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Brasília

Oito anos depois, caso Villela segue sem um desfecho

Arquivo Geral

28/08/2017 7h00

Atualizada 27/08/2017 20h47

Foto: Maíra Morais

Jéssica Antunes
jessica.antunes@jornaldebrasilia.com.br

Exatos oito anos se passaram desde que um triplo assassinato chocou Brasília. Em 2009, um casal e a empregada foram mortos a facadas dentro do apartamento na Quadra 113 da Asa Sul. A história, repleta de reviravoltas, ainda é uma ferida aberta na região e segue sem desfecho. A defesa da principal suspeita, filha do casal, tenta, a todo custo, evitar o júri popular chegando aos tribunais supremos. Enquanto isso, um suposto comparsa deve ser julgado no mês que vem.

Adriana Villela tem 53 anos e mora no Rio de Janeiro. Arquiteta e Urbanista formada pela Universidade de Brasília (UnB), tem o título de mestre em Desenvolvimento Sustentável. Entre os temas diários, trabalha com reciclagem de vidro, sustentabilidade e na tentativa de quase uma década de provar sua inocência diante da morte brutal dos pais, respondendo ao processo em liberdade.

Memória

  • Casal e empregada assassinados com quase 80 facadas
    Os corpos do trio assassinado foram descobertos três dias após o crime. Naquela altura, o cheiro putrefato já tomava conta dos corredores do sexto andar do bloco C da 113 Sul. Preocupada com o desaparecimento, a neta do casal os encontrou após ir à casa dos avós acompanhada de três amigos policiais.Segundo laudo do Instituto Médico-Legal (IML), foram 78 facadas. A empregada da família, Francisca, levou 23 golpes nas costas. Maria, agarrada por trás, teria levado 12 punhaladas. José Guilherme recebeu o maior número: 38 ao todo.
    Da casa, os criminosos roubaram dinheiro e joias que a família escondia em caixas de uísque e fundos falsos de armários. Mesmo assim, eles deixaram para trás quase US$ 100 mil, achados na perícia.

Em 2009, ela foi apontada pelo Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) como mandante do assassinato dos pais e da empregada deles. No apartamento de um prédio na 113 Sul, o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Guilherme Villela, de 73 anos, a advogada Maria Carvalho Villela, de 68, e a empregada deles, Francisca Nascimento da Silva, de 58, foram mortos com 78 facadas.

De acordo com o MPDFT, a mulher recebia uma mesada de R$ 8 mil por mês e tinha constantes brigas com a mãe por pedir mais auxílio financeiro. A suspeita chegou a ficar 19 dias detida, mas foi solta e responde às acusações até hoje em liberdade. Adriana é coringa de uma história sem desfecho que se arrasta com recursos pela Justiça brasileira.

A arquiteta e Paulo Henrique Cardoso, acusado de participação nas mortes, aguardam julgamento no tribunal do júri popular. A previsão é que, no próximo mês, o réu receba uma sentença. Ele é sobrinho do ex-porteiro do prédio onde morava o casal, que foi condenado em 2013. Em primeira instância, recebeu como pena 62 anos e um mês de reclusão em dezembro de 2016. A defesa recorreu e o caso segue na 1ª Vara Criminal do TJDFT.

Adriana Villela tenta provar sua inocência

Hoje, Adriana Villela imerge-se na religiosidade, viaja, faz trabalhos artísticos e se divide entre o rótulo de principal suspeita da morte dos pais e a aparente saudade deles. No Facebook, ela não usa o nome de batismo. Compartilha imagens de viagens, amigos e presta homenagens aos pais.

Em maio, trocou a foto do perfil por uma em que, ainda bebê, é segurada no colo pela mãe: “Não porque é a minha (mãe), mas… é linda, não é mesmo?”. Em 2015, homenageou o que seria o aniversário de 53 anos de casamento dos pais: “Dia de honrar a memória do encontro que me gerou. Amo vocês, meu pai e minha mãe”. Ela também já usou a ferramenta para defesa. “Nenhuma calúnia, por maior que seja, pode calar a semente dessa verdade viva em mim”, afirmou.

 Adriana Villela Chegando na 1ª DP. Foto: Josemar Gonçalves/Cedoc

Adriana Villela Chegando na 1ª DP. Foto: Josemar Gonçalves/Cedoc

“Temos recursos a serem julgados. É um processo que deve ser julgado pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo Supremo Tribunal Federal. Nossa tentativa é que ela não vá a júri porque, na nossa visão, não existem provas para isso”, diz o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay.

Segundo ele, a reconstituição do dia do crime provou que Adriana não poderia estar no apartamento naquele momento, com provas testemunhais e um e-mail que ela teria mandado de casa. “É irrefutável”, garante. Em relação aos envolvidos apontarem Adriana como mandante, Kakay argumenta: “Teve tortura, pressão. O que está claro é que a morte foi espontânea. José Villela era turrão e teria humilhado o autor, que nutriu ódio”.

Na 113 Sul, poucos moradores falam abertamente do assunto. “Foi trágico. Não falei na época, não quero falar agora”, disse um vizinho. O apartamento no 6º andar do Edifício Leme foi ocupado há cerca de seis meses após uma reforma.

Os murmúrios sobre passos, sussurros e vultos que alguns garantem ter ouvido desde 2009 já são quase lendas. “O assunto nem é mais tocado”, avisa o porteiro que trabalhava ali na época. Apesar da resistência, há quem solte a indignação pela impunidade. “Deixa na mão de Deus que quem fez uma hora pagará”, desabafou uma senhora. Hoje, câmeras monitoram os corredores da tragédia.

Investigadores Condenados

Há um ano, a delegada que conduziu as investigações foi condenada por falsidade ideológica, fraude processual, violação de sigilo funcional e tortura. Por plantar provas, Martha Geny Vargas Borraz teve pena total fixada em 16 anos e 28 dias de reclusão, um ano, 9 meses e 10 dias de detenção e 81 dias-multa.

O agente da Polícia Civil José Augusto Alves também foi condenado por tortura e teve pena fixada em 3 anos, um mês e 10 dias de reclusão. Os envolvidos no caso confessaram após 24 horas de suposta tortura. O outro acusado no processo, o policial militar Flávio Teodoro da Silva, foi absolvido por ausência de provas.

Saiba Mais

Até supostos poderes paranormais interferiram no andamento das investigações. A vidente Rosa Maria Jaques disse ter recebido, do mundo dos espíritos, missão para ajudar a esclarecer o crime. No apartamento, garantiu ter tido uma visão do assassino.

Descobriu-se mais tarde que tudo era uma armação. Segundo a polícia, a vidente se encontrou com Adriana Villela, filha do casal assassinado, para combinar a farsa. As duas negam o encontro. Ela chegou a ser detida em 2010. Hoje, Rosa Maria Jaques é caça-fantasmas e palestra sobre administração de paranormalidade.Assassinos confessos, Leonardo Alves, ex-porteiro do prédio, e seu comparsa Francisco Mairlon Barros foram condenados a 60 e 55 anos, respectivamente, por triplo homicídio e furto qualificado em 2013.

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