João Paulo Mariano
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Enquanto muitos monumentos da capital estão iluminados de azul em referência à campanha de conscientização sobre o câncer de próstata – o Novembro Azul –, quem tem a doença sofre com a desassistência por parte do poder público. Falta o básico: reagentes para o exame de antígeno prostático específico, o PSA. É ele que auxilia na verificação do avanço ou não da enfermidade que acomoteu 840 novos homens no DF no ano passado e matou, em 2013, mais de 13 mil no Brasil.
Na avaliação do aposentado José Cardoso, 70 anos, fica parecendo que o ser humano não tem valor para o governo e que a vida dos brasilienses não merece tanta importância. “Eu me sinto humilhado. Sem segurança nenhuma para tratar a doença”, reclama o homem, que convive com o câncer de próstata desde 2012 e já perdeu as contas de quantas vezes teve que pagar por exames na rede particular.
O último pedido médico de José para fazer o PSA foi feito no dia 24 de agosto deste ano. A próxima consulta já é no dia 23 deste mês, mas até agora ele não conseguiu o exame e acredita que nem o fará. O jeito vai ser, mais uma vez, recorrer ao auxílio dos filhos e irmãos para o custeio dos procedimentos. Se ele perder esta consulta, só poderá marcar outra daqui a três meses, o que pode prejudicar o tratamento. Desde 2015, o tumor não avança para outros órgãos.
A esposa de José, Sebastiana Mendes, 61 anos, acompanha a labuta do marido para manter a saúde em dia e desabafa que é muito difícil para eles conseguirem pagar todos os medicamentos e exames em clínicas particulares. Para ela, parece que os cuidados do governo com a população ficam apenas na propaganda.
Serviço
- A Associação Brasileira de Assistência às Pessoas com Câncer (Abrapec) foi fundada em 2002 e tem a função de auxiliar pessoas com dificuldades para manter o tratamento contra o câncer. Quem precisar de auxílio pode entrar em contato pelo telefone (61) 3352-3157. O número serve também para aqueles que quiserem ajudar financeiramente a instituição, que fica na QNA 32, casa 2, em Taguatinga Norte.
Sumiço
O JBr. soube da situação de José depois que a filha dele, Raquel Mendes, postou uma reclamação no Facebook sobre a falta do exame. O comentário foi feito na página oficial da Secretaria de Saúde, mas “sumiu” depois de publicado.
Precariedade provoca consequências graves
Além da falta de reagente para um exame básico, pacientes reclamam da demora em realizar a radioterapia. Francisco das Chagas da Silva, 64, enfrenta um câncer desde 2015 e demorou quase um ano para fazer a radioterapia. O procedimento só ocorreu no ano passado. Como nem sempre consegue fazer os exames de PSA, ele precisa contar com o auxílio de familiares e de organizações sociais para pagar os procedimentos.
A falta de reagentes, de medicamentos ou de procedimentos médicos não é novidade para os integrantes da Associação Brasileira de Assistência as pessoas com Câncer (Abrapec), que funciona em Taguatinga. A secretária da instituição, Carlani da Silva Corrente, relata que a procura por auxílio é cada vez maior nos últimos anos.
“A gente fornece medicamento e assistência psicológica e social a mais de 250 pessoas. Com a crise, ficou mais difícil para as pessoas arcarem com o tratamento. O câncer é uma doença muito cara”, diz.
Segundo Carlani, a falta de exames significa uma interrupção perigosa no tratamento. O problema é que, se por um lado a dificuldade financeira faz com que mais pessoas precisem de auxílio, por outro menos gente pode colaborar com doações.
Para o oncologista clínico do Instituto Onco-Vida, Nilson Correia, a falta de acompanhamento também é uma preocupação e pode fazer com que o médico fique sem meios de observar a evolução do tratamento. Correia não entende como é possível faltar reagentes para um exame simples, e que sai muito mais barato para o serviço público do que uma tomografia ou uma cintilografia.
“Se o paciente perde o acompanhamento trimestral, ele pode perder tempo na luta contra a doença. Com o PSA, o médico consegue se antecipar a qualquer problema e rever alguma ação”, diz. O especialista alerta que a falta de cuidado pode fazer com que o tumor volte ou se alastre por outros órgãos.
Versão Oficial
A Secretaria de Saúde prevê que a rede esteja reabastecida com os reagentes para o exame PSA a até a próxima semana. “Vale esclarecer que o PSA não é o único exame para prevenção da doença. Existem também o exame clínico, feito em consultório por urologista, e exames de imagem oferecidos pela rede como, por exemplo, a ecografia de próstata”, informa a pasta, via assessoria de imprensa.
O atendimento em urologia ocorre nos seguintes hospitais: Base, Asa Norte, Sobradinho, Taguatinga, Ceilândia, Gama, Santa Maria e Região Leste (antigo Paranoá). A porta de entrada para atendimento especializado são as Unidades Básicas de Saúde. Atualmente, 60 urologistas compõem o quadro de profissionais da rede. Em 2016, foram realizadas 43.587 consultas com urologistas nos hospitais da rede pública. Entre janeiro e agosto de 2017 foram registradas 32.193.
Esses hospitais também fazem cirurgias de câncer de próstata. Em 2016 foram executadas 129 cirurgias e, neste ano, entre janeiro e setembro, foram contabilizados 69 procedimentos.