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Brasília

Mulheres se superam para dar conta da família, delas mesmas e ainda serem concurseiras

Arquivo Geral

16/10/2011 16h30

Mariana Rosa
mariana.rosa@jornaldebrasilia.com.br

 

Elas são mães, líderes de família, trabalham, sustentam os filhos, cuidam da casa e, quando sobra um tempo, lembram de si próprias. E tem mais. Agora, mais do que nunca, elas estudam. E estudam para ter nível superior e passar em um concurso público. Pensamento dominante do universo masculino, o desejo de ser independente financeiramente – o que acarreta a liberdade em outros sentidos – é prioridade para as novas mulheres.

 

O fato é que, com muita garra, elas conseguiram se superar. Hoje, o número de mulheres no serviço público é ascendente. Nos tribunais, o número já é maior. Elas compõem 55% do quadro de funcionários. O índice salta quando compara-se a diferença entre homens e mulheres nas salas dos cursinho preparatórios: 79% para elas, contra 21% para eles (veja gráficos).

 

A justificativa para o fato é, realmente, a revolução histórica vivida pela sociedade em todos os segmentos. “As mulheres, que conquistaram a independência financeira na Segunda Guerra Mundial, quando se lançaram no mercado de trabalho, não querem ter que depender de seus maridos. Os homens da geração Y e Z, por sua vez, começam a se acostumar com essa independência, e não querem esposas que não trabalham”, explica o diretor do Concurso Virtual, Marcelo Marques.
Em busca dessa independência, as mulheres encontraram no serviço público o seu porto seguro. E dele não pretendem sair. A funcionária pública Rosana Rodrigues, 41 anos, é um exemplo de muitas mulheres que, por algum motivo, pensaram em desistir de estudar, sem coragem de abdicar da vida familiar.

 

Rosana tinha dois filhos pequenos quando se matriculou pela primeira vez em um cursinho em 2006. Ela chegou a se classificar para o cargo de oficial de chancelaria (Ministério das Relações Internacionais), mas não foi convocada. Como costuma acontecer, Rosana desistiu.

 

Uma nova esperança

 

Nesse meio tempo, decidiu ter o terceiro filho. Nasceu a Isabela em 2007. Pessoas com esse nome têm a característica de ”ajudar na solução dos problemas das pessoas mais próximas”, segundo o site Significado.origem. Coincidência ou não, Rosana voltou para os estudos em 2009 e, em menos de dois anos depois, foi nomeada no Ministério Público da União.
“Eu deixava as crianças na escola à tarde e ia para o cursinho. Todo dia acordava uma hora mais cedo e dormia uma hora mais tarde para fazer exercícios”, conta. “Os filhos não me cobravam presença verbalmente, mas o comportamento deles mudava. Eles brigavam para chamar a atenção e eu tinha que parar os estudos para atendê-los”, lamenta Rosana.

 

Algumas pessoas dizem que palestras são bobagem, que não adiantam de nada. No caso de Rosana Rodrigues, foi justamente o fato de ter investido R$ 10 em uma palestra que mudou o seu jeito de pensar e lhe trouxe conforto. “O palestrante falou sobre as mães que se sentiam mal porque ficavam com os filhos e deixavam de estudar ou, que, quando estudavam, se sentiam mal de não estar com os filhos. Ele explicou que era para viver intensamente cada momento, e treinar o pensamento para não misturar as coisas. Depois dessas palavras fui outra pessoa”, afirma.

 

A funcionária pública conta que, felizmente, tinha o apoio do marido, Joel Rodrigues, e dos irmãos que a incentivaram a estudar. “Concurseiro também precisa de dinheiro para pagar o cursinho e comprar livro. A juda dos meus irmãos deixou a situação em casa mais leve”, pontua.

 

Rosana tomou posse no Ministério Público Federal ano passado e, hoje, trabalha no prédio da Procuradoria Geral da República. Por coincidência, ou não, um lugar onde ela sempre quis trabalhar.

 

Para todas as mulheres

O diretor pedagógico do curso preparatório Academia do Concurso, Paulo Estrella, explica que as sociedades patriarcais impuseram a submissão e a inexistência de direitos civis à mulher. “Em 2011, é gratificante ver o espaço que elas ocupam. Infelizmente, na iniciativa privada, o salário e a ascensão profissional feminina ainda não acompanham a dos homens”, comenta.

 

Por isso, o serviço público é o preferido das mulheres. Nele, o salário base pago a ambos os sexos é rigorosamente o mesmo. O ingresso à administração também é feito de uma única forma, por mei de concurso. E não há discriminação de gênero, raça ou opção sexual.

 

A professora de Direito Constitucional e diretora-executiva do Gran Cursos, Ivonete Granjeiro, é categórica ao afirmar: “No serviço público você não precisa ser bonita ou alta para começar a trabalhar. Você depende apenas de você e da sua capacidade de estudar”.

 

Entre os benefícios oferecidos pelo setor público às mulheres, especialmente os órgãos da União, está o direito a creche para filhos, licença maternidade de 180 dias, direito a parar uma hora no trabalho para amamentar, auxilio financeiro para cada filho, plano de saúde, horário fixo, entre outros.

 

Com a experiência adquirida em sala de aula, a professora Ivonete revela que as mulheres são muito mais organizadas que os homens, o que faz diferença na aprovação. “Dou aula de Direito na Universidade Católica de Brasília e 70% dos alunos são mulheres, e são as melhores alunas. Na Facon (Faculdade dos Concursos, curso preparatório para concurso de longa duração do Gran Cursos) o número de mulheres matriculadas é superior a 60%”, justifica.

 

Entre os órgãos da administração pública preferidos das mulheres estão os tribunais e alguns ministérios. Nos setores fiscais e áreas policiais, o domínio ainda é dos homens, com percentual de 70% para eles, contra 30% para elas.

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