Por Amanda Karolyne
Foi inaugurada em Brasília, a biofábrica de Wolbachia, uma iniciativa que visa reduzir casos de dengue, Zika e Chikungunya no Distrito Federal e nos municípios de Valparaíso de Goiás (GO) e Luziânia (GO). Segundo a Secretaria de Saúde do DF (SESDF), esse laboratório do mosquito Wolbito, tem o ciclo de produção semelhante ao de uma fábrica tradicional: a matéria-prima chega, é transformada, embalada e distribuída. A diferença está no produto final, que será um aliado no enfrentamento da dengue e de outras arboviroses. Ainda nessa terça-feira, a pasta também deu início ao processo de soltura dos mosquitos antidengue chamados wolbitos.
Nessa primeira ação, segundo o Subsecretário de Vigilância à Saúde da Secretaria de Saúde do DF, Fabiano do Anjos, foram soltos aproximadamente 6 milhões mosquitos para 6 dias da semana, em 10 regiões administrativas do Distrito Federal – Planaltina, Brazlândia, Sobradinho II, São Sebastião, Fercal, Estrutural, Varjão, Arapoanga, Paranoá e Itapoã, e em mais dois municípios do entorno, Luziânia e Valparaíso de Goiás. Ainda de acordo com Fabiano, em média, mais de 758.165 pessoas serão impactadas diretamente nesses três municípios. E em Brasília, cerca de 565.808 pessoas serão impactadas diretamente. Essas cidades foram selecionadas por apresentarem historicamente maior vulnerabilidade para ocorrência de casos de dengue.
Ele afirmou que a proposta inicial dessa primeira etapa, de acordo com o termo de cooperação que foi assinado em conjunto pelo Ministério da Saúde, pela Secretaria de Saúde e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), previa inicialmente a soltura desses mosquitos por seis meses. “Semanalmente serão produzidos 19.440 potes. E cada pote vai conter cerca de 300 a 560 mosquitos, o que dá um total de cerca de 600 milhões de mosquitos semanalmente produzidos”, frisou.
A inauguração da biofábrica
A biofábrica inaugurada nessa terça-feira, fica localizada entre o Guará e o CIA, no Setor de Cargas. Segundo a pasta de saúde do DF, o Núcleo Regional de Produção Oswaldo Paulo Forattini – Método Wolbachia, contou com o investimento de R$ 400 mil do Governo do Distrito Federal (GDF), em mais uma ação para reduzir as taxas de transmissão dessas doenças na população.
De acordo com Fabiano, a inauguração do Núcleo vai permitir a produção dos mosquitos Aedes aegypti com a introdução da bactéria Wolbachia. “Recebemos no DF, os ovos que são produzidos na biofábrica do Paraná. Eles vieram em cápsulas e nós vamos fazer a produção dos mosquitos, fazendo um processo de eclosão desses ovos”, comentou. Ele explicou ainda, que esse é um marco histórico para a saúde pública do DF. “A cooperação entre o Ministério da Saúde, a Fiocruz, o Governo do Distrito Federal e a Wolbito do Brasil, dá essa autonomia para que o Distrito Federal possa ampliar a estratégia de controle de arboviroses”, pontuou.
Ainda segundo Fabiano, todo o processo de evolução desse ovo, desde a fase aquática até a fase do mosquito adulto, vai ser feito na biofábrica do Guará, no núcleo de controle químico e biológico da Secretaria de Saúde.
O Ministério da Saúde investiu R$ 9,7 milhões na ação, que integra a Estratégia Nacional de Enfrentamento das Arboviroses no Brasil. Segundo o MS, a tecnologia é recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e já integra as políticas públicas de saúde do Brasil, com autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Estiveram presentes na ocasião, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, acompanhado pela secretária de vigilância em Saúde e Ambiente, Mariângela Simão,e pela vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde (VPPIS/Fiocruz), Priscila Ferraz. Segundo Priscila, em 2024, o DF foi uma das Unidades Federativas com maior número de casos e óbitos por dengue no país. “A chegada do Método Wolbachia na localidade e em seu entorno representa um avanço significativo nas ações do Sistema Único de Saúde (SUS) e no combate às arboviroses nesta região, sendo uma estratégia complementar do MS e da Fiocruz às atividades já desenvolvidas pelos governos locais nos municípios”, afirmou.
A governadora em exercício, Celina Leão, também esteve presente no lançamento da biofábrica e declarou que o GDF já conta com 22 equipes nas ruas que iniciaram as liberações dos primeiros mosquitos na terça-feira. “Há uma metodologia específica para a implementação, o que representa uma nova medida de prevenção. Ampliamos a capacidade operacional, com a contratação de mais pessoal e a adoção de novas tecnologias, e inauguramos uma fábrica do Governo do Distrito Federal. A população do DF será a principal beneficiada. O nosso objetivo é um Distrito Federal livre da dengue”, completou.
O método Wolbachia
Fabiano explicou que a Wolbachia é uma bactéria natural, que está presente em 50% dos insetos. “Um exemplo muito claro da presença dessa bactéria é aquela mosca que observamos na banana quando a gente compra essa fruta. Ao colocá-la na fruteira, surgem aquelas moscas em volta e elas têm naturalmente, no seu organismo, a presença dessa bactéria”, citou.
A metodologia foi desenvolvida por meio da investigação de cientistas australianos, que descobriram que ao inocular essa bactéria no mosquito Aedes Aegypti, ele automaticamente fica impossibilitado de reproduzir o vírus transmissor da dengue, zika e chikungunya. Através da parceria entre os órgãos de Saúde, essa tecnologia começou a ser aplicada no Distrito Federal, com o objetivo de fazer a substituição dos mosquitos que já estão no ambiente. “Os mosquitos que a Secretaria de Saúde vai soltar, vão encontrar com os outros que estão causando essas doenças e farão o acasalamento natural. Os ovos que surgirão, já estarão com a presença da bactéria naturalmente no seu organismo”, disse.
Os mosquitos antidengue são chamados de Wolbitos. Fabiano garante que eles não vão causar doenças na população. Ele ressaltou ainda que esse é um método natural autossustentável, que não causa dano nem para as pessoas, nem para o meio ambiente e para os animais. “Essa bactéria, quando está presente no Aedes Aegypti, impede a multiplicação do vírus da dengue, da zica e da chikungunya dentro do mosquito e torna esse mosquito incapaz de transmitir essas doenças”, reforçou.
Para ele, vale ainda destacar que essa parceria entre os órgãos de saúde está cirando uma estratégia inovadora em relação às formas tradicionais de combate ao mosquito da dengue e outros vírus. “Porque esse método não depende de todas aquelas formas tradicionais de combater com inseticida, do carro de UV, que as pessoas sempre pedem”, acrescentou.
Saiba mais:
Cuidados de prevenção devem continuar
Segundo o Ministério de Saúde, para ampliar a eficácia da estratégia, é essencial que a população mantenha os cuidados tradicionais contra o Aedes aegypti. Entre eles, evitar o acúmulo de água parada, em conjunto com as ações dos Agentes de Combate às Endemias.
Cenário epidemiológico
A ampliação da estratégia no Distrito Federal e em Goiás representa um avanço significativo para a população das três localidades, que enfrentaram alta transmissão de dengue nos últimos anos. Somente neste ano, segundo o MS, o Distrito Federal registrou 8.592 casos prováveis da doença, com um óbito confirmado. No mesmo período, Goiás contabilizou 90.990 casos prováveis e 70 óbitos.