Por Daniel Xavier e Mateus Souza
O que deveria ser um ambiente de vigilância constante, cuidado extremo com a saúde e protocolos rígidos transformou-se no cenário de uma das investigações criminais mais graves já registradas dentro de uma unidade hospitalar no Distrito Federal. A Operação Anúbis, deflagrada nesta segunda-feira (19) pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), revelou indícios robustos de que ao menos três pacientes morreram de forma intencional dentro da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta, em Taguatinga.
A apuração teve início após uma denúncia recebida com exclusividade pelo Jornal de Brasília no último domingo. As informações apontavam que técnicos de enfermagem estariam envolvidos em mortes consideradas suspeitas, ocorridas entre os dias 17 de novembro e 1º de dezembro do ano passado, dentro da unidade hospitalar. A partir da denúncia, a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) aprofundou as investigações e, em coletiva de imprensa, oficializou a prisão de três técnicos de enfermagem, ex-funcionários do hospital, apontados como suspeitos de participação nos crimes.
O JBr apurou que os presos são Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, Amanda Rodrigues de Sousa e Marcela Camilly Alves da Silva, todos ex-técnicos de enfermagem do Hospital Anchieta. Segundo a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), eles teriam participado, em diferentes graus, da execução de ao menos três homicídios qualificados cometidos dentro da Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
As investigações apontam que os crimes foram praticados por meio da aplicação intencional de doses elevadas de medicamentos, em quantidades incompatíveis com qualquer protocolo médico. Quando administradas diretamente na corrente sanguínea, as substâncias tornavam-se tóxicas e letais.
As provas mais contundentes recaem sobre o técnico de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos. De acordo com a PCDF, ele se passou por médicos da instituição, acessou indevidamente o sistema interno de prescrição e retirou medicamentos diretamente da farmácia do hospital. Em seguida, preparava as substâncias, ocultava os frascos no jaleco e realizava as aplicações intravenosas sem qualquer autorização médica.
Vítimas

As vítimas identificadas até o momento são: Uma professora aposentada de 75 anos, moradora de Taguatinga, que deixou filhos e netos. Segundo a polícia, os três técnicos respondem pela morte da paciente.
Um servidor público de 63 anos, morador do Riacho Fundo II, que trabalhava na Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb). Ele deixou viúva, filhos e netos. A vítima recebeu duas doses de um medicamento adulterado. As mortes desses dois idosos ocorreram no dia 17 de novembro.
Um servidor público de 33 anos, morador de Brazlândia, que trabalhava nos Correios. Ele deixou esposa e um filho de 5 anos. De acordo com a investigação, recebeu uma dose da substância. A PCDF cumpriu mandados de prisão temporária contra os três suspeitos e realizou mandados de busca e apreensão em endereços de Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas de Goiás. Aparelhos eletrônicos foram apreendidos em imóveis localizados em Ceilândia e Samambaia.
Uso de substância incompatível
Em um dos casos considerados mais graves pela polícia, a vítima foi a mulher de 75 anos, que apresentou sucessivas paradas cardíacas no mesmo dia em que recebeu as aplicações. Segundo a investigação, após esgotar o medicamento, o suspeito passou a injetar desinfetante hospitalar diretamente na veia da paciente, em ao menos dez aplicações realizadas no mesmo dia, procedimento absolutamente incompatível com qualquer uso humano.
Vídeos, prontuários e vestígios digitais
Durante coletiva de imprensa, o coordenador da Coordenação de Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP), delegado Wisllei Salomão, afirmou que o conjunto probatório reunido até o momento não deixa dúvidas quanto à natureza dolosa das mortes. “Os elementos coletados são extremamente robustos. Nós temos vídeos que demonstram claramente as ações, além de uma análise minuciosa dos prontuários médicos. Não há dúvida de que foram três mortes dolosas, praticadas com intenção de matar”, afirmou.
Segundo o delegado, a PCDF vai ampliar as investigações para verificar se há outros pacientes com causas de morte semelhantes, inclusive em hospitais onde os suspeitos tenham trabalhado anteriormente. Ele revelou ainda que, durante o depoimento, Marcos Vinícius inicialmente negou os crimes, mas acabou confessando após ser confrontado com os vídeos.
