Brasília

Mulheres, heroínas da vida real

Diante da pandemia, na linha de frente, elas fazem a diferença na vida dos que lutam contra a morte

Foto: Vitor Mendonça/ Jornal de Brasília

Vitor Mendonça
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Enfermeiras, médicas, mães, assistentes sociais, pesquisadoras. Durante a pandemia da covid-19, as mulheres do Distrito Federal, Brasil e mundo assumiram muitos cargos essenciais. Um dos mais cruciais desde o início e até o presente momento da doença é o desempenhado na linha de frente, em contato direto com o novo coronavírus por profissionais de saúde

A primeira vacinada contra a covid-19 no DF, Lídia Rodrigues Marques, 31 anos, que trabalha no box de emergência do pronto-socorro do Hospital Regional da Asa Norte, é uma das mulheres que têm combatido o vírus de perto na capital. Todos os dias, as grandes e graves demandas colocam a equipe em níveis de estresse extremos. O problema, segundo a enfermeira, é que, “mesmo fora do hospital, não se consegue tirar a cabeça do hospital”.

“Ficamos em contato com alguns familiares de pacientes e em clima de plantão o tempo todo”, relatou. “Parece que não acaba nunca.” O novo ritmo de trabalho modificou a intensidade do serviço que prestam. A profissão, segundo ela, é, em grande parte, composta por mulheres. “Somos maioria. No Hran, são poucos homens, então estamos à frente de muita coisa”, afirmou.

“Ser a primeira vacinada do DF e ser mulher significa muito para mim. Dos cinco primeiros vacinados no início da campanha, aliás, éramos quatro mulheres e apenas um homem [que faz parte da equipe de segurança do hospital]. As mulheres merecem reconhecimento mesmo”, opinou. De acordo com a Secretaria de Saúde, a rede de saúde conta com 2.832 médicas, 3.146 enfermeiras e 8.991 técnicas em enfermagem em seu quadro efetivo.

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“A quantidade de pacientes pode até ter diminuído para nós, mas a gravidade aumentou muito, além do peso do trabalho. Trabalhamos com o medo de sermos contaminados, vendo muito jovens entubados, passando mal, vendo colegas de trabalho internados. O peso aumentou muito, muito, muito, sem comparação. Estamos mentalmente esgotados”, relatou.

A demanda das últimas duas semanas aumentou consideravelmente. “O volume da demanda está ainda maior que o que tínhamos no pronto socorro no primeiro pico. Principalmente, o peso mental no trabalho, de estar o tempo inteiro com medo”, disse.

Sobrecarga física e mental

Para a especialista e professora do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília, Tânia Fontenele, as mulheres já eram muito sobrecarregadas antes da pandemia, muitas vezes com uma tripla jornada de trabalho, isto é, cuidando da casa, dos filhos e do trabalho. “Mesmo aquelas que não são mães solteiras ou não têm filhos, em geral, as obrigações do lar e da administração da casa ainda são muito atribuídas às mulheres”, afirmou.

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“Não podemos generalizar, é claro. Muitas famílias têm uma divisão de trabalho um pouco mais razoável, mas há indícios de que as mulheres trabalham muito mais do que os homens dentro de casa, mesmo sendo tão ocupadas quanto eles”, especificou. “E medo aumenta porque estão todos com receio da morte, sobretudo no Brasil, com as taxas alarmantes de mortalidade [pela covid-19], e boa parte por falta de políticas públicas e governamentais. É um luto coletivo.”






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