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Brasília

O novo cenário da corrida pelo Buriti

Celina Leão (PP) e Leandro Grass (PT) disputam segundo turno e precisam herdar espólio político e superar a desconfiança do eleitor

Luiza Melo

05/10/2026 17h47

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Foto: Arte/Agência Brasil

No próximo dia 25 de outubro, o Distrito Federal elegerá o chefe do Palácio do Buriti pelos próximos quatro anos. A disputa ficou entre dois nomes de espectros políticos opostos: Celina Leão (PP), candidata à reeleição e sucessora natural do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB), e o ex-deputado distrital e aposta do presidente Lula (PT) para a capital federal, Leandro Grass (PT). De um lado, Celina busca a manutenção do capital político encabeçada pela centro-direita, sustentada pelas benfeitorias colhidas juntamente com seu antecessor. Por outro lado, Grass se articula com o campo progressista com a promessa de reestruturação da atual gestão.

A prorrogação para um segundo turno pegou de surpresa a campanha da atual governadora. Isso porque as pesquisas mostravam uma vitória certa em primeiro turno com uma folga do segundo colocado nas pesquisas, hoje seu rival direto. Nos últimos levantamentos feitos às vésperas do pleito, Celina liderava com 55% das intenções de voto, enquanto Grass não chegava a 30%. Com o novo cenário, os candidatos devem redesenhar as campanhas e ir em busca do espólio político dos nomes que ficaram de fora da corrida.

Os postulantes tentam, na reta final, herdar os eleitores de Paula Belmonte (PSDB), que ficou em terceiro lugar na disputa com 140.765 votos, e de Kiko Caputo (Novo), que saiu da competição com 72.148. Juntos somam 212.913 eleitores que devem migrar para um dos dois nomes que continuam no jogo. Ricardo Cappelli (PSB), que teve 36.828 votos, já declarou o apoio à Grass.

Há nessa equação um outro fator importante e que deve ser considerado: a saída do ex-governador José Roberto Arruda (PSD) do pleito que ocorreu pouco antes do primeiro turno, por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que aparecia bem colocado nas pesquisas e próximo a Celina Leão nas intenções de voto. Desde a impugnação, Arruda não declarou apoio explícito a nenhum candidato, mas continuou firme na postura combativa de críticas à atual governadora. O capital político do ex-governador também é um elemento que pode definir os rumos do segundo turno.

O cientista político pelo Centro Universitário do Distrito Federal (UDF) e especialista em desenvolvimento democrático comparado, Gabriel Lepletier, explica que o confronto está entre a promessa de continuidade e a mudança.

“O dado que eu mais observaria agora não é a intenção de voto, é a rejeição. Celina tem 41% e Grass, 40%. É praticamente um empate. Quando os dois são rejeitados por fatias tão parecidas, o segundo turno tende a ser decidido pelo medo, mais do que pelo entusiasmo”, avalia.

De acordo com o especialista, o eleitorado se divide no atual momento entre o antipetismo e o receio de uma continuidade de uma gestão marcada pela crise no Banco de Brasília. “Temos um confronto muito nítido entre continuidade e mudança. A saída de Arruda da disputa redesenhou a corrida e consolidou Celina Leão como favorita. A tendência é de vitória de Celina. Grass estacionou no teto da esquerda e não herdou o voto de Arruda”, analisa.

Agora, o eleitor tem mais três semanas para avaliar propostas e escolher o próximo a ocupar a cadeira no Executivo distrital. Independente do resultado, no entanto, o governador escolhido terá que enfrentar problemas deixados pela antiga gestão de Ibaneis. O mais preocupante na avaliação dos especialistas é encontrar uma solução para a crise no BRB.

O que está em jogo

Saúde, mobilidade, segurança e desenvolvimento econômico continuam no topo das insatisfações do eleitorado brasiliense, e dificilmente o próximo governador escapará dessas pautas. No entanto, recuperar a confiança da população é um dos problemas centrais.

