Menu
Brasília

Mudanças para o entorno do DF se tornam comuns pelo alto custo de vida na capital

Moradores do DF buscam em municípios goianos serviços e moradias mais acessíveis

Redação Jornal de Brasília

22/07/2025 18h22

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Por: Vítor Ventura

Bruno Bucis, jornalista de 32 anos, morava em um apartamento de 29m² alugado na Asa Norte junto com o marido. O local, apesar de bem localizado, era muito pequeno para duas pessoas, portanto os dois decidiram buscar pela casa própria. Procuraram muito pelo Gama e por Sobradinho, mas as residências em sua maioria precisariam de grandes reformas e não entravam no orçamento. Foi assim que os dois perceberam uma opção que seria muito mais rentável: morar no entorno, mais especificamente em Valparaíso de Goiás.

Casos como o de Bruno têm se tornado cada vez mais comuns entre moradores do Distrito Federal. Uma pesquisa divulgada pelo ObservaDF, da Universidade de Brasília (UnB), a qual analisa dados do Censo de 2022 coletados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que entre 2010 e 2022 houve um saldo migratório negativo. Isso significa que, no período, a quantidade de pessoas que deixaram de morar no DF é maior do que a de pessoas que se mudaram para a região. De acordo com Bruno, além das casas em Valparaíso saírem mais baratas, a localidade também não deixava a desejar. “O custo de vida em geral aqui é muito menor, passamos a economizar com academia, educação e mercado. Tudo acabou ficando mais barato”, conta.

A pesquisa do ObservaDF expõe que, entre 2017 e 2022, o saldo migratório foi negativo de 91 mil pessoas, mostrando uma maior emigração do DF nos últimos anos. O professor do Departamento de Ciências Humanas da Universidade de Brasília (UnB), Fernando Sobrinho, explica que isso não significa perda populacional no período analisado, mas sim que o fluxo de pessoas que saíram foi maior se comparado aos anos anteriores. “O DF não perdeu população, houve uma diminuição da migração para a região porque essa população que vinha diretamente para o DF vai buscar, agora, a moradia nas cidades do entorno”, afirma.

Segundo o professor, para entender essa nova tendência é necessário observar Brasília como uma região metropolitana que extrapola os limites do DF. Sobrinho ressalta como a região do entorno passa a ter um crescimento considerável nessa equação. Composta por onze municípios, a Região Metropolitana do Entorno do Distrito Federal foi reconhecida pelo IBGE em 2023. Nela estão Valparaíso de Goiás, Águas Lindas de Goiás, Cidade Ocidental, Luziânia, Cristalina, Novo Gama, Padre Bernardo, Planaltina de Goiás, Santo Antônio do Descoberto, Formosa e Cocalzinho de Goiás.

Sobrinho destaca que existem três fatores principais que podem explicar a mudança de moradores. “O primeiro é que o perfil do migrante é um perfil de classe média, média baixa, ou baixa renda. Então, dentro do DF, essa população tem um custo de vida muito alto. A pessoa precisa ter um custo de vida menor, porque a renda dela é menor. Então, ela busca os municípios do entorno goiano, onde esse custo de vida é mais baixo”, conta. O segundo elemento, conforme diz o professor, diz respeito aos programas habitacionais, como o Minha Casa Minha Vida. Esses programas fazem sucesso, em especial, nos municípios de Valparaíso, Novo Gama, Cidade Ocidental e Luziânia. “A terceira questão é o próprio dinamismo dessas cidades, e especificamente as cidades como o caso de Luziânia, que tem uma questão também do agronegócio, mas principalmente os serviços”, diz Sobrinho.

Custo alto

Perguntado sobre a possibilidade de retornar ao DF, Bruno revela que não pensa na possibilidade. “Os custos são muito elevados e com a minha casa financiada aqui, acho que ficarei por mais uns anos na região”, afirma o jornalista. O professor Sobrinho ressalta que essa é uma tendência também, sobretudo pelo custo de vida. “O DF tem uma concentração de renda absurda, e uma população de alta e média renda muito expressiva. Então o custo de vida é muito alto tanto na alimentação, quanto na moradia. É muito caro comprar, legalmente, um imóvel”, explica. Dessa forma, o professor afirma que o custo de vida alto contribui para que as pessoas de classe média e baixa busquem outras opções no entorno.

Diego Meira, servidor público de 38 anos, também fez a mudança para Valparaíso. Ex-morador do Guará, ele conta que há três anos atrás saiu do DF para conseguir a casa própria em Goiás. “Morava de aluguel no Guará, como no entorno os preços de imóveis são mais em conta, optei pelo entorno”, explica. Diego também não vê, pelo menos em um futuro próximo, a volta para o DF. “Além do valor do imóvel ser mais em conta, o motivo principal foi a distância até o meu trabalho, sendo mais perto que Ceilândia e Samambaia, por exemplo”, conclui.

Outra ex-moradora do DF é Janaina Lagasse, psicóloga de 28 anos. Ela saiu de Brazlândia para morar em Águas Lindas junto com a namorada e, assim como nos casos anteriores, viu também no entorno um custo de vida mais acessível. “Eu mudei para cá em 2021 principalmente pelo custo de vida. A gente conseguiu financiar um apartamento próprio, e seria muito mais difícil fazer isso no DF sem comprometer a renda total”, conta Janaina. A psicóloga coloca em conta também os preços menores de alguns serviços, como mercado. Ela observa ainda que, em comparação com Brazlândia, os aluguéis em Águas Lindas são bem mais acessíveis.

Trânsito ainda é o maior problema

Apesar do custo de vida mais baixo no entorno, a questão da mobilidade ainda é um problema enfrentado pelos moradores da região. Janaina conta que o motivo que a faz pensar em voltar para o DF,é o trânsito. “O trânsito é muito pesado na hora que eu saio de manhã, e quando eu volto também pego engarrafamento”. Mesmo assim, a psicóloga já considera que a qualidade de vida em Águas Lindas é superior à de Brazlândia. Já em Valparaíso, Diego e Bruno também consideram a mobilidade como o mais estressante da moradia no entorno: “no horário de retorno para casa, o trânsito sempre é mais caótico”, relata o servidor.

Ainda assim, o professor Sobrinho reforça que esse problema não está restrito aos municípios goianos. “A questão da mobilidade é problemática não apenas no entorno, ela é problemática dentro do DF. Uma pessoa que mora no Sol Nascente, na Ceilândia, em Brazlândia, ou em Planaltina sofre os mesmos problemas que uma pessoa que mora no entorno”, enfatiza. O professor considera, dessa forma, que esse é um obstáculo da região metropolitana de Brasília inteira. “Então de certa forma, eu acho que essa questão da mobilidade é um desafio a ser enfrentado no âmbito dessa região integrada de desenvolvimento do entorno. Isso vai envolver a União, o DF, o Estado de Goiás, o Estado de Minas Gerais e os municípios dessa área metropolitana”, reforça.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado