Jéssica Antunes
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Não faltam elogios aos hospitais da rede estadual de saúde de Goiás por parte de pacientes, funcionários e gestores. Administrados por Organizações Sociais (OSs), os prédios são novos, limpos e organizados, o atendimento, humanizado, e a preocupação com a qualidade de vida do paciente e do funcionário vem à frente. O Jornal de Brasília viajou mais de 200 quilômetros até a capital goiana para ver de perto o funcionamento desse modelo de gestão que pode desembarcar aqui.
No DF, a novidade é que, até o fim de 2017, a Região Metropolitana também receberá serviços de saúde com gestão de OS, o que pode desafogar as emergências do DF. O hospital de Águas Lindas (GO) deve ser o primeiro, abrindo as portas até junho de 2017.
Em seguida, será a vez do hospital de Santo Antônio do Descoberto. Secretário de saúde de Goiás, Leonardo Vilela contou que as construções foram iniciadas pelos municípios com recursos federais, mas paralisados por suspeitas de desvios.
“Há dois anos, o TCU e o Ministério da Saúde nos chamaram para dar continuidade. Aguardamos decisão judicial para retomar em Santo Antônio do Descoberto. Em caixa, temos mais de R$ 10 milhões para isso”, explicou Vilela.
Na prática, diz, o modelo de gestão permite agilidade e eficiência tanto na contratação de pessoal quanto na compra de insumos e no atendimento. “Tínhamos aparelhos que ficavam parados por questões burocráticas, processos licitatórios longos, médico que assinava o ponto e ia embora. Hoje, isso não acontece mais”, comemora.
Mudança por completo
Desde que começou a ser administrado pelo Instituto de Gestão em Saúde (Gerir), em 2012, o Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo) passou por transformação. Nos corredores, fotos antigas lembram a má qualidade das instalações. O hospital estava em colapso. De lá para cá, há mais atendimentos, e o número de leitos passou de 235 em 2011 para 407 em 2015 (73%).
Ponto de vista
O Sindicato de Saúde de Goiás é contra a gestão por Organizações Sociais e defende uma gestão completamente pública. “Eles reformam hospital, colocam quadros no corredor e vendem um bom atendimento. Antes das OSs, os pacientes de municípios sem estrutura adequada eram encaminhados à capital e recebiam atendimento. Agora, eles têm de passar pela triagem e voltam para casa sem atendimento”, diz a entidade, que denuncia: “Pacientes que podem dar prejuízo ao hospital são dispensados”. O secretário de Saúde desconhece as denúncias.
Pacientes elogiam serviço
Tal qual o Hospital de Base do DF (HBDF), o Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo) atende demandas de alta complexidade, mas, lá, os pacientes se restringem a esse perfil. “O hospital vivia cheio de macas, como em Brasília. Agora, paciente que não é nosso é redistribuído”, diz o diretor, Ciro de Castro.
O novo sistema também é visto com bons olhos pelos pacientes. Após sofrer acidente de moto, o soldador Vanílson Soares, 28 anos, passou por três cirurgias em um mês. “Eu cheguei mal, mas, graças a Deus, estou melhor. Aqui é muito diferente, parece particular. Todo mundo é atencioso e rápido”, diz.
O Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer) foi a primeira experiência com gestão de OS no estado e nasceu administrado pela Associação Goiana de Integralização e Reabilitação (Agir). Hoje, atende exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) com título de referência nacional. Especializado no acolhimento de pessoas com deficiência, recebe quase três mil pacientes por dia e executa cinco mil procedimentos.
“O Crer é o que é por ter nascido OS. Por ser uma gestão sem fins lucrativos, tudo é revertido em prol do paciente. Oferecemos atendimento de qualidade, humanizado, com busca de melhoria contínua na assistência ao usuário do SUS”, classifica Sônia Paiva, psicóloga e diretora multiprofissional de reabilitação.
O centro recebe pacientes como o auxiliar administrativo Pedro Carrilho, 29 anos, que saiu de Goianésia, a 170 km de Goiânia, para reabilitação da função motora de braços e pernas. Ex-morador de Brasília, ele recebeu o diagnóstico de síndrome de Guillain-Barré no fim de 2015, doença que afeta o sistema nervoso. “Minha recuperação está ótima. Dizem que acima da média”, comemora.
Assim como os demais hospitais, a porta de entrada do Crer é a Central Nacional de Regulação de Alta Complexidade (CNRAC), que encaminha o paciente à unidade, que, por sua vez, não atende demanda livre. Os profissionais contratados são regidos pelo regime CLT.
Orçamento
O orçamento goiano para a Saúde é de R$ 1,8 bilhão por ano para população de mais de seis milhões. No DF, a Saúde teve orçamento aprovado para 2016 de cerca de R$ 6 bilhões para 2,8 milhões de habitantes.
“O orçamento é muito maior para uma população inferior e área territorial que não chega a 10% de Goiânia. É clara a diferença entre os hospitais daqui e do DF”, compara Leonardo Vilela, secretário de saúde de Goiás.
Funcionários celetistas e estatutários se dividem no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo). Foram extintos cargos comissionados, e criada norma pétrea de processos seletivos. “Nossa avaliação é por conhecimento, e o candidato tem que passar por processo seletivo”, explica o diretor. Ele diz que os celetistas endureceram o trabalho de quem tem estabilidade.
Alvo de polêmica, os funcionários públicos nomeados após concurso consideram positiva a mudança. “Quando a OS entrou, a situação era grave. É claro que teve resistência. No início, a interlocução era difícil. Hoje, não temos nada a reclamar”, diz o cirurgião-geral Leonardo de Camargo, 62 anos, servidor do Hugo desde 1992.
No Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), todos são celetistas. Maqueiro, Felipe Félix, 22 anos, é recém-formado em Educação Física e poderá crescer na unidade: “A gente tem incentivo. Em relação a outros hospitais, é 100% melhor”.
Saiba mais
A atenção primária é feita nas unidades básicas de saúde, a cargo das secretarias municipais e sem contrato de gestão com OS. Os balanços financeiros das OS são publicados no Diário Oficial do Estado de Goiás. São feitas prestações de contas quanto aos recursos repassados às unidades por contrato de gestão.
Leonardo Vilela, secretário de Saúde, diz que a fiscalização está cada vez mais aprimorada. Há equipes de auditores fiscais e médicos que visitam as unidades, e a compra de bens e serviços com nota fiscal deve impedir sonegação. TCE e o MP também fiscalizam contratos.