O posto irregular em construção em Vicente Pires pode representar mais do que o descumprimento de normas burocráticas. Moradores e comerciantes se mostram inseguros com a obra não autorizada, devido à presença de um estoque de combustível nas proximidades. E sem a documentação necessária, ainda por cima, pode ser que o estabelecimento sequer consiga aval para exercer sua principal atividade: revender combustível.
De acordo com a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), para revender legalmente o produto, é preciso apresentar uma série de papéis com verificações ambientais, licenciamentos e laudo do Corpo de Bombeiros. Sem a possibilidade de concessão de alvará, por se tratar de uma área em regularização, não haveria, em tese, a possibilidade de a Calltech, empresa responsável pelas obras no terreno, entrar no mercado sob anuência da agência.
A empresa em questão é ligada a José Olimpio Queiroga Neto, ex- sócio do bicheiro Carlinhos Cachoeira, ambos investigados pela Polícia Federal pela exploração de jogos de azar.
Conforme mostrou a reportagem de sexta, a única licença à disposição da empresa é a de Instalação, concedida pelo Instituto Brasília Ambiental (Ibram), que já havia emitido a Licença Prévia (LP). O órgão reafirmou que a Calltech apresentou os requisitos necessários e apontou a existência de um “parecer técnico, emitido pela Administração Regional de Vicente Pires, favorável ao empreendimento”.
Indagada sobre tal documento, a administração, que na reportagem anterior afirmou não ter conhecimento nem ter emitido autorização para o desempenho da atividade comercial no local, não respondeu à nova demanda.
Segurança
Empresária e residente de Vicente Pires há 17 anos, Rosângela Ferreira, 48, teme por sua segurança, já que mora perto do posto em obras. “Já pensou se acontece alguma coisa e eu perco tudo? Deus me livre!”, diz.
Ela admite a necessidade do serviço na região, mas acredita que o local escolhido foi o pior possível. “Fica perto da mata onde mora um bando de miquinhos e em cima de uma mina d’água. Se furar o solo em meio metro é capaz de jorrar água”, aponta.
O professor de hidrogeologia da Universidade de Brasília (UnB) José Elói Guimarães Campos confirma a existência de aquíferos na região, mas diz que só há motivo para preocupação caso não haja competência, o que, segundo ele, infelizmente, é comum.