Quem trocaria as ondas da Cidade Maravilhosa e suas noites regadas ao melhor da bossa nova pela recém-inaugurada Brasília? Quem, em sã consciência, deixaria para trás o pôr-do-sol do Arpoador para contemplar a imensidão do Cerrado e seu extenso caminho de terra vermelha? A improvável escolha começa com um sonho. Porque, se nada fosse deixado para trás, ele não teria ido ao Bar do Chico, na 205 Sul, famoso local de encontros entre amigos nos anos 1970. E, sem isso, jamais teria experimentado a melhor moela ao molho de sua vida, feita por dona Zélia. Tudo aqui, na nova capital erguida.
“Olha aqui essa carta. Veja quem assinou. Fui um dos primeiros a estar aqui. Só não quis trazer a esposa, porque estava grávida e eu não sabia das condições dos hospitais aqui”, conta Lacyr Vianna, de 78 anos, apontando para o papel com as palavras de agradecimento de Juscelino Kubitschek. “Venho manifestar-lhe, de modo especial, o meu reconhecimento pelo seu patriótico apoio à luta que travei para conduzir a pleno êxito à causa do desenvolvimento nacional”, dizia o então presidente, em 1961.
Sim. Lacyr viu Brasília nascer. E ele também renasceu muitas vezes. Viu seus quatro filhos crescerem aqui, numa época em que as crianças podiam ficar nas pracinhas sem qualquer supervisão. “Não tinha a violência que está aí. Brasília era a melhor cidade para se viver. Era um paraíso. Podíamos dormir de janelas abertas”, lembra. O compositor, que homenageia a capital em várias canções, relata, com precisão, o que acontecia na época. Depois de erguida, Brasília tornou-se palco da cultura, da boemia e berço da boa educação.
“Naquele tempo, um dos points da cidade, além do Bar do Chico, era o Posto Valença, no Setor Hoteleiro Sul. A rapaziada se reunia lá. Ficava lotado”, diz. Já a noite da cidade, aquela em que os homens reúnem-se com o propósito de serem os garanhões da festa, acontecia a aproximadamente 20 minutos do Plano Piloto, no Núcleo Bandeirante. “Era lá que tinha as mais famosas casas noturnas da época. Os homens, às vezes, saíam do trabalho e iam para lá”, entrega Lacyr, que era um dos maiores entusiastas da boemia.
E muito se modificou
Outro ponto de encontro certo eram os clubes sociais. Lá, reuniam-se personalidades da cidade e artistas. “Eu era associado a vários, como hoje ainda sou. Mas, agora, eles têm outras funções me parece. A gente ia para os clubes para cantar, ouvir boa música, dançar”, diz Lacyr, ressaltando que nomes como Ângela Maria e Cauby Peixoto faziam sucesso na época. “Eles faziam shows na cidade, com certeza. O povo gostava de MPB. Era isso que se ouvia”, destaca.
Como viu os filhos crescerem e se formarem aqui, o compositor também lembra como era a educação das escolas na década de 1970. “As escolas-classe eram modelo ao País. Meus filhos estudaram na 206 Sul, junto com o governador Rollemberg. A formação era muito boa. Aprendia-se de tudo”, afirma. Os problemas de falta de professores ou estruturas carentes, salienta, passavam longe dos muros dos colégios.
A Saúde atual também contrasta com o cenário da lembrança de Lacyr. “O Hospital de Base era o principal de Brasília. E atendia bem, muito bem. Toda a população do Plano Piloto, e até das cidades vizinhas, era atendida lá. Era uma referência também. O triste é ver como está hoje, né? Não era esse o plano, tenho certeza. E não digo isso por uma ideologia política, porque sempre me mantive longe de partidos. Digo isso porque vi a cidade nascer e crescer ao longo de todos esses anos”, ressalta o senhor, que não abre mão de usar o chapéu panamá, presente que ganhou do cantor e compositor Zé Keti.
Enquanto acompanhou o desenvolvimento da Capital, Lacyr, de fato, viu um sonho ruir. Em meados dos anos 1990, lembra, a cidade começava a virar do avesso. “Foi um inchaço. Lembro-me que em 1970, por aí, a previsão era de 500 mil habitantes, talvez, em 2000. Em 95 já tinha isso. As pessoas foram migrando para cá. E foi crescendo absurdamente a cidade. Desde então, não vejo mais aquela antiga cidade. Hoje, existe o Distrito Federal. Não tem mais Brasília”, afirma.
O tempo passa ligeiro
O carioca que escolheu Brasília para ser seu lar encontra-se em outro cenário. Depois de viver a efervescência cultural da nova capital, Lacyr tenta se acostumar ao mundo novo dos anos 1990. O trânsito já começa a ficar lento. O Distrito Federal atinge a marca de mais de 1,6 milhão de habitantes. A violência é destaque nas páginas dos jornais. Saúde e Educação pedem socorro. Carência de recursos humanos nas áreas são os principais problemas. O déficit de professores em salas de aula e o excesso de atendimentos na rede pública de saúde são os principais problemas da cidade.
