Os novos campos de petróleo encontrados na camada pré-sal, nurse ao longo da costa que vai de Santa Catarina ao Espírito Santo, more about são resultado de pesquisas caras e sofisticadas realizadas em alto-mar. A busca foi além das sondagens no fundo do oceano. Fósseis de pequenos animais aquáticos, do tempo em que o Oceano Atlântico se formou, ajudaram na descoberta.
Os chamados ostracodes, crustáceos de menos de 1 mm cujo corpo é revestido por duas pequenas conchas, auxiliam a determinar a idade das rochas mais propensas à descoberta de campos e são tema de pesquisas feitas na Universidade de Brasília (UnB). Desde janeiro de 2008, os estudos passaram a contar com recursos da Petrobras da ordem de R$ 2 milhões.
Os resultados começam a aparecer. Uma das contribuições mais recentes é um artigo científico do professor do Instituto de Geociências (IG) Dermeval Aparecido do Carmo, aceito para publicação no Journal of Paleontology, em que são apresentadas características e fotos de duas espécies de ostracodes próprios da camada pré-sal, também chamada de pré-evaporitos.
IDADE Carmo explica que as informações ajudam a refinar o conhecimento sobre esses crustáceos e, conseqüentemente, facilitam na identificação do período de formação do fundo oceânico, fundamental para a prospecção de petróleo. “A definição e a atualização de espécies ajuda a definir com mais precisão a idade de cada camada e a detalhar o paleoambiente do pré-evaporito”, diz.
Esses organismos são uma das fontes mais confiáveis sobre a época em que se formaram as camadas rochosas. As partículas e características químicas das rochas são muito parecidas. O que as diferencia é o conteúdo fossilífero, dos quais os ostracodes são uma fonte.
Com o auxílio dos crustáceos, aumentará o conhecimento sobre o pré-sal, antes considerado um tipo de jazida de segunda categoria. Regiões como essa tiveram origem há cerca de 110 milhões de anos, com o depósito de material orgânico após a separação dos continentes americano e africano.
Segundo o professor, o conhecimento gerado com os recursos ficará disponível a toda a comunidade científica, seja da UnB, de demais universidades brasileiras e estrangeiras, ou mesmo do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes).
INVESTIMENTO A UnB, por meio do Laboratório de Micropalenteologia, foi a primeira instituição brasileira a receber os recursos da Petrobras provenientes do 0,5% do faturamento bruto da empresa. Esses investimentos foram previstos na Lei do Petróleo como uma forma de aumentar a interação entre o setor e as universidades.
O recurso financeiro possibilitou que, no primeiro semestre de 2008, o Instituto de Geociências montasse uma infra-estrutura comparável à dos melhores centros do mundo. Entre os primeiros itens adquiridos constam cinco microscópios de alta definição no valor de R$ 50 mil cada um, que possibilitam obter imagens em 3D dos crustáceos.
A universidade também comprou computadores e assinou as bases de dados Micropalenteology Press, GeoScience World e Lyell Collection, que permitem aos participantes e demais interessados da UnB ter acesso a quase tudo que é publicado no mundo sobre os ostracodes, além de outras áreas das geociências.
Para Carmo, os investimentos beneficiam os dois lados. Ao mesmo tempo em que a UnB caminha para se transformar em um centro de excelência no assunto, produz conhecimento e profissionais para um setor que carece de especialistas. A Petrobras, por sua vez, conta com mais estudiosos pesquisando temas de seu interesse.