João Paulo Mariano
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Uma mulher foi indiciada por abandono de incapaz após deixar os dois filhos, um menino de dois anos e uma menina de seis, sozinhos durante um dia inteiro. Segundo o Conselho Tutelar, o caso em Ceilândia é um dos muitos que ocorrem pela cidade e chegam pelo Disque 100 – número para denúncias de maus-tratos.
O conselho foi acionado por volta das 9h de ontem. Por telefone, o informante anônimo falou que as crianças passaram a madrugada chorando. Ao chegar ao local, a conselheira tutelar Solange Eterna de Almeida precisou de ajuda da Polícia Militar e do proprietário do terreno em que a família mora de aluguel para arrombar a porta.
“Quando entramos, a menina falou: ‘Minha mãe está trabalhando e vai voltar daqui a pouco. Eu não posso sair. Ela chega cansada e eu preciso deixar tudo arrumado’. A garota que deu banho no irmão e o colocou para dormir. Ela disse que o cobriu com um cobertor”, relata a conselheira, ao perceber que a menina tem a responsabilidade de um adulto.
As crianças passaram o dia todo no Conselho, correndo de um lado para outro e brincando com quem passava. Elas nem desconfiavam do risco que corriam sem a presença da mãe, única pessoa que zela delas e as sustenta. Não há contato com o pai e parentes moram em outro estado.
Penúria
A conselheira tutelar afirma que a situação na casa é de penúria. No local de três cômodos, alugado por R$ 600 no Sol Nascente, há apenas uma cama de solteiro, poucos móveis e uma geladeira – que tinha um iogurte, uma fruta e um pedaço de bolo. Os meninos estariam sozinhos por mais de 24 horas, desde a manhã do domingo.
O JBr. conversou com a mãe das crianças quando ela foi buscá-las no Conselho Tutelar, no fim da tarde de ontem. Ela garantiu que tinha deixado uma pessoa responsável pelos filhos, para quem paga cerca de R$ 300 mensais. Porém, não soube explicar o motivo da ausência da babá.

Mulher buscou os filhos no Conselho Tutelar. Foto: Kléber Lima
A mulher afirmou que trabalha em Ceilândia e que não é sempre que deixa os meninos sozinhos. Também assegurou que eles não são maltratados e que tinha comida para eles. Ela “fez o que fez pela necessidade”. Com o aluguel atrasado e o medo de ser despejada, preferiu sair para trabalhar.
À reportagem, a mãe disse apenas que trabalha à noite. Para o Conselho Tutelar, afirmou ser degustadora de bebidas na Feira do Setor O. Ela estaria incumbida de fazer com que os clientes comprassem mais e ganharia R$ 90 com isso. Já à Polícia Civil, ela disse que é manicure e que não voltou para casa pois tinha trabalho acumulado.
Famílias vivem impasse
A conselheira tutelar Solange Eterna salienta que denúncias como essa são recebidas com frequência pelos integrantes da instituição. Porém, são apenas uma parte da realidade da área. Quase todo dia chega um caso novo. “Falta assistência governamental e do companheiro. É comum a mãe ficar sozinha cuidando dessas crianças”, destaca.
As pessoas até estariam bem informadas sobre a proibição de deixar crianças e adolescentes sozinhos, mas a necessidade e “um pouco de negligência” fazem com que existam tantos casos. Ela explica que, diferentemente do caso do Sol Nascente, é recorrente os responsáveis deixarem os menores sozinhos para ir a alguma festa do que para trabalhar.
O caso foi registrado na 19ª DP, de Ceilândia Norte, para averiguação das versões apresentadas pela mãe e para responsabilizá-la pelo ocorrido. Segundo o delegado-chefe da unidade, Fernando Fernandes, a mulher foi indiciada por abandono de incapaz e responderá ao processo em liberdade, podendo receber uma pena de um a três anos de reclusão.
Ele explica que a frequência desses casos se deve a alguns fatores: “Há um bolsão de pobreza, falta de estrutura familiar e a necessidade de sustentar os filhos”.
Saiba mais
Segundo o Conselho Tutelar, é proibido deixar um menor de 14 anos em casa sem um responsável. Depois dessa idade, é mais fácil que o adolescente saiba cuidar melhor de si. Entretanto, o ambiente não pode oferecer riscos.
A participação de vizinhos é importante na apuração dessas denúncias. Se houver desconfiança de maus-tratos, tanto do Disque 100 quanto o 197, da Polícia Civil, recebem as informações. O anonimato é garantido.
No início deste mês, a PMDF também socorreu dois adolescentes, um de 13 e um de 16, e uma criança de três anos que só tinham mingau e arroz para comer. Eles estavam sozinhos há três dias.