As imagens das câmeras de segurança da UTI mostram o técnico preparando os medicamentos, escondendo os frascos no jaleco e realizando as aplicações intravenosas. Logo depois, os pacientes apresentavam parada cardíaca em questão de segundos. “Esse medicamento, quando injetado diretamente na veia, provoca parada cardíaca. Em poucos instantes após a aplicação, os pacientes entravam em colapso”, explicou Salomão.
Para tentar despistar a autoria, o investigado realizava manobras de massagem cardíaca logo após provocar a parada, simulando tentativas de reanimação, muitas vezes diante de outros profissionais da equipe.
Participação e omissão
Segundo a polícia, as duas técnicas de enfermagem presas tinham pleno conhecimento do que estava sendo feito. As imagens mostram que elas acompanhavam as aplicações e, em alguns momentos, observavam a porta dos quartos para evitar a entrada de terceiros. “Elas sabiam qual era a substância utilizada, sabiam que a aplicação direta na veia poderia causar a morte e, ainda assim, não intervieram. Houve negligência grave e conivência”, afirmou o delegado.
Uma delas sequer integrava a equipe responsável pelos leitos onde ocorreram as mortes, mas mantinha relação de proximidade com o principal suspeito. A outra era uma técnica mais nova, treinada por ele.
Perícia aponta piora súbita incompatível
A diretora do Instituto de Medicina Legal (IML) da PCDF, Márcia Reis, explicou que a perícia cruzou dados dos prontuários médicos com as imagens de vídeo para avaliar a evolução clínica das vítimas. “O que chamou a atenção foi que não houve piora gradual. Em todos os casos, a piora foi súbita, logo após as aplicações, culminando em paradas cardíacas”, afirmou.
Segundo ela, exames identificaram a presença de substâncias no sangue das vítimas compatíveis com o que aparece nas imagens. “Profissionais de saúde conhecem os protocolos e sabem dos riscos da aplicação inadequada dessas substâncias, especialmente em UTI. Não se trata de erro ou desconhecimento”, reforçou. Em um dos casos, a perícia confirmou o uso de desinfetante hospitalar, produto totalmente incompatível com o uso humano.
O diretor da Divisão de Perícias Internas do Instituto de Criminalística da PCDF, Leandro Oliveira, destacou que a investigação vai além das imagens. “O vídeo é um vestígio fortíssimo, mas não é o único. Estamos analisando logs de sistemas, acessos corporativos, celulares e diversos registros digitais para reconstruir com precisão a linha do tempo”, explicou.
Segundo ele, cerca de 20 laudos periciais estão em elaboração para permitir uma reconstrução detalhada dos fatos, inclusive considerando a falta de sincronização entre relógios de diferentes sistemas hospitalares. “Esse trabalho é fundamental não apenas para confirmar esses três casos, mas para identificar possíveis outras vítimas, inclusive em hospitais onde esses profissionais atuaram ao longo dos últimos cinco anos”, concluiu.
Hospital comunicou a polícia
De acordo com a PCDF, foi o próprio Hospital Anchieta que comunicou as autoridades após identificar irregularidades por meio de uma comissão interna de análise de óbitos. Os três profissionais foram demitidos antes das prisões. Um deles, inclusive, já havia sido contratado por outra unidade hospitalar privada, atuando em uma UTI infantil em Taguatinga, quando foi preso.
Em nota enviada ao Jornal de Brasília, o Hospital Anchieta afirmou que instaurou investigação interna, encaminhou as evidências à polícia, solicitou a abertura do inquérito e colaborou integralmente com as autoridades. A instituição também informou que entrou em contato com as famílias das vítimas e destacou que o caso tramita em segredo de justiça.
Responsabilizações
As prisões ocorreram nos dias 12 e 15 de janeiro. Os investigados devem responder por homicídio qualificado, crime cuja pena varia de 12 a 30 anos de prisão para cada morte, segundo a PCDF.
Em nota enviada ao Jornal de Brasília, o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) informou que tomou conhecimento das denúncias relacionadas às mortes suspeitas em uma unidade hospitalar do DF e que já adotou as providências cabíveis para apurar eventual responsabilidade médica no caso.
Segundo o conselho, todas as denúncias e notícias de fato são analisadas por meio da abertura de sindicância, procedimento que tem como objetivo verificar a existência ou não de infração ética. O CRM-DF ressaltou que, durante todo o processo, são garantidos o contraditório e a ampla defesa, conforme previsto na legislação vigente.
