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Brasília

Paciente na fila há três anos para exame no Hran

Arquivo Geral

07/10/2014 7h20

Dormir não é algo tão prazeroso para Iara Maria da Silva, artesã de 45 anos, desde 2010, quando foi diagnosticada com Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP). A doença   restringe seu fôlego e a impede de se deitar completamente sem sentir falta de ar. Para ter noites de sono tranquilas, ela deveria utilizar um aparelho conhecido como CPap, que facilita a respiração. Iara poderia obter o equipamento por meio da Secretaria de Saúde, mas aí vem o problema.  Ela diz aguardar há três anos para fazer  a polissonografia – único exame que falta para   ter direito ao benefício – pelo Sistema único de Saúde (SUS).

“Desde 2010 minha médica do Hospital Universitário de Brasília (HUB) sabe que eu preciso do exame. Eu já entrei em listas de espera, assinei meu nome, mas nunca me chamaram”, diz a artesã, que ainda sofre com uma série de outras doenças. Isso a torna dependente do estojinho de medicamentos quase 24h.

“Tenho de dormir quase sentada, com muitas almofadas nas costas. Se caio, fico sem ar e demoro quase uma hora para voltar ao normal”, conta a mulher, que mora com o marido, o filho, a nora e a neta, em Taguatinga.

Exclusividade

No Distrito Federal, o Hospital Regional da Asa Norte (Hran) é um centro de referência em doenças neuromusculares e o único local que faz polissonografias. Segundo denúncia da Associação Maria Vitória de Doenças Raras (Amavi), no entanto, existem mais de duas mil pessoas, como Iara, à espera da oportunidade de realizar o exame.

“Não existe substituto para a polissonografia. Ela pode indicar vários problemas de saúde principalmente para pessoas com síndrome de down, com doenças neuromusculares e com obesidade”, explica a vice-presidente da Amavi, Sandra Mota. 

“O Hran é o único local no Distrito Federal credenciado pelo SUS para fazer o exame. Quem quiser fazer pela rede particular tem que pagar mais de R$ 600”, critica.

Equipamento necessário em desuso
 
A vice-presidente da Amavi, Sandra Mota, revela que os agendamentos dos exames pelo SUS estão suspensos há quase um ano. Segundo ela, o GDF teria comprado seis polissonógrafos em 2013, mas nenhum deles estaria em uso. “Não é que nem computador, que basta ligar na tomada. Há programas para serem instalados e um acompanhamento a ser feito. Faltam profissionais para fazer isso”, diz.
 
 Sem o resultado do exame e, portanto, sem a documentação   para ter direito ao CPap,  pessoas de baixa renda,   com única possibilidade de acesso a essa tecnologia por meio do SUS, ficam desassistidas.
 
“Uma pessoa com mais condição banca a polissonografia  em um hospital privado e aparece com a documentação para a Secretaria de Saúde. Toda essa gente na fila de espera, que na sua maioria não tem condições   de gastar com o exame, fica sem ter os aparelhos e outras, teoricamente, com dinheiro, levam o benefício”, resume Sandra.
 
Perspectiva
 
A Secretaria de Saúde confirmou a existência de apenas um polissonógrafo no Hran e   a ausência do serviço, por estar em processo de capacitação dos funcionários. Segundo a pasta,  o exame deve voltar a ser feito “nos próximos dias”.
 
Até lá, a artesã Iara Maria  continuará a dormir “quase sentada” para não faltar ar e, por vezes, terá de ser acordada pelo marido, preocupado com o estado de apneia involuntária da esposa. “Tínhamos uma chácara que ele gostava de ir, mas com esse problema tive que perguntar se ele preferia a chácara ou a mim. Porque se eu acordasse sem ar, ele não estaria aqui para me ajudar”, diz a artesã, com o bom-humor que   lhe resta.
 
Versão oficial
 
A resposta da Secretaria de Saúde apenas   admite a suspensão dos exames com polissonógrafo e diz que “está treinando equipes para operá-lo”. “Assim que essa capacitação for finalizada, nos próximos dias, o serviço será oferecido à população”, promete. A pasta, no entanto, não respondeu sobre os seis aparelhos que teriam sido adquiridos ano passado. A Saúde também não comentou sobre a lista de espera e apenas informou que o “equipamento será usado, principalmente, para a realização de exames pré-operatórios de cirurgias bariátricas. O Hran é referência neste tipo de intervenção cirúrgica”.
 
Saiba mais
 
A polissonografia é, basicamente, o mapeamento das funções do corpo durante o sono. Exige que o paciente, por exemplo, durma no local do exame e seja acompanhado por uma equipe médica. Isso aumenta a complexidade (e custo) do procedimento, ainda sem outro que o substitua.
 
No mercado, o CPap varia de R$ 800 a até R$ 2 mil, dependendo do modelo. Ele é indicado para quem sofre da apneia durante o sono ou tem extrema dificuldade de respiração. É tão eficiente que, por vezes, pode ser utilizado até durante atividades físicas.
 

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