A Pedra Fundamental da Capital Federal, localizada em Planaltina (DF), acaba de receber o título de Patrimônio Cultural do Brasil. A decisão foi tomada nesta terça-feira (16) pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, órgão colegiado do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em reunião que consolidou a inscrição do monumento no Livro do Tombo Histórico. Erguida em 7 de setembro de 1922, durante as comemorações do centenário da Independência, a pedra simboliza o início do processo de transferência da capital do Rio de Janeiro para o interior do país, sonho previsto já na Constituição de 1891.
A cerimônia de inauguração, à época, contou com a presença do presidente da República, Epitácio Pessoa e marcou a materialização de um projeto civilizatório que só se concretizaria décadas depois, em 1960, com a fundação oficial de Brasília. Para o Iphan, a preservação da Pedra é uma forma de conectar passado, presente e futuro.
“Brasília foi criada para ser exemplo do Brasil, referência para o restante do país. Esse tombamento vai cumprir o propósito de atrair crianças e adolescentes para entender a importância da capital”, afirmou o presidente do Iphan, Leandro Grass.

O relator do processo, o professor e ex-governador Cristovam Buarque, destacou que o monumento não deve ser visto apenas como registro de um passado distante. “Gostaria de ver esta Pedra como símbolo do futuro. O Brasil precisa pensá-la como pedra fundamental de um desenvolvimento justo e sustentável”, disse.
Visitando a história
Embora o tombamento reforce a dimensão simbólica do monumento, o historiador Ramon Lamoso de Gusmão, que desde 2010 pesquisa a construção de Brasília sob a perspectiva dos trabalhadores, lembra que a transferência da capital é resultado de um processo histórico muito mais longo, que atravessa diferentes períodos da formação nacional.
“É importante esclarecer que a ideia de transferência da capital e a construção de Brasília fazem parte de um processo muito anterior ao governo JK. As raízes da interiorização remontam ao período colonial, passam pela Independência e pela primeira Constituição Republicana. A instalação da Pedra Fundamental, em 1922, é parte desse processo de mais de dois séculos”, esclarece Gusmão. O especialista ressalta ainda que, ao mesmo tempo em que os monumentos oficiais são preservados, outras memórias acabam ficando à margem.
“Há um apagamento na história oficial com relação às dezenas de operários que ergueram a cidade em tempo recorde. Muitos morreram vítimas de acidentes de trabalho. Onde estão os monumentos em memória a esses heróis anônimos? O tombamento da Pedra Fundamental é mais um marco da história oficial, mas que pode obscurecer fatos e sujeitos igualmente decisivos, como o cotidiano dos trabalhadores e o processo de exclusão urbana e social que se seguiu após a inauguração”, finaliza.
Próximos passos
Com o reconhecimento nacional, o Iphan, o Governo do Distrito Federal e a comunidade local deverão elaborar um plano de gestão para garantir a conservação da Pedra Fundamental e do seu entorno. O tombamento inclui também a proteção da área em um raio de 1,5 km ao redor do marco. Entre as medidas previstas estão rotinas de manutenção, ações educativas e o estímulo a projetos que aproximem a população do patrimônio. Para Thiago Perpétuo, superintendente do Iphan-DF, o desafio será envolver a comunidade. “O mais importante é o modo como a própria comunidade está envolvida com esse processo. A partir de agora, teremos grandes possibilidades de trabalhar em conjunto”, destacou.