Dentro desta realidade, Lacyr resolve sair do Plano Piloto. Quer se distanciar da Brasília que não reconhece mais. Muda-se, então, para o Jardim Botânico. “Eu morava na 303 Sul e, em 1998, tive um infarto. E aquela quadra é barulhenta. Eu não tinha sossego. Era ambulância som sirene, era carro roubado e alarme tocando. E meu filho morava aqui. E ele deu a ideia de eu vir”, lembra.
Após seis meses, Lacyr já estava em sua atual casa. “Dei a sorte de ter um cara querendo ir embora e ele vendeu o lote por R$ 18 mil. O difícil foi me adaptar ao silêncio. Acabei me acostumando ao barulho. Acho que demorei uns seis meses para me adaptar”, lembra Lacyr, que agora tem como um dos seus locais preferidos o bar Santa Fé, onde seu neto, Pedro, se apresenta com frequência. “Puxou ao avô”, brinca o compositor.
Ainda dos anos 90, meados da década, Lacyr lembra-se do furacão chamado Rock. A Brasília da MPB e dos sambas começa, agora, a revelar o seu lado B.
2015
Agora, Lacyr não fica até mais tarde no bar. É ele quem leva a neta de quatro anos para a escola. Mesmo no dia do show de Beto Guedes no Santa Fé, “sim, aquele do Clube da Esquina”, ele afirma que vai para casa. “Não. Hoje eu não vou ficar. Meu neto vem e até me chamou, mas hoje não”, diz, sem estender muito o assunto. Ele gosta mesmo é de falar sobre Brasília.
Então, Lacyr se despede, tira algumas fotos e conclui: “O que eu mais lamento em relação a Brasília hoje são as críticas que a gente vê dos políticos que não são de Brasília, mas que fazem as coisas que fazem aqui e isso mancha o nome da cidade. Quem é de Brasília prima pela legalidade, pelo amor ao próximo, por tudo o que tem de bom para se viver.”
Dona Maria sabe bem o que diz
Tem um detalhe. Um pequeno grande detalhe na história da capital do qual poucos lembram: as mulheres pioneiras. Na época da criação de Brasília, os homens erguiam a Esplanada dos Ministérios e elas cuidavam dos filhos. Não, elas não iam a bares. Não participavam das rodas de samba. Ficavam em um universo à parte. Algumas até hoje pouco conhecem as obras de Nieyemer.
“Fui uma vez só ver a Catedral. Faço as coisas mais por aqui no P. Sul. Ele é meu lugar preferido em Brasília”, afirma a dona de casa Maria da Silva e Cruz, 82 anos, mãe de nove filhos: todos criados em Brasília. “Meu marido queria vir antes. Eu disse: não, vou junto. Foi difícil quando a gente chegou. Uma lameira, coisa mais triste do mundo. Quando chovia, ficava aquele barro. Não tinha asfalto”, lembra.
Dona Maria fala baixo, calmamente. Mostra fotos antigas. Nenhuma delas tirada no Plano Piloto. “A gente não tinha o hábito de sair daqui. Quando eu morava na Metropolitana, ia à igreja de lá. Na época, era só barraco de tábua. Não tinha asfalto, nada. Foi logo quando a gente chegou, em 1961”.
Diferente de tantos outros candangos, dona Maria não tinha grandes sonhos. Dedicava-se ao lar com todo amor. Por isso, o que queria mesmo, revela, “era uma casa melhor”. “Minha vida não teria sido melhor lá no Nordeste”, conclui.
Curiosidades
A Sociedade Desportiva do Gama, um dos atuais times que representam os candangos nos campeonatos, surgiu em 1975. Na época, porém, o esporte que se destacava na cidade eram as corridas automobilísticas. O autódromo Nelson Piquet, inaugurado em 1974, era cenário recorrente das competições. No mesmo ano, o cinema estava em alta. E um dos principais recantos dos cinéfilos de Brasília era o Cine Drive-in, que depois do ano 2000, sofreu com o abandono e o mau uso de seu espaço. “Como começaram a abrir muitos complexos em Brasília, o público de lá foi migrando para outros lugares”, afirma a atual administradora do espaço Marta Fagundes. Ela trabalhou como recepcionista do local nos anos 70. Na época, lembra Marta, “a cidade tinha no máximo doze cinemas. Hoje, são mais de 60.” O Conjunto Nacional era inaugurado também em 1975. Suas 180 lojas eram motivo de comemoração para a cidade. Era um novo complexo de lazer nascendo em Brasília. O cruzeiro era a moeda da época. Com Cr$ 0,50 era possível comprar as edições diárias do Jornal de Brasília.