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Brasília

Moradores e turistas reclamam da falta de banheiros públicos no DF

Arquivo Geral

27/03/2016 7h00

Manuela Rolim

manuela.rolim@jornaldebrasilia.com.br

Parece básico haver banheiros, com boas condições de uso, em ambientes públicos. Mas só parece. No DF, encontrar um sanitário na rua é um privilégio para poucos. Se estiver com a estrutura intacta, é quase um luxo. A realidade é que, na maioria das vezes, faltam portas, pias e papel higiênico, mas sobram vasos estragados, espelhos quebrados, lixo e mau cheiro, que parece já estar impregnado no interior.

No Setor Comercial Sul, por exemplo, um banheiro, com estrutura semelhante ao de um químico, está disponível ao lado de um posto da Polícia Militar. O local, no entanto, é quase um enfeite, sem utilidade no meio da praça. Não é raro ver alguém desistindo de entrar por causa da sujeira.

Para os comerciantes da região, atualmente, a única utilidade do banheiro é abrigar usuários de drogas. Segundo Maria do Socorro, 37 anos, que trabalha em um restaurante próximo, o problema é antigo e sem previsão de solução. “Eu tenho sorte de ter o banheiro do meu emprego para usar”, afirmou. 

Amiga dos funcionários de uma das bancas, a caixa disse que eles também utilizam o restaurante. “A gente deixa eles usarem, pois são conhecidos. Agora, quando todo mundo pede, vira um problema. Isso é um gasto a mais de papel e limpeza para o restaurante”, completou. 

Segundo ela, as reclamações são constantes. “Muitos idosos e crianças ficam sem saber o que fazer. Ninguém tem coragem de entrar. Quando a porta é aberta, o cheiro chega longe”, declarou Maria do Socorro. 

No Setor Bancário Sul, a situação do sanitário é melhor graças à dedicação do comerciante Antônio Vieira, 48 anos. Conhecido pelos clientes como Val, o vendedor de churrasquinho se viu obrigado a cuidar do espaço.

“À noite, eu tranco a porta. Eu mesmo que mandei fazer a chave. Se eu não fizer isso, moradores de rua e usuários de drogas invadem e estragam tudo. Já colocaram fogo uma vez. Além disso, toda semana, tiro do meu bolso e pago uma pessoa para limpar. Até a luz que está lá fui eu que coloquei”, concluiu.

Orla e Esplanada causam vergonha

Na orla da Ponte JK, a estrutura precária também é lembrada, em especial, pelos turistas. Para os irmãos Artur Vinícius Oliveira, 25 anos, agente patrimonial, e Aline Monise Oliveira, 21, estudante, falta o básico no local. 

“Esse lugar é lindo, tem potencial para crescer como ponto turístico de Brasília, mas o fato de não ter um banheiro afasta o público. As pessoas precisam de estrutura para permanecer em determinado lugar”, afirmou Aline, que mora na Bahia, mas estava na capital pela primeira vez para visitar o irmão. 

Artur lembrou que há bares e restaurantes nas proximidades, mas isso não resolve. Segundo ele, não é sempre que os estabelecimentos liberam os banheiros. “De fato, eles (banheiros) são destinados aos clientes. Quando venho passear aqui, sei que não posso demorar”, lamentou. 

A mesma opinião tem a policial militar Katilene Abreu, 35 anos, que levou os filhos Nikolas, cinco, e Pietro, sete, para brincar no local. Ela ressaltou que, para as famílias com crianças, a falta de estrutura é ainda pior. “É complicado. As crianças não conseguem segurar. Não ter um banheiro público em plena capital federal é vergonhoso. Não adianta ter estrutura e deixar largada”, lembrou. 

Na Esplanada dos Ministérios, não é diferente. O eletricista Luis Sérgio Ferreira, 33 anos, levou a família da esposa, Anne Kethelen, 24, para conhecer Brasília: “Os tios da minha mulher moram em Santa Catarina e vieram nos visitar. Eles ficaram impressionados com a ausência de banheiros perto da Catedral. Por sorte, hoje, estamos de passagem para o aeroporto. É triste e decepcionante para um turista”. 

