O termo doula vem do grego “mulher que serve” e é uma ocupação que foi reconhecida oficialmente pelo Ministério do Trabalho em janeiro de 2013, com todos os direitos previstos nas leis do trabalho. As profissionais acompanham a gestante antes, durante e depois do parto. “Desde o início, a função é criar um vínculo com a mulher e dar suporte aos pais”, afirma a doula Maria Rosa Mouta, de 32 anos.
Antigamente, era comum mulheres de uma mesma família se envolver no trabalho de parto de uma gestante prestes a ganhar bebê. “Nós sempre fizemos isso. As mulheres sempre se ajudaram desde antes da medicina convencional”, esclarece Maria. Elas são mães, irmãs mais velhas, tias ou vizinhas que auxiliam nos cuidados com a criança ou mesmo nos afazeres domésticos. No entanto, as doulas são capacitadas para dar suporte além do emocional. De acordo com Maria Rosa, que trabalha como doula há mais de um ano, elas não realizam procedimentos médicos. Apesar da segurança que essas profissionais passam para a gestante, é correto que ela tenha um acompanhamento com um obstetra, para realizar todos os exames e assistências necessárias. “Nós não fazemos o parto, a doula não é parteira. Ela está muito mais focada na mulher do que no bebê durante o parto”, explica.
Durante o parto, o médico ou a parteira está pronto para atender a gestante, receber o bebê e se responsabilizar por situações de risco. A doula só realiza o parto se estiver qualificada com um curso de aprendiz de parteira. O papel dessas profissionais é auxiliar na gestação com procedimentos naturais como chás, massagens, exercícios, dentre outros, para ajudar no bem estar e no conforto da gestante antes e durante o parto.
Cesáreas
O Brasil é recordista de partos cesarianos. O recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 10% a 15%. No Brasil, 85% dos partos são cesáreas, em hospitais públicos e particulares. De acordo com a Secretaria de Saúde do Distrito Federal, nos primeiros quatro meses de 2015 foram realizados 6.572 partos normais e 6.514 cesáreas. Além dos profissionais que fazem o pré-natal para orientar as pacientes sobre o parto, 57 doulas já foram treinadas em Santa Maria, Gama, Planaltina e Sobradinho.
Michelle procurou informações sobre a decisão dos médicos e descobriu que os motivos para os partos cesáreos não eram reais. “Quando engravidei da Luiza vi uma oportunidade de ter o parto da maneira que eu queria. A partir dali, corri atrás do meu direito”, diz Michelle. E conta que, no início, não foi nada fácil seguir com essa decisão. “Comecei a fazer meu pré-natal e não encontrava nenhum obstetra disposto a fazer um parto normal depois de duas cesáreas. Foi aí que encontrei algumas equipes de parto domiciliar e optei pela qual me passou mais segurança”.
Acompanhamento necessário
Algumas mulheres procuram a doula para que, através do parto humanizado, elas tenham a garantia de um parto normal. A doula Maria Rosa explica que esse desejo não é possível garantir. “Isso dependerá das condições do bebê e da mulher. Pode ser que uma cesárea seja necessária”, explica.
Os encontros que antecedem o parto são importantes para estreitar a relação entre a doula e a mulher. No primeiro, a intenção é decidir como será o acompanhamento e a quantidade de encontros. “Geralmente me encontro com os pais duas vezes antes do parto. Conheço os dois e procuro saber quais são os planos para a gestação”, afirma.
Nos primeiros encontros com a mulher, a profissional procura saber quem é o médico que fará o parto e se a equipe está aberta para permitir a presença dela. Alguns hospitais só aceitam a doula se ela entrar como acompanhante, o que segundo a Maria Rosa, não é o indicado. Ela defende que a profissional acompanhe o parto junto com o pai ou algum familiar. “No dia do parto, a gente ajuda com métodos naturais para o alívio da dor e tenta deixar a parturiente o mais confortável possível”, diz.
“Parto respeitoso”
Parto humanizado é o parto que respeita as vontades do casal e, principalmente, da mulher. “O objetivo é preservar a gestante para que ela viva esse momento tão único. O parto não precisa, necessariamente, ser domiciliar, em uma banheira ou de cócoras”, enfatiza.
Rosa, que é doula há mais de um ano, revela que cada parto realizado é um acontecimento único e muito gratificante. “Em uma das vezes, a gestante estava entrando em trabalho de parto e foi levada a Casa de Parto em São Sebastião. Devido aos protocolos rígidos do local, a mulher deveria ser encaminhada a um hospital”, diz. “Enquanto seguia para uma unidade de saúde, a gestante entrou no ‘período expulsivo’, com dilatação total, e o parto foi feito na porta do hospital, dentro do carro. A equipe se organizou e o bebê nasceu bem, foi tudo muito rápido e emocionante”, recorda.
Michelle Aragão, mãe da pequena Luiza de dois meses, relembra o quanto o papel da doula foi crucial em sua decisão de lutar pelo direito de ter um parto normal. “Ela foi fundamental. Tivemos quatro encontros antes do parto, porém nos falávamos sempre que surgia alguma dúvida, algum medo. Fiquei 18h em trabalho de parto e ela permaneceu ao meu lado, me apoiando e fazendo massagens quando a dor era quase insuportável”, diz Michelle.
Pintura de barriga
Um momento especial para a mãe é o ultrassom natural, também conhecido por “pintura de barriga”. A técnica utilizada por algumas profissionais se caracteriza não apenas como distração, mas também para aproximação do casal com os familiares que gostam de presenciar o momento.A doula apalpa a barriga da mulher para saber a posição do feto e desenha as formas do bebê com tintas de cores vibrantes. Segundo Maria Rosa, é importante que a gestante esteja no final da gravidez.
Pós-parto
Depois do nascimento, o trabalho da doula continua. Geralmente ela se encontra com a mãe entre três a cinco dias depois do parto, que é o momento em que o leite desce e novas dúvidas surgem.
A amamentação é um momento especial entre a mãe e o bebê, mas nem sempre ocorre de forma natural. A doula, porém, auxilia nesse processo e ajuda a mãe para que ela não sinta dor ao amamentar e saiba como lidar com o novo período.
A próxima visita da doula é prevista no fim do resguardo, cerca de 40 dias depois, para certificar se tudo ocorreu bem. Essas visitas, assim como todas as outras antes do parto, ficam a critério da profissional e dos pais.
Saiba mais
Durante a gravidez é normal que o casal tenha dúvidas, independente se a mulher já teve filhos ou não, pois as gestações nunca são iguais. Para sanar todas as incertezas, existem rodas de gestantes ou rodas de casais grávidos. Os grupos se reúnem em casas de encontros ou empresas responsáveis pela formação de doulas. As rodas tratam de temas específicos ou temas livres. “Falamos sobre a gestação, o parto e o pós-parto. É uma troca de experiência entre casais”, afirma a doula Maria Rosa Mouta.
Curiosidades
* A doula não precisa ter nenhuma formação superior na área da saúde;
* A presença da doula no trabalho de parto:
– Reduz 50% nos índices de cesáreas;
– Reduz 25% na duração do trabalho de parto;
– Reduz no índice de depressão pós – parto.
* A entrada da doula não é permitida em todas as maternidades do Brasil.
* Nos Estados Unidos, os cursos para gestantes dos hospitais costumam ser ministrados
por essas profissionais.