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Brasília

Pombos são bonitinhos, mas perigosos para a saúde humana

Arquivo Geral

25/08/2014 7h49

“Pombos são ratos de asas”, diz a sabedoria popular. E, nesse caso, a ciência concorda. Estudos mostram que as aves, classificadas como sinantrópicas – grupo de animais que se adaptaram a viver junto ao homem – podem transmitir tantas doenças quanto os roedores. No Distrito Federal, a Praça dos Três Poderes se tornou a morada oficial da espécie.  A aceitação deles é tão grande que existe até uma área, desenhada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, onde os pombos fazem ninhos e se reproduzem. Os restaurantes também sofrem. Os pássaros, considerados uma praga das grandes cidades, chegam a dar voos rasantes sobre as mesas e afastam a clientela. 

Até o ano passado, havia 2 milhões de pombos no DF. Eles transmitem mais de 50 tipos de doenças, entre elas diarreia, febre, alergias respiratórias, cegueira e infecções. Também carregam piolhos, ácaros, carrapatos e outros parasitas. A principal forma  de contaminação é pelas fezes e pelo ar, de modo que o tempo seco pode favorecer – e muito – a propagação de enfermidades. 

Cartilha

De olho nesse problema de saúde pública, o Centro Universitário UniCeub acaba de lançar uma cartilha, produzida pela equipe do Projeto de Extensão em Gestão Ambiental, com um plano de ação para o  controle de animais sinantrópicos. O material chama a atenção para a responsabilidade de cada cidadão em relação aos pombos e dá dicas de como afastá-los de sua casa ou estabelecimento comercial.

Segundo Andrea Libano, professora do Projeto de Extensão em Gestão Ambiental do UniCeub, cuidados simples fazem com que os pombos deixem, progressivamente, de frequentar determinada área. “O primeiro passo é educar os frequentadores do local. No nosso caso, alunos e professores receberam instruções para não alimentar os pombos e os funcionários foram orientados a manter a praça de alimentação o mais limpa possível. Além disso, criamos barreiras físicas, instalando telas de nylon que dificultam o acesso deles às nossas dependências e não interferem na estética dos prédios”, explica.

E não para por aí. “Limpamos as áreas de ninhos uma vez por mês, antes que as fêmeas possam colocar novos ovos e soltamos até um gavião mecânico (predador natural de pombos), que batia as asas e emitia sons para afastá-los. Mas logo eles perceberam que o gavião não era de verdade, passaram a atacá-lo e voltaram a frequentar o local”, explicou.

Investimentos têm dado retorno 

Andrea Libano, professora do Projeto de Extensão em Gestão Ambiental do UniCeub, conta que o próximo passo no estabelecimento de ensino será a colocação de sonorizadores e luzes refletoras próximo à área de ninhos. “Esse aparelho imita o som emitido por predadores. A luminosidade, por sua vez, os incomoda, o que deve mantê-los longe por um bom tempo”, afirma. 

Os investimentos têm valido a pena. “Em fevereiro tínhamos uma população de 60 pombos no centro universitário, agora temos apenas 23 residentes (que dormem no local)”, orgulha-se.

Segundo a professora, para chegar ao número exato de pombos que vivem no campus, pessoas envolvidas no projeto de controle esperam anoitecer e fazem a contagem dos pássaros. “Provavelmente nunca chegaremos a zero. Mas pombos vivem em grupos, como nós, então se percebem que não podem ficar com a família em determinada área acabam indo embora. A estimativa é que em cinco anos já não tenhamos mais adultos aqui”, analisa. 

Rodoviária

Na Rodoviária do Plano Piloto – por onde transitam milhares de pessoas por dia – os pombos estão em toda parte. “Me preocupo porque sei que eles transmitem doenças. Mas aqui não temos para onde correr. Acho que se as rodoviárias fossem mais limpas e bem cuidadas a população de pombos diminuiria”, diz Stela Soares, professora de química, de 37 anos. Bem longe dali, frequentadores da Rodoviária do Gama também reclamam da enorme quantidade de aves que circulam pelo local.

 Presença incômoda no comércio

Os restaurantes também sofrem com os visitantes indesejados. Por ser um local de alimentação, pedaços de comida costumam cair no chão, atraindo pombos, ratos e baratas. Além disso, restos da comida que não foi consumida costumam ser despejados em grandes lixeiras ao final do expediente, o que faz com que um grande número de animais se aglomere nos  seus arredores. 

Em um restaurante no Sudoeste, não foi difícil encontrar pombos dividindo espaço com os clientes. Eles andam entre as mesas, pousam em cima delas e até voam sobre a cabeça dos frequentadores. 

“Me incomoda bastante a presença desses bichos. Mas não acredito que seja possível controlar essa praga de maneira efetiva. Eles sempre existiram e vão continuar a nos incomodar”, acredita o empresário Geraldo Leal, de 39 anos.

No centro do poder

Pessoas que passeiam pela Praça dos Três Poderes, em meio aos pombos, no entanto, confessam que muitas vezes não se lembram dos malefícios que um contato mais próximo com essas aves pode causar. “Não nos atentamos muito para isso porque estávamos entretidos com a vista, tirando fotos, mas é realmente de se preocupar”, comenta o casal de empresários Nara Vilela, de 40 anos, e Luiz Cézar Vilela, de 41. Já a estudante Ana Carla Barreto,  de 30 anos, estava alerta. “Quando chegamos havia crianças correndo atrás dos pombos e dando comida quase no bico deles. Até comentamos o perigo”, conta.

Ivanildo de Oliveira, diretor do Departamento de Vigilância Ambiental (Dival), da Secretaria de Saúde do DF, fala sobre prevenção. “A política pública para controlar o problema no DF é incentivar a população a não abrigar e alimentar os pombos, manter áreas residenciais e comerciais limpas e, quando necessário, vedá-las para evitar que as aves acessem seu interior”, disse.

Arquitetura da cidade facilita adaptação

De acordo com Ivanildo de Oliveira, diretor do Departamento de Vigilância Ambiental (Dival), da Secretaria de Saúde do DF, os pombos brasileiros  descendem de uma espécie europeia conhecida como Pombos da Rocha, que utilizava rochedos como abrigo para fazer ninhos. “Em função dessa herança genética, a espécie que vive em meio urbano se adaptou muito bem a Brasília. A cidade tem prédios com uma arquitetura moderna, geométrica e favorável à criação de frestas utilizadas como moradia por esses pássaros”. 

Matar dá cadeia

A Lei Federal nº 9.605/98, em seu artigo 29, determina que: “Matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, resulta em detenção de seis meses a um ano e multa”. 

Segundo a lei, incorre nas mesmas penas “quem impede a procriação da fauna, sem autorização ou em desacordo com a obtida; quem modifica, danifica ou destrói ninho, abrigo ou criadouro natural e quem vende, exporta ou adquire espécimes da fauna silvestre, nativa ou em rota migratória, bem como produtos e objetos dela oriundos,  sem a devida permissão da autoridade competente”.                                   

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