A colação de grau da turma do primeiro semestre de 2014 do curso de Gestão em Recursos Humanos do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb) foi diferente. Cinco surdos estavam no palco com capelo, beca e muita emoção pela conclusão da graduação, mas não podiam compreender o que era sendo dito na solenidade. Isso porque todos os intérpretes e tradutores de Língua Brasileira de Sinais (Libras) foram demitidos para uma reestruturação da instituição.
O problema de acessibilidade nas faculdades do DF não se resume a isso, já que os estabelecimentos não possuem estrutura total para acolher as pessoas com deficiência. Entretanto, há critérios legais para receber pessoas com necessidades especiais ou mobilidade reduzida.
No silêncio
Acadêmica de Gestão em Recursos Humanos no Iesb, Rute Silva, 18 anos, diz sofrer com a falta de acessibilidade. Ela ficou surda após contrair meningite antes dos dois anos e, desde cedo, aprendeu Libras. Entretanto, sempre precisou da ajuda de familiares para se comunicar. “Minha família é toda ouvinte e me ajuda bastante, mas enfrento muitas dificuldades”, diz.
Hoje, no segundo ano da graduação, não sabe como compreenderá as aulas. “Sem interpretes, não há como ter aula. Vou ter que esperar por novas contratações, mas é direito meu, como aluna, ter acessibilidade”, lembra.
Não é a primeira vez que Rute tem problemas na instituição. Ao fazer a matrícula, no início do ano, não encontrou nenhuma pessoa capacitada a se comunicar.
“Dez dias depois do começo das aulas, a faculdade disponibilizou um intérprete, mas não era qualificado e eu não conseguia compreender. Ele não tinha expressão ou sinais claros e eu não posso ter barreiras na comunicação”, lembra. Mesmo reclamando, a situação não foi resolvida.
Mobilizados, alunos fazem campanha
“Eu apoio a readmissão dos intérpretes de Libras do Iesb”. A frase foi estampada em cartazes, com os quais vários internautas tiraram fotos e postaram nas redes sociais. A mobilização foi uma tentativa de sensibilizar a instituição a respeito do problema.
William Tomaz, 28, é diretor de Ética e Fiscalização do Sindicato dos Trabalhadores Intérpretes, Guiaintérpretes e Tradutores da Língua Brasileira de Sinais do Distrito Federal (Sinprols-DF), e também foi desligado da instituição. Ele afirma que, no dia do desligamento, funcionários deram duas opções: pedir demissão para que, um dia, voltasse a trabalhar no Iesb, ou ser demitido e nunca mais retornar. “Isso é assédio moral! E ainda teve gente que aceitou, mesmo sem garantia nenhuma”, relata William.
A intérprete Brunna Alencar, 24, conta que a demissão foi feita “alegando apenas que haveria uma reformulação com redução salarial”. Legalmente, nenhuma empresa pode diminuir o salário dos empregados. O Ministério da Educação (MEC) declarou que, como se trata de um centro universitário, tem autonomia para tomar esse tipo de decisão. Mas os alunos podem fazer denúncia na Secretaria de Regulação e Supervisão do MEC.
Falta informação e organização
As limitações causadas pela deficiência visual nunca foram um problema para Gabriel Silva, 19 anos. Ele sai todos os dias do Gama, pega um ônibus até a Rodoviária do Plano Piloto e, depois, embarca em uma nova condução com destino à Universidade de Brasília (UnB), onde cursa o segundo semestre do curso de Letras – Espanhol. Lá, ele assiste as aulas, almoça e segue para outros prédios. Apesar da força de vontade do jovem, a falta de acessibilidade do campus Darcy Ribeiro é uma barreira.

Para trilhar os caminhos necessários diariamente, o estudante teve de pedir auxílio ao Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais (CEEDV), que o acompanha desde criança.
Segundo Fernanda Silva, mãe de Gabriel, o filho precisou desse profissional porque o Programa de Apoio às Pessoas com Necessidades Especiais (PPNE) da UnB não faz esse tipo de capacitação. “O que oferecem é um transporte para ir de um prédio a outro. Lá dentro, ele tem de se virar”, relata.
“Hoje eu consigo andar sozinho pelos prédios que tenho aula, mas as questões acadêmicas são falhas. Não tive muito auxilio”, conta o estudante. Nem todos os professores têm capacitação para lidar com os alunos especiais porque, segundo a instituição, ainda há dificuldades: “muitos professores universitários não têm base para aceitar esses alunos e apresentam certa resistência”.
Falta de preparo
A falta de condições para receber deficientes visuais foi identificada ainda no momento da matrícula. A mãe e o filho, com bengala, não foram perguntados sobre a deficiência do garoto. A existência de um projeto de apoio também era desconhecida. “Tivemos que correr atrás do PPNE, quando descobrimos que é facultativo. Eles não passam a listagem. Isso é uma falha”, entende Fernanda.
A UnB informou o projeto entra em contato com os alunos especiais a partir da listagem de aprovados cedido pelo Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe) no que diz respeito ao Vestibular e ao Programa de Avaliação Seriada (PAS). Entretanto, Gabriel ingressou na universidade pelo ENEM, e o processo ainda não ocorre da mesma maneira. “Há uma dificuldade do Inep em passar as informações”, diz o coordenador do programa, José Roberto Fonseca.
Problemas reconhecidos
Segundo coordenador do Programa de Apoio às Pessoas com Necessidades Especiais (PPNE) da UnB, José Roberto Fonseca, por questões de burocracia e de verba, demandas de acessibilidade estão sendo respondidas de forma lenta e gradativamente. “Já existe o projeto para a instalação do piso tátil nos prédios mais antigos. A aprovação está em curso, por via do tombamento da arquitetura e licitação das empresas”, explica.
A UnB admite falhas. “Mesmo com o PPNE, ainda não estamos preparados. Os prédios são antigos, ainda temos muitas barreiras, mas estamos caminhando”, afirmou a técnica em Assuntos Educacionais do PPNE, Nadja Carvalho.
“O mais desejamos é que nossos filhos sejam incluídos. Nós, pais, somos perecíveis. Se eu morrer amanhã, meu filho não vai me ter como bengala”, finaliza, emocionada, Fernanda.