Quando chegarem a Águas Lindas, seek município no Entorno do Distrito Federal a 47 quilômetros de Brasília, os agentes da Força Nacional de Segurança terão de superar a desconfiança da população em relação às estatísticas oficiais de violência na cidade. Apesar de o comando local da Polícia Militar considerar a criminalidade sob controle e inferior à média da região, a comunidade acredita que o número de crimes, na verdade, é maior.
De janeiro a setembro de 2007, o batalhão local de Águas Lindas registrou 33 assassinatos, 49 tentativas de homicídio e 156 roubos em geral, que incluem todos os tipos de assaltos. Para os moradores, no entanto, somente uma parcela das denúncias, de fato, chega à polícia.
“Muitas vítimas não denunciam porque ficam com medo de represália. Muitos roubos e furtos acontecem até nos pontos de ônibus, sem que seja feito registro”, argumenta Geraldo Cabral, presidente de uma organização não-governamental que presta serviços de assistência à comunidade.
Para Cabral, os 213 policiais e 26 viaturas que vigiam a cidade são insuficientes para atender à demanda por segurança na região. O líder comunitário também considera que a precária infra-estrutura urbana da cidade dificulta o acesso a locais onde se concentram os criminosos.
Falta rede de esgoto na cidade e a água para beber vem de poços artesianos. As casas, na maioria, são vulneráveis à ação de criminosos, pois não têm muros ou grades reforçadas e costumam ficar vazias durante boa parte do dia, enquanto os moradores trabalham no Distrito Federal. Segundo Cabral, o crescimento acelerado da população também preocupa, por causa da falta de emprego para os jovens.
Algumas entidades têm procurado colaborar com oficinas de capacitação. A Companhia de Desenvolvimento Municipal (Codealgo), de Geraldo Cabral, conduz o projeto Homens do Amanhã, que oferece cursos de elétrica, agricultura, marcenaria e jardinagem para 30 jovens em conflito com a lei e 70 em situação de risco social.
Outra iniciativa vem da Associação Cultural Ninho dos Artistas, que desde a década de 80 já ensinou a 2 mil jovens a arte de pintura em telas, esculturas e calçados. A venda dos produtos mantém a instituição nos períodos em que não há incentivo do Poder Público.
O responsável pelo projeto, Ednaldo Azevedo, tem visão diferente sobre o envio dos agentes da Força Nacional a Águas Lindas. “Não vejo necessidade da presença de tropas especiais. A polícia sabe onde estão os bandidos e não precisa abordar o cidadão nas ruas”, critica. Para ele, os gastos com a presença da tropa poderiam financiar mais políticas públicas para jovens.
Enquanto os agentes da Força Nacional não chegam à cidade, a Polícia Militar anuncia ações para reforçar a vigilância. Para evitar os roubos em pontos de ônibus, o coronel José Luís Biando, do 17º Batalhão da Polícia Militar de Águas Lindas, informa que o patrulhamento nos locais será intensificado próximo às festas de fim-de-ano, quando muitos moradores chegam com compras feitas em Brasília.
O coronel também anuncia medidas para conter a criminalidade nos setores mais violentos de Águas Lindas, conhecidos como Barragem e Cidade do Entorno. “São locais onde têm aumentado os furtos a residência e os crimes contra a vida. Já estamos providenciando um nova unidade da PM para dividir a cidade em dois setores”, informou Biando.
Biando diz ainda que as vítimas de violência não precisam ter medo de comunicar os crimes às autoridades. Ele lembra que a polícia recebe qualquer denúncia, inclusive anônima, pelo telefone 190 e também por meio de uma ouvidoria instalada no batalhão.