Manuela Rolim
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Cansado de ser vítima da violência, o dono de uma joalheria na 302 Sul, assaltada pela última vez no início deste mês, decidiu fechar as portas e, quem sabe, até mudar de ramo. A decisão aconteceu no momento em que o governo, ciente do cenário atual, tenta aumentar a sensação de segurança na capital. Ontem, foi anunciado um reforço de 40% no número de atendentes do serviço de emergência da Polícia Militar (190), como adiantou o JBr. na edição de terça-feira. O GDF também havia determinado que o policiamento fosse reforçado com cerca de 600 militares.
A loja Torres Joalheiros, no Shopping Fashion Mall, foi assaltada pela primeira vez em 2003. No último dia 4, outro susto foi o bastante para o empresário Pedro Torres desistir do ponto. Na entrada, faixas informam o dia do fechamento (31 de janeiro) e que todas as peças estão em liquidação.
“É chato ter uma empresa com 22 anos de existência, estar instalado há 15 anos no mesmo lugar e, a essa altura, passar por isso. Meus clientes não param de me perguntar para onde eu vou. A realidade é que estou inseguro, não sei o que fazer. Minha cabeça está a mil, eu demorei para construir meu patrimônio. É revoltante saber que alguém veio e tomou boa parte em apenas quatro minutos”, afirmou.
Torres perdeu mais de R$ 300 mil em peças, que ainda não foram totalmente recuperadas. “Eles levaram o coração da minha loja, o pano mais pesado daqui. Nele, tinha aproximadamente 40 correntes grossas, que valiam quase R$ 150 mil. Também levaram um pano com cerca de 400 pingentes de ouro e outro com joias infantis. Para completar, roubaram uma bolsa com peças de clientes que eu vou ter que pagar”, enumerou. De acordo com ele, ser assaltado é uma experiência traumatizante. “Em 2003, eu levei muito tempo para me recuperar”.
Dinâmica do crime
No dia do crime, o joalheiro contou que um homem vestido de terno e gravata entrou na loja e pediu para olhar as joias. No mesmo instante, um vendedor o convidou para sentar e começou a mostrar as peças. Um comparsa ficou o tempo inteiro em pé. “Eu estava saindo para fumar. Quando voltei, anunciaram o assalto. Um terceiro homem estava sentado no banco em frente à loja”, relatou.
Todos estavam armados e se diziam menores de idade, ressaltou Torres. Havia, inclusive, um quarto integrante esperando no carro. “Por sorte, não tinha nenhum cliente e ninguém ficou ferido. Eles já sabiam que eu era o proprietário e falaram para eu abrir o cofre”, acrescentou.
O comerciante não teve reação. “Eu não tinha o que fazer. Acendi um cigarro e tentei tranquilizar todo mundo, inclusive os assaltantes. Um deles até ficou se arrumando na frente do espelho antes de fugir”, concluiu. Após o crime, a polícia encontrou o carro dos suspeitos em Samambaia. Apenas 5% das peças foram recuperadas.
Mudança no serviço
Agora, 107 profissionais da PM serão responsáveis pelos chamados da Central Integrada de Atendimento e Despacho (Ciade), ou seja, 30 a mais. No total, o serviço conta, hoje, com 124 atendentes e 85 despachantes.
Todas as equipes terão acréscimo de pessoal, sendo que a PM ganhará o maior reforço. Isso porque o 190 atende cerca de 90% dos chamados dirigidos à central. Atualmente, a Ciade recebe, em média, 270 mil ligações por mês, sendo que apenas 40% dos chamados originam ocorrências. O restante são pedidos de informações, enganos e trotes.
Os profissionais que reforçarão o atendimento do 190 estão sendo deslocados do quadro administrativo da Secretaria de Segurança. O Comitê Executivo para Reestruturação da Ciade terá como coordenador o coronel Márcio Pereira da Silva, indicado para assumir a Subsecretaria de Integração de Operações de Segurança (Siosp) na última terça-feira.
“Prioridade”
As medidas foram apresentadas pelo governador Rodrigo Rollemberg e pela secretária de Segurança Pública, Márcia de Alencar. Rollemberg comentou o cenário atual. “A segurança pública, desde o início do nosso governo, é prioridade. Nós também estamos preocupados, mas não podemos esquecer dos índices positivos”, ressaltou.
Já a secretária Márcia de Alencar afirmou que Brasília é um lugar seguro, mas pode melhorar. “Não queremos promover a sensação de segurança, queremos que os brasilienses se sintam, de fato, seguros”, finalizou.
Enquanto isso, vários crimes seguem sem solução. A reportagem do Jornal de Brasília procurou a Divisão de Comunicação da Polícia Civil (Divicom) para saber sobre as investigações em torno do assalto à joalheria da 302 Sul, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.