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Brasília

Nos 19 anos da faixa de pedestres, ainda há falta de respeito de todas as partes

Arquivo Geral

01/04/2016 6h00

Pelo menos quatro pessoas morreram em 15 atropelamentos registrados no Distrito Federal em março, conforme levantamento do JBr.. Em 2015, essas circunstâncias representaram 34,9% de todos os acidentes com morte na capital e, na última década, mais de 1,3 mil pedestres foram vitimados. Neste 19º aniversário da faixa de pedestre na capital, as estatísticas históricas mostram que esse é um problema longe de ter fim, e especialistas alertam para situações de risco. 

Todas as vítimas do último mês tentavam atravessar uma pista sem passarela ou faixa de pedestre quando foram acertadas por veículos. No dia 21, foi um homem de 23 anos na Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia) Norte, em frente à Água Mineral. No dia 18, dois homens morreram: um, de aproximadamente 30 anos, na pista norte da via Estrutural, e o outro, um soldado do Exército, na BR- 040. No dia 11, uma carreta acertou uma mulher na DF-001.

O Departamento de Trânsito (Detran)   não tem dados oficiais de março. Os números mais recentes envolvem os dois primeiros meses do ano, quando   13 pedestres morreram. No mesmo período do ano anterior, o número era exatamente o dobro. 

“De 2014 para 2015, a queda foi de   18%. Agora já temos mais redução. Nossa gestão tem se baseado na campanha Paz no Trânsito, com a retomada de ações educativas, aumento na fiscalização e ações de engenharia que tragam maior segurança”, afirma Jayme Amorim, diretor-geral do Detran.

Prioridade  

No trânsito, o condutor   tem obrigação legal de zelar pela segurança  dos pedestres, que são mais frágeis. Os carros têm de parar nas faixas, mas também cabe ao transeunte ter bom senso ao atravessar.

Dezenove anos depois do lançamento da campanha Paz no Trânsito, que transformou Brasília na capital do respeito ao pedestre, há cerca de cinco mil faixas. Para Jayme Amorim,  o DF ainda é   um caso de sucesso: “A faixa faz parte da nossa cultura”. 

Ainda assim, há quem prefira se arriscar entre os veículos, como a empregada doméstica Cássia de Jesus,   30 anos. A cerca de cem metros de uma faixa   no Sudoeste, ela aguardou mais de cinco minutos para o fluxo de carros diminuir e passar. “É a pressa. Nem vi faixa por perto”, justificou. Uma consulta médica próxima a teria feito correr e se expor ao perigo. 

Entre janeiro e fevereiro de 2015, duas pessoas morreram ao atravessar  a faixa. Neste ano, não houve morte nessa circunstância. Na segunda-feira, no entanto, um homem passava pela faixa quando um ônibus   o arremessou por mais de 30 metros em Taguatinga. Ele  foi internado em estado grave.

Pesquisador e especialista em trânsito, Artur Morais elenca informação e educação como os pilares capazes de reduzir o número de atropelamentos e mortes. “Tem muita gente que não anda 20 metros para passar em uma faixa ou semáforo, ou não espera  o sinal abrir e sai correndo. Tem que dar muita informação à população. Educar para usar  esses mecanismos   criados justamente para protegê-la”, afirma. 

Não dá, também, para ter longos espaços sem um dispositivo seguro para ultrapassar, como ocorre em grande parte da Estrutural, rodovia de grande fluxo de veículos. Aos motoristas, também há puxão de orelha. O especialista diz que grande parte dos atropelamentos em faixas de pedestres ocorre  porque o condutor, ao perceber o carro da frente diminuir a velocidade, troca de faixa de rolamento e não há   tempo de frear. 

Vários modelos testados e colocados em prática

Para o diretor-geral do Detran, Jayme Amorim, um acidente de trânsito é uma consequência da soma de diversos fatores. “A atitude de um pedestre atravessando fora da faixa, associada à velocidade um pouco maior do veículo e à falta de atenção das duas partes, pode provocar um acidente”, exemplifica. 

Ao longo de quase duas décadas, vários modelos de faixas foram implementados e testados. Há, nas regiões administrativas, faixas com sinal sonoro, com rebatedores de luz, simples e com demarcação em zigue-zague. Para o diretor-geral do Detran, cada situação é pensada individualmente de acordo com as necessidades do local. 

O sinal sonoro acoplado ao semáforo serve para orientar pedestres com deficiência visual. “É colocada em pontos específicos, como perto de escolas, onde há mais travessia de pessoas nessas condições”, explica Amorim, acrescentando que o item não é obrigatório. A iluminação, por sua vez, é inserida em locais com visibilidade reduzida. “Para o pedestre ver e ser visto”. 

Em 2010, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) autorizou o GDF a construir, de forma experimental, um novo modelo com pintura que começa 16 metros antes da faixa propriamente dita. A demarcação do asfalto, em zigue-zague, pode ser vista em alguns pontos, com pintura falha e esquecida. 

A ideia era que possíveis bons resultados alterassem o Código de Trânsito Brasileiro para tornar obrigatórios os novos itens de segurança, mas o projeto não foi para frente. “Não conseguimos identificar nenhuma mudança de comportamento”, afirmou Jayme Amorim, informando que não existe um prazo para remover essas sinalizações.

A autarquia diz não ter um levantamento dos custos da implementação desse experimento porque “a sinalização horizontal é toda feita dentro do contrato que inclui todos os tipos de pintura de solo”, como a demarcação de estacionamentos a faixas de pedestre, de rolamento e de retenção. “Não há o custo separado por tipo de sinalização realizada”, esclareceu o Detran-DF, em nota.

Ponto de vista

“O atropelamento nada mais é do que reflexo do trânsito ruim”, afirma o pesquisador em transporte Carlos Penna Brescianini. Para ele, Brasília ter sido criada na época do rodoviarismo causou deficiências para a acessibilidade do pedestre. “A cidade não oferece bons locais de travessia. No Plano Piloto, tem as passarelas subterrâneas do Eixão, mas, muitas vezes, eles preferem se arriscar pela falta de cuidado e segurança”, opina. Ele lembra que Detran e DER têm obrigação de investir a arrecadação em multas com educação no trânsito.

Homens morrem mais

Os homens são, historicamente, as maiores vítimas. Desde 2000, quando começou a série histórica do Detran, o número de mulheres mortas em atropelamentos é pelo menos duas vezes menor aos registros do sexo masculino. Em mais de 75% dos 105 acidentes com óbito computados em 2015, as vítimas eram homens. 

A média, naquele ano, foi de oito mortes   por mês: 79 homens e 35 mulheres, a maior parte acima de 40 anos. Neste ano, a autarquia diz ter dados consolidados de sexo e idade apenas de janeiro, quando seis pessoas morreram atropeladas, cinco homens e uma mulher, com mais de 20 anos.

Saiba mais

Segundo o Detran, o trabalho de revitalização das faixas de pedestres é constante. Em 2015, 638 delas passaram por manutenção e, nos dois primeiros meses deste ano, 407 receberam reparos.

A promessa do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) é que sejam construídas quatro novas passarelas para pedestres nas rodovias do DF, que se somarão às 66   existentes. Não revelou, porém, a localização dessas instalações.

O DER informou que finaliza um mapeamento da situação das passarelas para a realização de um plano de conservação de longo prazo, incluindo reformas.

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