A tragédia com as fortes chuvas no estado de Minas Gerais, principalmente na cidade de Juiz de Fora, acendeu um alerta a respeito dos locais de risco aqui no Distrito Federal. Segundo informações da Secretária de Estado de Segurança Pública (SSP-DF), divulgadas no dia 4 de setembro de 2025 no Diário Oficial da União (DODF), o DF possui 25 áreas com alerta, sendo 16 de muito alto risco e 9 de alto risco. No total, são 742 residências ameaçadas nessas zonas e 2.968 pessoas afetadas.
Entre os locais com maior número de moradores expostos, o destaque é Sobradinho II, especialmente na região da Vila Rabelo 2, onde há 198 residências em área classificada como de risco muito alto, atingindo cerca de 792 pessoas. Outra região com número expressivo é o Núcleo Bandeirante, na Vila Cauhy, com 104 residências em área de risco muito alto. Planaltina também aparece com 2 zonas, 69 casas e 276 pessoas prejudicadas. Os dados apontam ainda para locais como Arniqueira, Fercal, Gama, Recanto das Emas, Riacho Fundo 1, Setor Habitacional Água Quente, Sol Nascente e Pôr do Sol, Vicente Pires e SCIA.
O levantamento aponta diferentes ameaças, muitas associadas aos períodos chuvosos. Entre elas estão: enxurradas, alagamentos, inundações, deslizamentos, movimentação de massas, erosões, colapso de edificações e incêndios florestais. Além de risco tecnológico no Setor de Inflamáveis no SCIA.
Grande parte das ocorrências estão relacionadas com ocupações irregulares, áreas em declive acentuado e deficiência na drenagem. As áreas de alto e muito risco indicam uma maior probabilidade de com potenciais danos significativos às moradias e à população do local. O documento reúne dados de mapeamento, zoneamento e levantamento cadastral de áreas de risco de todo o DF.
Mapa já previa instabilidade
Um mapeamento no mesmo sentido já havia sido feito em 2022 pelo Serviço Geológico do Brasil. Na época foram mapeados 22 setores de risco, com 19 deles associados a deslizamentos planares, erosões e voçorocas. O relatório de Setorização de Áreas de Risco Geológico indica que os deslizamentos se concentram principalmente em áreas de encostas, cortes de taludes verticais e aterros lançados sem estrutura adequada. Entre as regiões com setores classificados como de muito alto risco estavam Sobradinho II, além de pontos em Fercal, Riacho Fundo I, Arniqueira e Sol Nascente.
A ausência de drenagem urbana, o lançamento de águas servidas nas encostas e a presença de fossas próximas a cortes de terreno foram citadas como agravantes para os casos. No período do levantamento inúmeros lotes apresentaram instabilidade,como trincas em moradias, muros embarrigados e ocorrências anteriores de desmoronamentos.
Na zona de risco, Vila Cauhy sofre com alagamentos
Segundo Walter Marques, prefeito comunitário da Vila Cauhy, a região convive com três pontes que costumam ser afetadas durante os períodos de chuva intensa. “Foi feito um trabalho em duas dessas pontes. O governo construiu muros de gabião e, até o momento, a obra tem sido eficaz. Mas ainda temos a ponte Canarinho, que precisa de uma atenção especial das autoridades”, afirmou.
A respeito de área ser irregular, o prefeito destacou que a comunidade aguarda a regularização fundiária como etapa fundamental para a chegada de infraestrutura definitiva. Ele afirmou que tem ciência da situação da Vila e acredita que as melhorias de infraestrutura só poderão acontecer de fato após a regularização dos imóveis.
Sobre o alagamento registrado de 2024, ele relatou que foi o terceiro grande episódio enfrentado pelos moradores e o mais grave. “Foi surpreendente, muito além do que já tínhamos vivido. Tinha correnteza passando pela cozinha e pela sala das casas. A água subiu mais de um metro. As pessoas estavam desesperadas, mas com medo de abandonar a própria casa”, contou.
De acordo com ele, famílias ficaram ilhadas e precisaram ser socorridas, além de terem registrado a perda de vários animais. “Nossa comunidade não quer passar por isso nunca mais. Por isso pedimos que as autoridades continuem ajudando e realizando as melhorias que são tão importantes para nós”, pediu.
Moradores
Residente da Vila Cauhy há muitos anos, Gisele da Silva, contou ao Jornal de Brasília que teve a casa alagada nas chuvas de 2024. Ela afirma que está ciente que o local é de risco, mas não tem nenhum outro lugar para onde possa mudar com a família. “Os meus vizinhos tiveram perderam tudo que tinham, a casa ficou até com rachaduras devido aos problemas causados pelas chuvas. Desanimados, eles acabaram voltando para a cidade natal, no interior do Nordeste. Mas eu não tenho para onde ir e aqui foi o único lugar que consegui comprar o meu cantinho”, comentou.
A costureira Benice da Conceição tem uma loja próximo a ponte Liverpool, levada pela enchente em 2024, e conta que ainda tem receio de o local voltar a sofrer com as fortes chuvas. “Os moradores da rua de trás perderam tudo, a gente não quer passar pelo o que aconteceu nunca mais. Há algumas semanas caiu uma chuva muito forte e nessa rua desce muita água, achei que o pior fosse acontecer. Mas no fim a ponte aguentou, foi um trabalho bem feito. Mas nós ainda temos uma ponte que precisa de melhoria, ali o pessoal corre o risco de perder até a própria casa”, desabafou.
Em nota
Em nota ao Jornal de Brasília, a Subsecretaria do Sistema de Defesa Civil (Sudec), vinculada à Secretaria de Segurança Pública do DF, informou que, atualmente, o órgão monitora ao menos 25 áreas de risco no DF. A Sudec explicou ainda que, nos casos classificados como risco muito alto, pode ser recomendada a interdição do imóvel, desocupação preventiva ou remoção emergencial. No entanto, a decisão envolve articulação com outros órgãos do Governo do Distrito Federal.
“Durante o período chuvoso, a Defesa Civil intensifica o monitoramento 24 horas por meio do Centro Integrado de Operações de Brasília (CIOB), acompanhando os índices pluviométricos e as previsões meteorológicas para emissão de alertas precoces. Os avisos são encaminhados por SMS, TV por assinatura, Telegram e WhatsApp, pela Interface de Divulgação de Alertas Públicos (IDAP), que já registra mais de 205 mil acessos. A população também pode comunicar áreas de risco pelo telefone 199, aplicativo e-GDF ou pela Ouvidoria, no número 162”, informou a Sudec em nota. A reportagem também procurou as administrações da Fercal, Sol Nascente e Sobradinho, mas nenhuma respondeu até o momento.