso descem para o subsolo parcialmente alagado. O cerrado invade os escombros. Olhando do alto, percebe-se que a edificação misteriosa tem formato triangular.
As ruínas estão cercadas por água e mato, um zigue-zague de muros e acessos inacabados. O cenário assusta, e há muito lixo espalhado, além de grafites e pichações. Na laje, há buraco e rachaduras. Em nota, a instituição informou que a área pode ser acessada pelo interior da universidade, mas que não pertence à UnB e nunca teve relação alguma com a instituição.
Clube
Fechado por mais de 15 anos, o Clube do Servidor agora possui guardas em sua entrada, e o prédio é utilizado de vez em quando para eventos da Universidade de Brasília. A Advocacia-Geral da União (AGU) transferiu, em junho de 2011, a responsabilidade pelo Clube do Servidor à Universidade de Brasília (UnB).
Em vistoria realizada na última quarta-feira pela AGU, foi constatado que a UnB realiza diariamente a limpeza das áreas que apresentam acúmulo de água, principalmente as piscinas desativadas. A UnB também corta regularmente a grama existente no terreno. Áreas com mato alto ainda remanescentes estão com previsão de corte, mas não foi executado devido ao atual período chuvoso.
Dedetizações e perda de hóspedes
Em frente ao Eixo Monumental, está o antigo Torre Palace Hotel. O edifício, de 14 andares e 140 apartamentos, se transformou em um dos principais pontos de drogas do DF, desde que foi desativado, no início de 2013. Na Quadra 4 do Setor Hoteleiro Norte, o prédio foi tomado pelo abandono. Os vidros das janelas e do hall de entrada foram quebrados, as portas arrancadas, as paredes pichadas e quebradas, além da sujeira, espalhada por toda parte.
O taxista Gerardo Andrade, 55 anos, faz ponto em frente ao antigo hotel há vários anos e afirma que a situação incomoda bastante. “Esses cidadãos intimidam quem passa por aqui. Eles usam drogas e traficam sem se importar com nada. A polícia até passa, mas não adianta. Enquanto esse prédio não for derrubado, a situação tende a continuar como está, se não piorar”, avalia. Ele relata que alguns moradores de rua tentam roubar os carros estacionados nas proximidades.
Um funcionário de um hotel próximo, que não quis se identificar, informou que, por causa da sujeira e do abandono do edifício, começaram a aparecer ratos, baratas e mosquitos no local. “Antes, fazíamos a dedetização a cada 20 dias. Agora, somos obrigados a fazer a cada dez dias. Tudo isso por causa da sujeira acumulada nesse edifício, que atrai insetos para os arredores”, informa.
O homem explicou que os hóspedes, ao contrário de antigamente, preferem os quartos com vista para o lado contrário do Eixo Monumental, voltados para a Asa Norte, para não terem que ver o hotel abandonado: “Estamos perdendo hóspedes por causa desse edifício cheio de usuários de drogas. Até para ir ao McDonald’s, eles pedem táxis ou que algum funcionário do hotel os acompanhe. Sem contar que temos mais de cem moradores inseguros com a presença deles”.
Saiba mais
O Torre Palace Hotel foi fundado pelo empresário libanês Jibran El-Hadj, inaugurado em 1973, e funcionou por 40 anos. Com a morte do patriarca, em 2000, o imóvel passou à gestão dos sete herdeiros, que teriam entrado em desacordo sobre os rumos do hotel. Os herdeiros entraram em contato com a construtora Brookfield Incorporações, que iniciou as negociações para comprar o lote e construir um novo edifício. Porém, a construtora e a família de Jibran não entraram em acordo, o que interrompeu a venda. A incorporadora disse que não tem responsabilidade sobre o local.
A equipe do JBr. tentou contato com o advogado da família, mas não teve retorno. A Agefis informou que o hotel já foi notificado, multado e interditado. Além disso, é multado mensalmente no valor de R$ 3,7 mil.