Uma suposta negligência resultou no sofrimento de uma família. Um garoto de 13 anos foi encontrado morto eletrocutado em um terreno no Conjunto 14 da Quadra 305 de São Sebastião. O menino havia desaparecido na tarde de sexta-feira enquanto soltava pipa. Segundo moradores, o fio de alta tensão que pode ter matado a criança estava caído há pelo menos três meses. A população diz ter procurado a Companhia Energética de Brasília (CEB), mas a empresa garante que não recebeu chamado sobre o caso.
Luan Conceição Bezerra era considerado um menino alegre e bom, tanto pelos pais quanto pelos vizinhos. Ele costumava vigiar carros e ajudar motoristas no posto de combustível perto de casa. Assim, ganhava alguns trocados e dava à mãe para complementar a renda.

“Ele era um menino bom. Só dava o trabalho normal que uma criança da idade dele dá. Ele gostava muito de correr atrás de pipas”, conta, abatido, o padrasto do garoto, Anivan Ventura da Silva, 49 anos, que trabalha como gari.
Na tarde de sexta, Luan, que cursava o 1º ano do Ensino Médio e estava de férias, saiu para soltar pipa e não voltou. Preocupada, a mãe do menino e outros amigos dele foram procurá-lo no posto onde ele sempre ficava, mas por lá ninguém o tinha visto também.
Ontem pela manhã, o filho pequeno de uma vizinha afirmou que Luan havia tomado um choque. O tio do garoto resolveu procurar no terreno próximo, onde as crianças costumam soltar pipa e próximo aos fios da rede de alta tensão que estavam caídos. Segundo testemunhas, quando o familiar chegou ao local, o corpo carbonizado pela descarga elétrica já estava em decomposição e urubus o rondavam.
O segurança Wanderval Batista da Silva, 45 anos, considera que houve negligência da CEB. “Eu liguei e eles disseram que viriam arrumar, mas nunca apareceram. O que aconteceu aqui mostra o descaso do poder público”, revolta-se o morador, que completa: “E a família, como fica nisso tudo? A CEB tem que ser responsabilizada”.
Horas depois de encontrado o corpo, moradores que conheciam Luan desde pequeno chegavam ao local inconformados. “Ele vivia na minha casa. Até um remédio que o Luan precisava era eu quem ajudava a comprar”, lamentou uma vizinha.
Previsão
Colega de serviço da mãe de Luan, o gari Antônio Benedito Alves, 52 anos, conta que há três semanas havia passado próximo ao fio que estava no chão e previu o que poderia acontecer às crianças. “Cheguei a comentar com meu colega: ‘Esse fio vai matar alguém’. O pior foi que ele acabou matando o filho de uma amiga da gente”, declara o gari, que indigna-se: “Ninguém liga para a gente. Nós também pagamos impostos, por isso, se precisar, vamos processar a CEB”, garante.
Além de Luan, a mãe dele tem outros dois filhos.
Versão Oficial
Em nota, a CEB informa que, em relação ao corpo do adolescente encontrado próximo à uma rede de distribuição de energia em São Sebastião, vai aguardar resultado da perícia para poder se pronunciar sobre o caso.
Já sobre a acusação de moradores da região sobre a demora nos reparos da fiação que matou Luan, por telefone, a assessoria da CEB afirmou que entre seis mil chamados recebidos, casos de cabos de energia partidos são prioridades e que se trata de uma norma.
A assessoria informou que a CEB não foi acionada nesses três meses e que não há nos registros da empresa chamados sobre o problema no local do acidente.
Perigo vai além na Estrutural
Nas férias, é comum encontrar crianças por todo o DF soltando pipas, inclusive próximo à rede elétrica. Na Estrutural, esse problema se soma a outro: as gambiarras, encontravas principalmente nas áreas ainda não legalizadas, como na Chácara Santa Luzia. Há três dias sem energia, moradores do local puxam eletricidade da rede de distribuição da CEB.
Lindomar Pereira da Silva trabalha como carroceiro, mas, sem eletricidade em sua residência, há três dias se arrisca como eletricista, puxando energia da rede pública. “As carnes das nossas casas já estão todas estragadas”, conta o rapaz.
Regularização
Segundo ele, o poste de onde a comunidade puxa energia está com fusíveis queimados e a CEB não apareceu para resolver o problema, mas admite que as ligações são irregulares. “O governo deveria regularizar essa situação, tanto da rede elétrica quanto da água que nós também puxamos. Eles devem perder muito dinheiro com nossos ‘gatos’. Se regularizassem nossa situação, pagaríamos a energia”, diz.
Questionado sobre o risco de choque, ele responde, bem humorado: “Não tem jeito, choque a gente sempre toma”.
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