Eles trocam o futebol para vender balinhas no semáforo. Largam os estudos para fazer o serviço doméstico. Seja nas ruas, ou nas casas, o trabalho infantil toma os sorrisos da infância de milhares de crianças no Distrito Federal. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 23 mil menores entre cinco e 17 anos trabalham irregularmente em plena capital federal.
“A cada cem crianças (no DF) pelo menos quatro estão trabalhando, quando deveriam estar fazendo outras coisas”, lamenta Renato Mendes, 46 anos, coordenador Nacional do Programa Internacional para Eliminação do Trabalho Infantil da OIT no Brasil. A principal justificativa da troca da infância pelo emprego prematuro é a ajuda no pagamento das contas da família.
Mas, para Renato Mendes, o dinheiro extra não compensa o desgaste ao qual meninos e meninas são submetidos. Enquanto a taxa de repetência e atraso escolar entre as crianças que estão longe do trabalho infantil tende a zero, o índice entre aqueles que fazem trabalho doméstico chega a três anos. No caso dos que trabalham nas ruas e comércios, a taxa varia de um a dois anos.
“A criança que faz serviço doméstico é a mais prejudicada. Que horas se faz café da manhã? Quando ela lava a louça? Ela não tem hora para começar ou para terminar o trabalho”, detalha o representante da OIT. Além do atraso nos estudos, os pequenos estão sujeitos à violência das ruas e ao abuso sexual.
A saúde também é castigada enquanto as crianças ainda estão em plena fase de formação. Carregar centenas de latinhas de alumínio e lixo das ruas compromete a formação dos ossos. Produtos de limpeza doméstica causam intoxicações e até queimaduras nas córneas de crianças, que ao sentirem a mínima coceira não pensam duas vezes antes de passar a mão no rosto. Sol e fumaça de carros em excesso também prejudicam.
Entorno
A Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do DF (Sedest-DF) não quis comentar os dados divulgados pela OIT. De acordo com Valéria Sousa Lima, gerente de Proteção Especial de Média Complexidade, grande parte das crianças que trabalha no DF vem do Entorno, o que dificulta a contagem e o combate do problema. “Já retiramos 3,2 mil (crianças) de situações de trabalho infantil. Delas, 32% vêm de municípios vizinhos ao DF, onde nossos projetos de assistência social não chegam”, completa Valéria.
Atualmente, a Sedest combate o problema por meio de programas de ajuda socioeconômica para 773 famílias. Além disso, trabalha diretamente com 625 jovens. E, em parceria com o Governo Federal, tenta ajudar outros 1.355 casos. Nos próximos dias, Secretaria irá começar uma pesquisa nas escolas do DF para mapear o problema do trabalho infantil local.
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