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O que se sabe sobre as mortes ocorridas no Hospital Anchieta

Ex-técnico de enfermagem, acusado de injetar mais de dez seringas de desinfetante em uma paciente de 75 anos, afirmou em uma das versões do depoimento que teria agido para “aliviar o sofrimento” das vítimas.

Redação Jornal de Brasília

21/01/2026 13h48

anchieta

Foto: Reprodução / Google Maps

Por Daniel Xavier e Camila A. Coimbra
daniel.xavier@grupojbr.com
camila.coimbra@grupojbr.com

A investigação que levou à prisão de três técnicos de enfermagem do Hospital Anchieta, em Taguatinga, escancarou uma das páginas mais graves já registradas na saúde privada do Distrito Federal. Três pacientes, uma idosa de 75 anos, um servidor público de 63 e um homem de 33 anos, morreram enquanto estavam internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da unidade, entre novembro e dezembro de 2025, em circunstâncias que agora a Polícia Civil do DF trata como homicídios dolosos qualificados.

O principal investigado é o técnico de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, apontado como o executor das mortes no âmbito da Operação Anúbis, deflagrada após o avanço das apurações. Segundo a Coordenação de Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP), ele confessou os crimes durante interrogatório, após ser confrontado com imagens das câmeras de segurança instaladas dentro da UTI.

As gravações, consideradas peças-chave do inquérito, revelaram uma sequência de ações repetidas, metódicas e, segundo os investigadores, incompatíveis com qualquer tentativa legítima de cuidado médico. De acordo com a polícia, Marcos Vinícius teria aplicado doses elevadas e irregulares de medicamentos em pacientes estáveis, provocando paradas cardíacas sucessivas.

Em um dos casos mais extremos, após o fim do medicamento, o técnico teria recorrido à aplicação intravenosa de desinfetante hospitalar, retirado da pia do próprio leito. “O que chama atenção é a insistência. A equipe médica conseguiu reverter a parada cardíaca por quatro vezes. Ele voltava e aplicava novamente. Na quinta, conseguiu provocar o óbito. E, na última aplicação, utilizou desinfetante diretamente na veia da paciente”, relatou o delegado Maurício Iacozzilli, que participou diretamente dos interrogatórios.

Ainda segundo a investigação, o comportamento do suspeito após as aplicações reforçou a suspeita de premeditação. Marcos Vinícius realizava massagens cardíacas para simular tentativas de reanimação diante da equipe médica, enquanto monitorava os sinais vitais das vítimas até que eles cessassem por completo.

Versões contraditórias e frieza nos depoimentos

Durante o interrogatório, o técnico apresentou versões divergentes sobre a motivação dos crimes. Em um primeiro momento, alegou ter perdido o controle emocional em um plantão conturbado. Em seguida, afirmou ter agido para “aliviar o sofrimento” dos pacientes. Para os investigadores, as justificativas não se sustentam diante das provas reunidas. “Não houve demonstração de arrependimento. O que se observou foi frieza. Nenhum dos três demonstrou emoção durante os depoimentos”, afirmou Iacozzilli.

Além de Marcos Vinícius, foram presas as técnicas de enfermagem Amanda Rodrigues de Sousa, de 28 anos, e Marcela Camilly Alves da Silva, de 22. Segundo a polícia, ambas teriam atuado de forma consciente, dando cobertura ao principal suspeito durante as aplicações irregulares.

As investigações também revelaram que Amanda mantinha um relacionamento extraconjugal com Marcos Vinícius, dentro e fora do hospital. Ambos são casados com outras pessoas. Em depoimento, ela negou envolvimento direto nas mortes, mas confirmou o relacionamento. Marcela, por sua vez, era supervisionada por Marcos e estava em seu primeiro emprego na área.

As imagens das câmeras de segurança reforçam a suspeita de participação ativa das duas técnicas. De acordo com a polícia, os vídeos mostram que elas acompanhavam Marcos durante a preparação e aplicação das substâncias, vigiavam a porta dos quartos para evitar a entrada de terceiros e, em determinados momentos, se posicionavam estrategicamente para impedir que outras pessoas visualizassem o procedimento. Após as aplicações, os três permaneciam observando os monitores até a interrupção total dos sinais vitais.

Quem responde por quais mortes

A Polícia Civil detalhou a responsabilização de cada investigado nos três óbitos já confirmados. Pela morte de Miranilde Pereira da Silva, os três respondem por homicídio qualificado. No caso de João Clemente Pereira, servidor da Caesb, Marcos Vinícius e uma das técnicas são responsabilizados. Já na morte de Marcos Raymundo Fernandes Moreira, o técnico e a outra técnica também respondem por homicídio qualificado.

O crime é enquadrado como homicídio doloso qualificado por meio insidioso, uma vez que as vítimas não tinham conhecimento do que estava sendo aplicado e estavam em condição de extrema vulnerabilidade, acamadas em leitos de UTI. A pena prevista varia de 12 a 30 anos de prisão.

Investigação segue

O delegado Wisllei Salomão, coordenador da CHPP, esclareceu um equívoco que circulou após a divulgação da operação. Segundo ele, a referência a “mais de 20” não diz respeito ao número de vítimas, mas à quantidade de laudos periciais em elaboração. “Cada caso pode gerar vários laudos. Por enquanto, temos três vítimas confirmadas. Qualquer outra conclusão depende da análise técnica”, afirmou.

A polícia segue analisando prontuários médicos, registros digitais e imagens para verificar se há outros casos semelhantes, inclusive em hospitais onde os investigados trabalharam anteriormente. A diretora do Instituto Médico Legal (IML), Márcia Reis, explicou que o que despertou a atenção dos peritos foi a piora súbita das vítimas, sem agravamento gradual, o que indica intervenção externa e intencional.

Hospital, famílias e responsabilização civil

Ao Jornal de Brasília, o Hospital Anchieta informou que, ao identificar circunstâncias atípicas nos óbitos, instaurou um comitê interno de análise por iniciativa própria, demitiu os funcionários envolvidos e comunicou as autoridades. A instituição afirma que o caso tramita sob segredo de Justiça.

No entanto, familiares contestam a postura da unidade. O advogado Vagner de Paula, que representa a família de Marcos Raymundo Fernandes Moreira, afirmou que não houve contato direto do hospital após a revelação da causa criminosa da morte. Segundo ele, a família ingressará com ação judicial por danos morais e reparação civil. “Todos tinham se conformado com uma morte por doença. Quando veio a notícia de que foi homicídio, o luto voltou com força total”, disse.

O advogado Elias Manoel Pereira Dias, que representa a família de João Clemente Pereira, também divulgou nota manifestando indignação e afirmou que os familiares confiam na atuação das autoridades para a responsabilização criminal dos envolvidos e eventual responsabilização civil do hospital.

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