A antiga Casa da Mulher Brasileira (CMB) da Asa Norte amanheceu no último sábado (14) bem mais movimentada do que o normal. Isso porque o local, que está abandonado há pelo menos 8 anos, foi ocupado por mulheres que, cansadas da crescente onda de violência e feminicídios, decidiram partir para a ação em prol de políticas públicas eficientes para combater esses problemas. O prédio abandonado então se tornou a ocupação Zilda Xavier Pereira, e as mulheres que a construíram estão determinadas a ficar lá até que sejam ouvidas.
O Jornal de Brasília foi até o local conversar com as mulheres que estão acampadas por lá desde a madrugada de sábado. Na 601 do Setor de Grandes Áreas Norte (SGAN), o prédio da CMB, que outrora abrigava mulheres vítimas de violência, agora corre risco de colapsar. No entanto, isso não foi um impedimento para as mulheres que ocuparam o local. Elas montaram barracas do lado de fora e cobram a reabertura do local.
A coordenadora do Movimento Olga Benário, Ruhama Pessoa, explicou ao JBr o motivo da ação. “Essa casa está abandonada desde 2018. Ela foi inaugurada em 2015 com o propósito de acolher mulheres em situação de violência, com um funcionamento de 24 horas para prestar todos os serviços necessários para uma mulher vítima de violência, mas sofreu um abandono, uma precarização. Foi inaugurada em 2015, e em 2018 já foi fechada porque alegaram problemas estruturais. Oito anos depois, segue o descaso, segue essa falta de atenção com a vida das mulheres”, contou.
A Casa da Mulher Brasileira foi instituída no país pelo Decreto nº 8.086, de agosto de 2013, como uma das ações do programa do governo federal Mulher, Viver sem Violência. A Secretaria da Mulher do Distrito Federal (SMDF) informou em nota que a CMB da Asa Norte foi interditada pela Defesa Civil em 2018, após a identificação de problemas estruturais no prédio. Após a interdição, o imóvel foi devolvido ao Ministério das Mulheres, responsável pela obra e pela estrutura do equipamento. A pasta também destacou que o GDF trabalha para ampliar essa rede, tendo prevista a construção de uma nova unidade da Casa da Mulher Brasileira na Asa Sul, ao lado do Parque da Cidade.
Ruhama argumentou que é preciso mais empenho em colocar em prática políticas públicas que protejam a vida das mulheres. “A gente ocupou esse imóvel para trazer essa visibilidade, essa denúncia. Porque a realidade de hoje no DF é muito cruel. Só no ano passado, foram mais de 28 mulheres que foram vítimas de feminicídio, a quantidade de estupros e estupros de vulnerável, foram mais de mil casos”, ressaltou. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF), aconteceram 29 casos de feminicídio na capital no ano passado. O número representa um aumento em relação a 2024, que teve 22 ocorrências. Além disso, a quantidade de casos de violência doméstica também cresceu: foram 21.721 no ano retrasado e 23.066 em 2025.
Serviços às mulheres
A Casa da Mulher Brasileira é um equipamento público que tem o objetivo de humanizar e integrar diversos serviços de atendimento às mulheres vítimas de violência. Segundo a Secretaria da Mulher, o atendimento da CMB funciona em Ceilândia, com atendimento 24 horas, apoio psicossocial, atendimento da Defensoria Pública e alojamento de passagem para mulheres em situação de violência. Ruhama enfatizou que o serviço não é suficiente e não consegue suprir a demanda.
Além disso, o DF conta atualmente com quatro Centros de Referência da Mulher Brasileira: no Recanto das Emas, em São Sebastião, no Sol Nascente e em Sobradinho II. Conforme detalhou a pasta, o projeto da nova CMB em Brasília já conta com orçamento definido e passa pelo processo de licitação. “A gente defende a reabertura da Casa da Mulher Brasileira nos moldes adequados, ou seja, em um prédio que comporte todos os serviços. Os que eram feitos aqui foram transferidos para uma casa lá na Ceilândia, para um espaço que não tem condições de prestar todos esses serviços”, pontuou Ruhama
Importância de casas de acolhimento
A coordenadora também falou da importância de centros que acolhem as mulheres vítimas de violência. “É essencial porque quando a gente vê os dados, a maioria da violência, a maioria dos feminicídios ocorre dentro de casa, feita pelos seus companheiros, maridos, irmãos. Então, essa mulher ter para onde ir é muito importante. Aqui, por exemplo, um dos serviços que era ofertado era o abrigamento, ou seja, um lugar para a mulher poder ser acolhida, poder ser abrigada e sair dessa situação de violência”, explicou.
Ela ainda destacou que o movimento do qual faz parte, o Olga Benário, também se propõe a construir esses espaços de acolhimento de forma totalmente coletiva. “A gente tem a Casa Ieda Santos Delgado, que oferece serviços assistenciais, psicológicos, jurídicos, mas para além disso, a gente faz um papel, um trabalho de exigir que o Estado também cumpra com suas obrigações”, completou Ruhama.
O Jornal de Brasília procurou o Ministério das Mulheres para maiores esclarecimentos sobre a situação da Casa da Mulher Brasileira da Asa Norte, mas não obteve retorno até o fechamento da edição.