Carla Rodrigues
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Silvana Gomes de Matos perdeu as filhas gêmeas, que nasceram prematuramente, aos cinco meses de gestação, há 16 dias. Desde então, ela aguarda para poder enterrar Maria Eduarda e Maria Clara. Sem condições financeiras de arcar com o enterro, a gari de 36 anos procurou o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do Recanto das Emas para conseguir os caixões das bebês, de 60 centímetros. Porém, eles estão em falta. O governo diz que o problema será resolvido hoje.
“Os corpos continuam no Hospital de Taguatinga, onde elas nasceram. Estou esperando me dizerem quando vai ter caixão. Ontem, fui lá de novo e me disseram que continuava sem. A previsão era de que só chegaria no dia 1º”, lamenta Silvana. Ela recebe apenas um salário mínimo. Está afastada do serviço porque foi diagnosticada com a síndrome do túnel do carpo, que dificulta o movimento das mãos. Só o aluguel de casa custa R$ 800.
“É muito apertado. Eu não tenho condições de pagar um enterro. Infelizmente. Porque é um absurdo não terem caixões. Há 16 dias, quero enterrar minhas filhas. É um absurdo”, lamenta a gari. Mãe de seis filhos, dois maiores de idade, já casados, ela vive na pequena casa, no Recanto das Emas, com os outros quatro. O mais velho, de 19 anos, ajuda com as despesas.
Dias difíceis
Ao mostrar a declaração de óbito das meninas, Silvana confessa que tem procurado se manter firme para resolver o problema: “Foi tudo tão rápido. Eu tive que ser internada no dia 11 por causa de uma infecção. Quando já me sentia melhor, dois dias depois, vieram os sintomas do parto. Uma delas morreu no dia 13. A outra, no dia 14. Eu só consegui chorar quando me disseram. Elas nasceram perfeitas. Não tive tempo de pensar. Mas sabia que tinha de enterrar minhas filhas. Então, assim que saí do hospital, fui procurar o Cras”.
“Sem apoio e dinheiro”
Silvana seria mãe solteira, mais uma vez, já que os pais dos outros meninos também a deixaram. Assim que soube da gravidez, o pai das gêmeas foi embora para São Paulo. Segundo ela, “a relação não estava mais dando certo”. Ainda assim, conta, ele ligava para saber da gestação. Em um dos contatos, chegou a pedir para que ela pagasse sua passagem de volta a Brasília. “Eu falei para ele que não tinha dinheiro nem para mim, o que dirá para mandar para ele. Foi muito triste. No início, pensei o que seria de mim com mais duas meninas, sem apoio e sem dinheiro”, lembra.
Mesmo assim, ela desejou as crianças, assim como os outros filhos: “Eu tinha tudo para elas. Agora não mais. Já vendi algumas coisas. Estava tudo preparado”, afirma. Após se despedir aos poucos dos planos para as meninas, o único desejo é enterrar as filhas. “Uma amiga tenta conseguir os caixões com um deputado. E ele disse que vai conseguir. Mas devo voltar ao Cras porque preciso que consigam os buracos no cemitério”.
A princípio, Silvana não queria dar entrevista. Ela estava “com vergonha”. Mas, diante do que chamou de “absurdo”, cedeu e conseguiu falar sobre a dor de não poder enterrar as filhas. “É difícil. Não queria falar sobre isso. Espero que as coisas melhorem”, afirma, enquanto guarda a papelada de óbito de Maria Eduarda e Maria Clara na pasta de plástico cor-de-rosa.
Por e-mail, a Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh) informou que os caixões de 60 centímetros “acabaram de chegar à Central de Urnas da instituição”, situada no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA). Segundo o órgão, hoje, “bem cedo, o Cras fará contato com a família no Recanto das Emas a fim de providenciar o sepultamento das filhas”.
Segundo o órgão, a família, “por encontrar-se em extrema vulnerabilidade, foi atendida com psicólogos e assistentes sociais, que providenciaram auxílio vulnerabilidade de R$ 408 por mês, em seis parcelas consecutivas, e cestas básicas”. O auxílio, explicou a pasta, é uma medida de emergência do GDF para socorrer pessoas em situação de vulnerabilidade extrema.
Saiba mais
As famílias que têm direito ao enterro social são aquelas sem rendimento ou com renda per capita de até um salário mínimo ou que se encontram em limitações pessoal e social. Caso estejam em alguma dessas situações, elas devem se dirigir até o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) mais próximo, que tem em cada cidade, e apresentar os documentos necessários.