O órgão destacou ainda que as apurações seguem sob rigoroso sigilo, conforme determina o Código de Ética Médica, abrangendo documentos, depoimentos e demais elementos de prova. De acordo com o conselho, o sigilo é fundamental para preservar a intimidade das partes envolvidas e assegurar a lisura, a imparcialidade e o devido processo legal.
O CRM-DF também enfatizou que as esferas criminal, civil e administrativa são independentes, o que significa que eventuais decisões na esfera ética não necessariamente coincidem com aquelas adotadas pela Justiça ou por outros órgãos de controle.
Coren-DF
O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) informou que acompanha, com atenção, as investigações sobre mortes suspeitas de pacientes em uma unidade hospitalar do DF, envolvendo profissionais de enfermagem. De acordo com o conselho, diante da gravidade dos fatos noticiados, estão sendo adotadas as providências cabíveis no âmbito de sua competência legal. O Coren-DF ressaltou que o caso também é objeto de investigação pelas autoridades policiais e tramita na esfera judicial, o que impede, neste momento, qualquer juízo de valor ou conclusão definitiva.
O órgão destacou que todas as medidas seguem os princípios do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa. Por fim, o conselho reafirmou seu compromisso com a segurança do paciente, a ética profissional e a valorização de uma enfermagem qualificada, responsável e comprometida com a preservação da vida.
Tráfico de órgãos
Diante das investigações que apuram o motivo dos assassinatos, algumas teses foram revisitadas. Entre elas, talvez a mais chocante seja a do advogado e jornalista Marco Vicenzo, conhecido como Dr. Vicenzo, que afirmou ter recebido, nos últimos anos, denúncias envolvendo possíveis irregularidades em unidades de saúde de Ceilândia, com relatos de mortes de pessoas em situação de vulnerabilidade. “Eu recebi denúncias dos próprios pacientes de que eles pegavam pessoas em situação de vulnerabilidade, que não tinham família, geralmente moradores de rua e venezuelanos, que chegam ao DF sem ninguém. A pessoa entra com um problema simples, sofre uma luxação no pé e morre do dia para a noite”, afirmou.
Segundo Vicenzo, essas informações foram encaminhadas ao Ministério Público, mas não houve elementos suficientes para a produção de uma reportagem ou para a comprovação formal dos fatos. “Eu encaminhei essas pessoas ao Ministério Público, mas como não consegui provar, não pude lançar uma matéria sobre isso. Tentei ir pessoalmente ao hospital de Ceilândia para ter acesso a prontuários, mas não consegui nada para acessar a documentação”, disse.
O advogado destacou que, diante da prisão dos técnicos de enfermagem no Hospital Anchieta e da confirmação de que houve dolo e intenção de matar, uma das teses que passou a circular é a possibilidade de tráfico de órgãos. “Já tinha acontecido aquele caso de Ceilândia, o delegado comentou sobre essa suspeita e agora sai essa notícia dos assassinatos em série no Anchieta. Uma das teses é que poderia ser para venda de órgãos”, declarou.
Outras hipóteses
Ele ponderou que a hipótese de provocar mortes para liberar leitos de UTI não se sustenta, em sua avaliação. “A tese de matar para vender leito de UTI não condiz, porque o risco é muito grande. Já a tese do tráfico de órgãos, justamente por ser mais rentável, é uma das que seriam possíveis”, afirmou.
Vicenzo defendeu que uma apuração preliminar poderia incluir a exumação de corpos de pacientes que morreram recentemente em condições semelhantes, desde que haja autorização judicial. “Se a Polícia Civil fizer uma apuração simples, basta pegar os três ou quatro últimos venezuelanos que morreram no hospital e fazer a exumação para confirmar se os órgãos ainda estão lá. Eu não tenho legitimidade para isso, mas o Ministério Público tem”, disse. Segundo ele, eventuais depoimentos de funcionários também poderiam contribuir para esclarecer os fatos. “Se apertar funcionário, eles mesmos soltam”, afirmou.
O advogado ressaltou, contudo, que não possui competência técnica para afirmar se a substância utilizada permitiria a preservação de órgãos para transplante. “A substância, se for para induzir uma parada cardíaca, pode ainda possibilitar o transplante, mas isso não é a minha esfera de atuação, eu não posso me aprofundar nesse tema”, declarou.