Versão oficial

Procurada pelo Jornal de Brasília, a comunicação do Governo do Distrito Federal respondeu que os banheiros da Praça do Relógio e do Taguaparque, em Taguatinga, são de responsabilidade da empresa terceirizada Real JG Serviços Gerais, a mesma que cuida da limpeza na Administração Regional de Taguatinga. “A Administração também é responsável pelo banheiro ao lado do cemitério. Já o banheiro da CNF é de responsabilidade da Associação de Veteranos de Taguatinga”, afirmou o governo, por meio da assessoria. 

Por fim, a Administração de Taguatinga completou que a manutenção do banheiro da Praça do Relógio é feita periodicamente e que colocou, exclusivamente, uma pessoa da empresa terceirizada para cuidar do local e das instalações físicas.

Fora do Plano, a situação é a mesma

Longe do Plano Piloto, a realidade é a mesma. A precariedade dos banheiros públicos, os poucos que ainda existem, é motivo de reclamação constante.  Na Praça do Relógio, em Taguatinga, por exemplo, o único sanitário não está em condições de uso. No feminino, não há porta, tampa nos vasos, papel higiênico ou pia para lavar as mãos. Além disso, o piso está quebrado. No masculino, o mau cheiro pode ser sentido do lado de fora. 

Segundo os funcionários de uma empresa particular que cuidam do local, a limpeza é feita com frequência. “O problema é que ninguém respeita. Temos que tirar o papel higiênico para não roubarem, deixamos guardado e damos para quem nos pede”, afirmou um dos responsáveis pelo serviço. No ponto de táxi, os motoristas comemoram o fato de não precisarem usar o banheiro. “Ainda bem que temos o nosso”, comentou um deles.

Para quem não tem a mesma sorte, a opção é encarar o banheiro público ou segurar até encontrar o mais próximo. Foi o que aconteceu com o assistente administrativo Antônio Francisco da Silva, 47 anos, antes de ir para a universidade, que fica perto da Praça do Relógio. “Normalmente, eu deixo para ir na faculdade, mas, como estava apertado, tentei ir ao público. Cheguei até a porta e não aguentei entrar. A sujeira e o mau cheiro eram insuportáveis”, completou.

Situação dos banheiros públicos, segundo o GDF

1 – No âmbito da Secretaria de Gestão do Território e Habitação (Segeth), há cinco banheiros públicos. Dois estão localizados no Setor Comercial Sul, um próximo ao Hospital Regional da Asa Norte (Hran), um no Setor Bancário Sul e o último no Calçadão da Asa Norte, no final da L2 Norte. Eles foram construídos como contrapartida de uma licitação vencida pela empresa Cemusa em 2002, responsável pela manutenção.

2 – Na Torre de TV, estão disponíveis três banheiros, sendo um feminino, um masculino e um exclusivo para deficientes. Segundo a Secretaria de Esporte, Lazer e Turismo, todos estão em condições de uso, e a limpeza é feita diariamente por funcionários terceirizados. Não há previsão de reforma dos banheiros.

3 – No Parque da Cidade, são 16 estações com três banheiros – feminino, masculino e para pessoas com deficiência – cada. O vestiário e o Parque Ana Lídia também têm mais três sanitários. Segundo a Segeth, das 16 estações, quatro estão fechadas por medidas de segurança e pela proximidade entre uma estação e outra. Mas todas estão em condições de uso. A limpeza é feita diariamente por funcionários terceirizados. A Administração do Parque da Cidade realiza a troca das lâmpadas antigas por lâmpadas de LED, mais econômicas e duráveis. Também não há previsão de reforma.

4 – Segundo o DFTrans, na Rodoviária do Plano Piloto, dois banheiros estão disponíveis e em boas  condições de uso para os usuários de transporte público coletivo. Ao todo, 16 pessoas fazem a limpeza do espaço diariamente. 

5 – Segundo a Administração Regional de Taguatinga, há cinco banheiros públicos na região. Eles estão localizados na QNJ (próximo ao Campo Sintético), na Praça do Relógio (Taguatinga Centro), no Taguaparque, ao lado do cemitério e entre o hospital da cidade e o Fórum. Desses, apenas o da QNJ não está em condições de uso, garantiu a administração. No momento, não há projeto de reforma ou construção de novos banheiros.

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