“O brasiliense chega a esta eleição desconfiado, e com razão. O caso do BRB é o melhor exemplo. Não estamos falando de um tropeço administrativo qualquer. O próximo governo começa com menos dinheiro e com uma ferida aberta na credibilidade do Estado. Entregar fila de saúde menor ajuda. Mas, sem transparência sobre o BRB, qualquer entrega tende a ser recebida com ceticismo”, argumenta Lepletier.

De acordo com investigações do Ministério Público Federal (MPF), o BRB injetou ao menos R$ 16,7 bilhões no Banco Master entre 2024 e 2025, sendo ao menos R$ 12,2 bilhões em operações sem lastro independente. O aumento de capital pode chegar a R$ 8,86 bilhões. Principal controlador do banco distrital, o GDF, sob o comando de Celina, articula um empréstimo junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para aporte no BRB.

O valor, estimado em até R$ 6,6 bilhões, ainda não foi liberado por falta de divulgação dos balanços financeiros do banco referentes a 2025 e o primeiro trimestre de 2026. A situação em que o BRB se encontra coloca em risco outras áreas, segundo o economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) César Bergo.

“O BRB é um braço do governo local para alguns programas, sobretudo programas sociais. E tem também uma carteira de desenvolvimento, de apoio ao pequeno empreendedor”, explica. De acordo com ele, o próximo chefe do Buriti deve tomar algumas precauções para contornar a crise.

“As primeiras medidas seriam escolher uma boa equipe, negociar com o Banco Central. Tentar negociar um prazo para acertar essas questões internas, de governança, que vimos durante o ano todo. A apresentação dos balanços. Acho que a grande prioridade tem que ser a questão societária para regularizar não só perante a CVM, mas também perante aos acionistas. Essa possibilidade de contornar a crise do BRB existe, não só através de uma boa negociação, de um crédito para efeito de aporte de capital no banco”, avalia.

Propostas

Apesar de lados opostos, Celina e Grass esbarram em propostas similares. Entre elas, a implementação da Tarifa Zero, bilhete único para moradores do Entorno e a ampliação de de escolas em tempo integral. A saúde também é um dos principais pilares nos dois planos de governo.

Celina aposta em obras viárias iniciadas na gestão anterior e no fortalecimento de ações de zeladoria nas regiões administrativas, viabilizados pelo programa GDF na Sua Porta, que descentraliza o acesso a serviços públicos. Na educação, além da escola em tempo integral, Celina é defensora da ampliação das escolas cívico-militares no DF e pretende substituir programas como Cartão PDAF e Educa-DF por soluções com recursos de inteligência artificial.

Na saúde, promete inaugurar novos hospitais em regiões administrativas como Sobradinho e Ceilândia, além de modernizar a gestão da saúde por meio de uma rede integrada de atendimentos. No âmbito da segurança pública, propõe a reestruturação das carreiras militares e ampliação do programa de monitoramento DF 360.

Para a mobilidade urbana, defende a implantação do programa Tarifa Zero para a população de baixa renda, ampliação do metrô para o Gama e a integração dos modais para os moradores do entorno.

No plano de governo de Grass, a saúde é um dos principais eixos. A principal proposta é o programa Saúde Sem Espera, que prevê a cobertura completa da Estratégia Saúde da Família, com médicos próximos das residências e garantia de exames e consultas especializadas em até 30 dias.

Na educação, o petista propõe o Novo Plano Distrital de Educação, zerar a fila das creches e ampliar a educação em tempo integral com foco em esporte, cultura e tecnologia. Na área da segurança pública, promete a instalação de câmeras corporais em agentes de policiamento e a criação de uma unidade integrada de inteligência patrimonial e financeira para atacar o dinheiro do crime organizado.

Na mobilidade, promete a criação de bilhete único para trabalhadores do entorno, destravamento de investimentos do Novo PAC para implementação do transporte sobre trilhos e expansão do BRT para outras regiões.

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