Foco de desmatamento constante desde a década de 1960, buy o Cerrado é um bioma que pode oferecer muito mais do que troncos retorcidos e folhas secas. Suas plantas e frutos vêm sendo usados, visit web ainda que timidamente, na alimentação, medicina e cosméticos.
Uma descoberta da engenheira florestal Ana Virgínia Castelo chama ainda mais atenção para o potencial do segundo maior bioma brasileiro. A pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) encontrou no óleo essencial da folha de Araçá do Cerrado (Psidium myrsinides) uma substância chamada linalol, que funciona como excelente fixador para perfumes.
“O fixador é o segredo do perfume”, destaca Ana Virgínia.”É muito difícil encontrá-lo, ainda mais em plantas”, observa. Segundo a engenheira florestal, há muitos fixadores sintéticos, mas os produtos que exigem mais qualidade utilizam a substância natural, disponível em pequenas quantidades.
No caso do arbusto, bastante comum no Cerrado, para cada 150 gramas de folhas, 0,13% é de linalol. “É muito pouco, por isso o produto deve ser valorizado”, defende. A escassez de oferta do fixador explica os pequenos frascos e altos preços de perfumes franceses.
Utilizado como matéria-prima do cobiçado perfume Chanel nº 5, o linalol também é encontrado no óleo aromático do pau-rosa, proveniente da Amazônia. No entanto, por mais que seja a mesma substância, o linalol do Cerrado não pode ser usado no perfume francês por conta da distinção de aromas.
“O perfume tem uma sinergia (interação) entre vários óleos essenciais”, informa Ana Virgínia. “Quando você substitui um deles, gera uma modificação no produto”, ensina. A pesquisadora diz que é possível fazer uma versão do Chanel nº 5, mas o linalol é uma solução mais viável para novos perfumes.
Ecologicamente correto
Outro ponto curioso é que, para extrair o óleo do pau-rosa é preciso derrubar as árvores e retirar a substância da madeira. A medida já ocasiona um processo de degradação forte na Amazônia. Um dos grandes diferenciais do linalol do Araçá do Cerrado é que sua extração é feita das folhas.
A medida permite a manutenção das árvores no seu local de origem, tornando-a ecologicamente correta. “É uma tendência no mercado, que dá valor agregado e torna-se um produto especial por valorizar o Cerrado”, avalia a pesquisadora da UnB.
Além disso, Ana Virgínia ressalta que o uso do linalol pode criar novas alternativas de renda para pequenos produtores do Brasil Central, onde há Cerrado. “Assim não se destrói o bioma com pastos e plantações.