A média mensal de mortes por atropelamento de pedestres aumentou no Distrito Federal. De acordo com o Departamento de Trânsito (Detran-DF), enquanto em todo o ano passado foram registrados 119 casos, uma média de 9,9 por mês, até junho deste ano já haviam sido contabilizados 69, aproximadamente 11,5 mortes mensais. O número total de óbitos em acidentes também subiu, passando de 172 casos, em 2013, para 184 no mesmo período de 2014. Diante dos dados, não é por acaso que a Semana Nacional do Trânsito, cuja abertura é hoje, tem como um dos objetivos alertar sobre as mortes nas vias.
O medo de entrar para as estatísticas não impediu a telefonista Maria Gomes, de 42 anos, de atravessar o Eixinho Sul fora da passagem subterrânea. “Estou com dor nas pernas e a passarela estava distante. Como não há faixas de pedestres próximas, o jeito foi me arriscar entre os carros”, justifica.
O estudante Leandro Melo, 25 anos, também preferiu se expor ao risco. “As passagens estão mal cuidadas, têm um cheiro ruim e são perigosas, mesmo de dia”, argumenta.
Já a médica Carolina Alves Rocha, 38 anos, não atravessa fora da faixa de jeito nenhum. “Os brasilienses reclamam, mas nos outros estados a situação é bem pior. As pessoas não têm o costume de usar e muito menos de parar nas faixas de pedestres”, alega.
Mudança
Mas a farmacêutica e motorista Carla Castanho Almeida, de 45 anos, diz ter percebido uma mudança na cultura de respeito a faixa no DF. “Vejo que muitos motoristas ignoram os sinais dos pedestres para parar, há alguns anos havia mais respeito. Além disso, quando alguns motoristas param na faixa, se dão mal. Eu sempre paro, ligo o pisca-alerta e sinalizo com a mão, mas uma vez um apressadinho não viu e bateu na minha traseira”, conta.
Para conscientizar os motoristas, o Detran criou o projeto Faixa Cidadã, que distribui cartilhas incentivando o respeito aos locais de travessia e dando dicas de como evitar acidentes (leia mais no quadro).
Diretor do departamento entre 1995 e 1996, Luiz Miúra avalia que a sociedade ainda não evoluiu para as questões de trânsito. “O pedestre não tem que dar sinal de vida. Isso é refletir a imposição do motorista. Basta ele se aproximar da pista que o carro deve parar”, pondera. “É preciso manter e criar novas passagens para o pedestre”, emenda.
Até o ano passado, Miúra foi diretor de Trânsito em Boa Vista, Roraima. Lá, foi instituída a obrigatoriedade de o motorista ligar o sinal de alerta do carro. “Isso é um passo para que o cidadão se sinta seguro”.
Imprudência pega no bolso do motorista
Muita gente se esquece, mas deixar de parar na faixa resulta em multa de R$ 117 e três pontos na carteira. Por esse motivo, com o intuito de evitar desculpas como falta de visualização e iluminação, o Detran está utilizando uma nova tecnologia para a sinalização de faixas de pedestre e quebra-molas. Trata-se de um material elastoplástico laminado, que garante maior visibilidade e durabilidade. A instalação é rápida: são cerca de dez minutos.
Para a mudança, o Detran investiu R$ 833 mil em cinco mil metros de material na cor branca e outros dois mil metros na cor amarela. Apesar de a sinalização feita por pintura ser 30% mais barata, a durabilidade dela é de seis meses, enquanto o novo material pode durar mais de três anos.
Comportamento
Na avaliação do especialista em educação e mobilidade urbana Humberto Rolo Paulino, um dos maiores problema do trânsito é o comportamento inadequado. “Veículos e pedestres precisam se deslocar em um espaço dividido. Nessas circunstâncias é natural que os conflitos ocorram, por isso a necessidade de serem disciplinados por leis, fiscalização, equipamentos de controle, mas, sobretudo, pelo comportamento das pessoas”, diz.
Segundo Paulino, o sucesso das campanhas tem relação direta com o tamanho da área de abrangência e uma fiscalização intensa. Para ele, um dos motivos para que a faixa de pedestres seja mais respeitada no DF é o menor número de faixas e cruzamentos em comparação a outras cidades. “Brasília tem condições que favorecem a ordem no trânsito. Com menos faixas e cruzamentos fica mais fácil fiscalizar. No entanto, é preciso que pedestres e motoristas façam sua parte”, avalia. (Colaborou Ary Filgueira)