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Brasília

O fantástico mundo de Dulcina de Moraes

Arquivo Geral

20/04/2015 7h10

Os olhos de Dulcina de Moraes estavam fechados quando escolheu, em 1972, onde seria a sede da Faculdade de Artes que levaria o seu nome. “Dizem que Juscelino Kubitschek pediu para ela definir onde queria o espaço. E, como era uma mulher muito mística, preferiu fazer isso acreditando que Deus a levaria ao melhor lugar. Por isso, ela apenas apontou o dedo sobre a planta de Brasília. Não quis olhar. Quando ele tocou o mapa, uma surpresa: era no Setor de Diversões Sul, o Conic”, conta Cícero Bastos, 68 anos, um dos coordenadores da instituição. Esta é a segunda reportagem da série Bravo Resistente sobre o Conic.

Foi assim, acreditando no acaso, que o destino da consagrada musa do teatro brasileiro se cruzou com os corredores e as peculiaridades do Conic. “Para nós, o prédio e a faculdade são uma coisa só. Foram feitos um para o outro. Não dá mais para imaginar o teatro saindo daqui. Criou-se uma vida a dois aqui dentro. O Conic faz parte da história do Dulcina e vice-versa. E, infelizmente, ambos, precisam, agora, de investimentos. Eles precisam que acreditem no potencial desse grande projeto”, acredita  Cícero diante de toda a história. 

Desleixo

Já do lado de fora da faculdade, os cartazes que estampam o rosto de Dulcina mostram o desleixo com o espaço. As imagens foram pichadas. Dentro do prédio, o Teatro Dulcina e a Sala Conchita de Moraes também revelam os anos de abandono. Muitos alunos desistiram dos cursos. Hoje, são aproximadamente 150 estudantes matriculados na instituição. “A antiga administração apenas maquiava a real situação. Se você arrastar um armário, por exemplo, vai ver que eles não pintavam a parede atrás dele. Muita gente saiu”, relata Cícero.

Com um triste histórico de dívidas, ausência de apoio e, principalmente, preservação do acervo Dulcina de Moraes, a faculdade tenta, lentamente, se reerguer. Por pouco, o sonho da bela dama dos palcos brasileiros não se tornou um pesadelo. Em 2012, a instituição quase fechou as portas. Somente depois da intervenção do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), em 2013, o espaço voltou a respirar, com novas produções teatrais e projetos para o futuro.

Luta 

Hoje, os administradores judiciais do Dulcina, Marco Antonio Schmitt Hannes e Luiz Francisco de Sousa, lutam, junto à representante da comissão de alunos e professores, Julie Wetzel, para dar vida ao espaço. “Estamos trazendo, novamente, a possibilidade de um local que, embora seja privado, é de interesse público. Queremos dinheiro de incentivo fiscal. Nossa ideia é recuperar a faculdade em quatro anos e mostrar que é possível ter um ambiente onde são respeitadas todas as linguagens e visões”, afirma Cícero.

Peças da diva estão guardadas a sete chaves

Enquanto professores e alunos se esforçam para recuperar as forças da instituição, novas ideias vão surgindo. Assim que assumiu o papel de coordenador junto à nova administração, Cícero descobriu, no quinto andar da faculdade, uma raridade de peças pessoais e teatrais de Dulcina. Objetos que pretende expor. “São mais de 1,7 mil vestidos”, conta. A atriz deixou ainda sapatos, chapéus, móveis e outras relíquias. “Tem costuras aí que você não encontra mais. E todas essas coisas estavam lá em cima, pegando sol, se destruindo com o tempo”, relata.

As relíquias de Dulcina ficam guardadas em um dos camarins do teatro, no subsolo do prédio: um pequeno espaço de aproximadamente 4 m². “Enquanto não se resolve o que vai ser feito, a gente cuida com muito carinho de tudo isso. Colocamos um produto que evita o mofo e vamos levando. É um tesouro o que temos aqui”, diz Cícero. O coordenador da faculdade cuida das peças junto com Celeste Silva, 51 anos, uma das poucas detentoras das chaves do local.

A ex-camareira de Dulcina trabalha na faculdade há 32 anos. Orgulhosa de ter conhecido pessoalmente a musa do teatro brasileiro, ela enche a atriz de elogios. “Eu até hoje não vi uma pessoa igual a ela. Era uma diva. Uma mulher inteligente, corajosa, guerreira. Tanto que ela elegeu o Conic para abrigar a sede. E, antigamente, aqui era terrível. Mas, na verdade, ela escolheu o melhor lugar”, relembra.

Funcionária acredita na prosperidade

A própria Celeste, ex-camareira de Dulcina, é prova do esforço da atriz pela formação de artistas. Antes funcionária da área de serviços gerais, agora ela trabalha na coordenação e produção de teatro. Já chegou, inclusive, a participar de peças no palco do Teatro Dulcina. “Ao longo desses anos, fui aprendendo, pegando experiência. Quando entrei, não queria trabalhar aqui. Não me acostumava. Artistas são estranhos logo de cara. Hoje, não quero sair mais”, conta.

Todos os dias, Celeste visita a sala onde ficam guardadas as roupas de Dulcina de Moraes. Segura as peças nas mãos com carinho. Exibe, com orgulho, os tecidos e as costuras que vestiam a atriz nos espetáculos. “Entrei aqui com 17 anos. Criei meus sete filhos aqui dentro. Muitas vezes, não tinha com quem deixá-los e os trazia. Ficávamos na coxia, assistindo. Muitos atores famosos se formaram aqui. A história deste lugar é importante para o Brasil”, salienta.

Expectativa

Defensora incansável da biografia de Dulcina, Celeste espera um futuro próspero para a faculdade. “Graças a Deus estamos superando a crise. Temos vestibular, espetáculos. Minha expectativa é que 2015 seja um ano muito bom. Tenho muita fé que coisas boas vão acontecer. Temos um governo novo e esperamos que ele pense com mais carinho na arte e na cultura”.

Apego e paixão pelo local

Mesmo diante do cenário que quase manchou a história da faculdade, alunos e ex-alunos confessam a paixão pelo espaço. Dulcina de Moraes, afirmam, nunca deixou de ser a grande referência cultural da cidade. “Eu vinha para cá ainda adolescente. Assistia aos espetáculos do Dulcina e quis estudar Artes Cênicas aqui. Então, para mim, o local é não só um polo cultural muito forte, onde você tem artistas que se formaram, como também um marco no avanço das políticas culturais”, ressalta a coordenadora da Faculdade de Artes Cênicas, Váleria Rocha, 29 anos.

Com a expectativa de que os próximos anos sejam melhores e mais produtivos, quem ainda estuda na faculdade aposta em um espaço renovado. “Temos um verdadeiro acervo de peças da Dulcina que deveria ser um memorial. A gente enfrentou uma série de turbulências acreditando que isso vai ser possível. O ambiente está detonado, largado, mas tem vida. Tem muita arte”, valoriza a aluna de artes plásticas Ana Cláudia Lopes, de 42 anos.

Saiba mais

Antes de estabelecer a Faculdade Dulcina de Moraes, a atriz criou, em 1955, a Fundação Brasileira de Teatro, no Rio de Janeiro. Lá, o espaço oferecia cursos de interpretação, direção, cenografia, crítica de arte e extensão cultural.

Em 7 de dezembro de 2007, foram tombados o Teatro Dulcina de Moraes e os acervos fotográfico, textual e cênico da atriz.

Hoje, a Fundação reúne o Teatro Dulcina e a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes.

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