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O povo da feira

Encontros e raízes na Feira Livre da Praça do Bicalho

Por Milena Castro
Agência de Notícias do CEUB/Jornal de Brasília

— 1 é R$ 2, 3 é R$ 5!
Os passos ficam apressados. As folhagens ficam à esquerda e os doces caseiros, logo à direita…
— Olha o abacaxi, moça!

A feira livre

CND 1 em Taguatinga-DF, ou simplesmente, Praça do Bicalho. Há 42 anos, a rua se transforma todos os domingos. O endereço é tomado por gritos, barulho de sacolas plásticas e o andar apressado para a preparação do almoço. Alface, peixe, açafrão, jiló, maçã, rapadura, queijo ou banana. Cheiro de pastel mistura-se com o das melancias recém-abertas. O cheiro forte do pequi junta-se ao cheiro suave da cana-de-açúcar do Seu José. Mulheres e homens das redondezas, ou mesmo quem vem de longe, têm os cinco sentidos desafiados pelo lugar. Aliás, tudo junto e misturado. 

Este endereço formado apenas por letras e números – como é comum em Brasília – pode não parecer compreensível para desavisados, mas os moradores de Taguatinga sabem direitinho onde fica. “Chegar aqui é fácil. É só seguir o endereço”, explica o mineiro José, de 81 anos, da banca de pastéis. 

Foto: Reprodução

Lá é onde acontece a Feira Livre da Praça do Bicalho. É onde tem histórias em cada barraca. Em cada metro quadrado, tem sacola espalhada e olhares atentos para o menor preço. Esse cantinho do DF carrega tradição e diversidade.

Das 6h às 14h, a rua nem parece a mesma da segunda, terça, quarta, quinta e sexta-feira. Ganha mais cores e falatório, e menos buzinas. O som que invade a rua durante a semana é o do sinal sonoro do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 11 de Taguatinga, dando a hora do intervalo, e a risada das crianças na quadra lá dentro.

Das motos chegando ao Centro de Distribuição (CDD) dos Correios com pressa para levar as encomendas da região norte da cidade, dos carros de autoescola treinando “garagem” no estacionamento na lateral da Unidade Básica de Saúde (UBS) nº 2 de Taguatinga. E quando tem campanha de vacinação? Ouve-se algum choro infantil por lá também. Mas aos domingos, os sons e os cheiros da rua são outros.

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Tá caindo, tá caindo — grita em tom de desespero um feirante e todos em volta olham assustados.

— … o preço! — ele completa, arrancando algumas risadas e vendas.

Os vendedores e consumidores da feira funcionam como um organismo vivo. Enquanto um grita que o saquinho de tomate está por R$ 2, crianças correm para a banca de pastel e caldo de cana puxando a mão de seus pais. Como um pedágio para que o ritual de andar por todas aquelas bancas da feira continue sem a reclamação dos pequenos.

Os valores mais baixos e os produtos de maior qualidade do que em supermercados, por serem cultivados por pequenos agricultores, contribuem para o grande fluxo na feira livre, mas uma parte das pessoas vai à feira todo domingo de manhã pela tradição e experiência de estar lá.

Bicalho: lá onde a feira mora

As kombis brancas, bicicletas e outros veículos começam a chegar na Praça do Bicalho no sábado a tarde para descarregar as mercadorias e no domingo às 4h os feirantes já começam a montar tudo. De acordo com a Adminstração Regional de Taguatinga, o cadastro está sendo atualizado e pelo menos 300 barracas estão estabelecidas no local. Há famílias que vieram de todas as partes do território nacional, principalmente, da região nordeste do país, como é o caso de Dona Neves e Seu Francisco.

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A Praça do Bicalho abrange as quadras do Setor D Norte, ali estão estabelecidos comércios, igrejas, moradias, CEF 11, UBS 2, CDD de Taguatinga Norte e quadras esportivas. O nome oficial da Praça do Bicalho é Praça Almirante Tamandaré, mas se popularizou como Praça do Bicalho em homenagem ao antigo proprietário de um estabelecimento comercial no local, seu sobrenome deu nome ao grande retângulo que é o local. Inclusive, a placa no lugar indica Praça do Bicalho. Nem cheiro de Almirante Tamandaré.

Taguatinga, que é a cidade onde está localizado o Bicalho e a feira, nasceu assim: como um teto para quem construía a nova capital, a desejada Brasília. Lugar para abrigar a família, para depositar a promessa de vida melhor e se estabelecer na terra das oportunidades. A cidade, desde o início, foi formada por famílias, com muito suor, trabalho e força.

Antes não tinha nada, era terra. Não tinha teto, não tinha casa.

Então, quem construía, dormia e precisava achar uma casa. De acordo com registros da Novacap, os candangos passaram por um processo de remoção e foram realocados a 25 km do Plano Piloto, na localidade que foi nomeada Taguatinga, a primeira cidade-satélite de Brasília. Em 1958, a cidade nasceu oficialmente por meio do Decreto n° 571/70, pelo governador Hélio Prates da Silveira.

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Segundo a Secretaria de Estado de Fazenda do Distrito Federal, o nome da cidade veio de um sítio de mesmo nome, localizado na região onde está estabelecida hoje. Taguatinga é um vocábulo de origem tupi-guarani, “Ta’Wa’Tiga”, que significa barro branco ou terra branca, ocorrência geológica na região.

A praça, a cidade e a capital são mistura de sotaques, de cores, de gostos, de temperos e de sonhos. Assim também é a feira, que surgiu na década de 1980, tudo junto e misturado no Bicalho.

Do Nordeste para o Bicalho

Todo fim de semana, ele coloca seu chapéu gasto na cabeça e as peças de carne suína e bovina no carro. Este é o Seu Francisco, como é conhecido o paraibano de 78 anos. É um dos vendedores que vêm de bem longe, direto de Goiás, para a feira. Ele vem na sexta-feira, bate o ponto e sábado encosta o carro no local para montar sua mesa e faz do banco do seu Golzinho, seu colchão.

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De todos os seus anos de vida, 42 pertencem à feira, na mesma rotina. “Do tempo que eu cheguei, que eu comecei, meus amigo ‘já foi tudo’, já morreu um bocado. De mais véi que tem na feira aqui sou eu, de feira”, contou. Entre os anos de 1985 e 1990 é o tempo em que Seu Francisco mais se lembra de ter grande sucesso na feira e tem saudade, “foi o tempo que ganhei mais dinheiro na minha vida, eu vendia tudo e 11h já tava em casa”.

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Hoje, na barraca a poucos metros de distância está a filha caçula, Dona Preta, como a chamam no Bicalho. Ela vende peças de carne bovina e suína como o pai, “foi criada aqui na feira”, diz. O movimento é grande o tempo inteiro por ali. Compradores perguntam:

— Preta, vai estar aqui semana que vem, né!?

— Claro, faça chuva ou faça sol ‘tamo aí’, ela responde já atendendo outro cliente.

Bem na frente da barraca do Seu Francisco, está a tenda colorida do Manuel, cheira a açafrão e cominho.

— O senhor é Manuel de quê?

— É Manuel “dos temperos”, apresenta-se.

Ele tem 54 anos e a terra dele é a Bahia, mas veio para Brasília cedo e começou a trabalhar na feira aos seus 20 e poucos anos. “Toda vida nessa rotina, não lembro como começou. Eu chego 2h30, 2h40 com os sacos e aqui é só eu que faço tudo”, disse. Dentre os produtos que vende, estão as mais variadas especiarias, desde folhas de louro a salsa.

Do sul do solo paraibano, também veio a Dona Neves, de 63 anos. No dia 25 de setembro de 1981, ela veio do município de Monteiro para Brasília, tinha apenas 17 anos. Na capital, casou-se, teve quatro filhas e adotou um filho.

Antes da feira, trabalhou em hospital como copeira e em loja de plástico couro, mas logo começou a vender pratos típicos do nordeste em uma banca na Feira Livre do Bicalho. “Quando eu comecei a trabalhar ali naquela feira era bem pouquinha gente, como feirante, né!? Eu tenho 33 anos de feira naquele mesmo lugar. Teve uma vez que choveu muito, logo no começo, e arrancou as barracas tudo do lugar e a gente chegou lá de madrugada, teve que arrumar. Terminou a gente emendando lona dos outros para trabalhar, isso me marcou muito”, conta Dona Neves.

Bem no início da feira e perto da quadra de esportes, o cheiro da comida da comerciante nordestina é convidativo. Mocotó, sarapatel, buchada de bode, arroz, feijão e farofa. “Eu tempero com os temperos do nordeste mesmo, cominho, pimenta, colorau, que é corante, como o pessoal chama aqui”, explica.

Assim como Dona Neves, a tradição familiar está presente na vida de Rogério da Rocha, de 36 anos, a feira faz parte da história da família. Seu avô e seu pai também eram feirantes e, hoje, ele assumiu o lugar e vende seus produtos há cerca de 18 anos.

A tenda de verduras e legumes fica quase na metade da feira, é o capricho que ele coloca ao montar os saquinhos e simpatia em atender seus clientes que ganha a fidelidade das pessoas. Desde os seis anos de idade, ele vai com os pais à feira e a maior alegria de Rogério em estar por lá é essa proximidade com as pessoas.

Para ter barraca na feira, não é qualquer um. Eles pagam uma taxa pela utilização do local público, que Rogério afirmou não ser tão alta, o que é vantajoso para os comerciantes. Também, tem que fazer um cadastro e ter permissão da Administração Regional de Taguatinga como detalhado na Lei n° 6956, de 29 de setembro de 2021.

“A gente tem autorização da administração e cada domingo é R$ 38, agora deve aumentar. A gente paga R$ 28 por m², então o meu dá por mês uns cento e pouco, mas eu pago por ano, que dá uns R$ 2.800. Se não tiver autorização, a gente não pode ficar trabalhando lá. Quem não tem, o DF Legal tira”, explica Dona Neves.

Lá para o meio da tarde, às 16h, o movimento diminui na quadra. Seu Francisco logo guarda as coisas no Gol cor chumbo e volta para a estrada. Dona Neves desmonta o fogão, carrega as panelas e vai para casa, ela mora na cidade ao lado, na Vicente Pires. Seu José, Manuel, Rogério e todos os feirantes já começam a desmontar suas barracas e recolher as tendas.

As kombis e carros vão embora e a vida continua, tudo se repete.

Mas prepare a sacola ou o carrinho, que domingo que vem é dia!

Fim (de feira): Expediente

Grande reportagem desenvolvida para o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC)

em Jornalismo no ano de 2022, para o Centro Universitário de Brasília (CEUB)

Edição de imagem: Milena Castro

Edição e orientação: Luiz Claudio Ferreira








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