Por Daniel Xavier
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Criado em 1961 como um bairro essencialmente residencial, o Park Way, uma das regiões administrativas mais verdes do Distrito Federal, enfrenta um dilema moderno: como atender às crescentes necessidades da população local sem comprometer o meio ambiente? Em meio à revisão do Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT), — atualmente em revisão pelo Governo do Distrito Federal — um grande grupo de moradores se mobiliza para defender a criação de áreas comerciais planejadas e sustentáveis, capazes de oferecer serviços básicos com responsabilidade ambiental.

Com uma população estimada em mais de 26 mil pessoas em 2025, segundo projeções baseadas na Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) de 2021, o bairro convive com a escassez de serviços essenciais. Farmácias, padarias, papelarias e postos de saúde estão, em sua maioria, localizados em cidades vizinhas, o que obriga deslocamentos diários até regiões como Núcleo Bandeirante e Águas Claras.
O bairro Park Way está inserido na Área de Proteção Ambiental (APA) Gama-Cabeça de Veado, responsável por cerca de 30% da água que abastece o Lago Paranoá. Diante dessa importância ecológica, moradores defendem que qualquer intervenção urbana siga critérios rigorosos de sustentabilidade.

Francisco Alves Oliveira Neto, 61 anos, conhecido como Francisco Molina, mora no bairro há 27 anos e atua há 17 em projetos comunitários. Ele destaca que a proposta de inclusão comercial não representa risco ao meio ambiente, desde que bem planejada. “O projeto prevê apenas atividades de baixo impacto ambiental, compatíveis com a infraestrutura atual e com melhorias futuras. Justamente para evitar o crescimento desordenado e clandestino — esse, sim, uma verdadeira ameaça ao lençol freático e à natureza da região”, afirma.
Um dos argumentos contrários à proposta é que o Park Way seria uma área “exclusivamente residencial”. Francisco contesta essa ideia: “A lei impede comércio dentro dos condomínios, mas o bairro como um todo não é exclusivamente residencial. É importante esclarecer que a implantação controlada de comércio por trechos específicos é perfeitamente compatível com as diretrizes da APA. O PDOT, inclusive, prevê que cada cidade deve promover o desenvolvimento econômico local para evitar deslocamentos. É disso que estamos falando”, completa Molina, um dos articuladores da proposta.

O Park Way é dividido em três trechos. No trecho 3, que abrange as quadras 1 a 5, o comércio já se instalou de forma espontânea e desordenada. “A necessidade empurrou os empresários a ocuparem aquele espaço, e a comunidade passou a consumir. Hoje temos chaveiro, verdurão, pamonharia, imobiliária, entre outros. Mas tudo isso está irregular. O que propomos é uma solução planejada e legal”, explica Francisco. “Queremos um Park Way planejado, com desenvolvimento sustentável, baseado em projeto urbanístico compatível com seu perfil e em harmonia com a natureza. Não é um retrocesso — é uma evolução responsável e necessária”, declara o morador Francisco.
Pensando no futuro

A proposta dos moradores está sendo encaminhada à Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Distrito Federal (SEDUH – DF) e, segundo Francisco, já recebeu sinalizações positivas. “Estamos enviando e-mails, participando das audiências e até conversamos com o secretário Marcelo Vaz. Nossa expectativa é que a proposta avance para a fase da LUOS”, diz, referindo-se à lei nº 948/2019, Lei Uso e Ocupação do Solo Urbano.
A mobilização não é isolada. Moradores como Tercia Gualberto, 61 anos, aposentada, também integram o movimento. Com mais de duas décadas de residência no bairro, ela destaca a importância de se evitar os erros do passado. “Nas quadras 1 a 5 o comércio surgiu sem qualquer estudo. Hoje, vemos o mesmo acontecendo em outras áreas. O DER-DF é quem concede as autorizações, mas não é o órgão adequado para isso. Precisamos de um ordenamento claro, com licitação, regras ambientais e urbanísticas”, defende Tercia.
Segundo Gualberto, a proposta também é uma resposta à falta de estrutura básica no bairro. “Se eu quiser tomar uma vacina, tenho que ir até a Candangolândia. Se houver um incêndio, o caminhão do Corpo de Bombeiros precisa vir de outra cidade. É uma situação que compromete nossa qualidade de vida. Por isso queremos serviços essenciais aqui, com planejamento e sustentabilidade”, comenta.
Gilma Ferreira, 61 anos, aposentada, moradora do Park Way há 40 anos, reforça a necessidade de comércio local. “Não queremos transformar o Park Way num setor comercial, mas sim garantir acesso a uma padaria, uma farmácia, uma papelaria. Hoje, temos que ir até o Núcleo Bandeirante ou Águas Claras para coisas simples. Isso aumenta o trânsito, consome tempo e é desgastante, principalmente para muitos idosos que moram aqui”, aponta Gilma.
Ela também destaca que a proposta tem como premissa o respeito ao meio ambiente. “Temos nascentes, fauna e flora que precisam ser preservadas. Mas dá para fazer isso com responsabilidade. Ninguém aqui quer um shopping. É comércio de pequeno porte, pequenas ilhas com regras claras, que atenda ao morador e valorize o bairro”, esclarece.
Segundo os moradores, o comércio irregular já existe — e ignorar a realidade não resolverá o problema. “Hoje temos áreas sendo mais degradadas por espécies de invasoras do que seriam por comércios de baixo impacto. A diferença é que, com planejamento, podemos reverter isso com soluções sustentáveis e integradas ao meio ambiente”, afirma Tercia.
Um abraço a comunidade
O movimento liderado por Francisco, Tercia, Gilma e outros moradores ganhou força nas redes sociais. Uma conta no Instagram criada para divulgar a proposta já alcança mais de 8.500 pessoas. “Isso mostra que o debate está crescendo e que os moradores estão se engajando. O PDOT é uma oportunidade de expressar o que queremos para o nosso bairro”, afirma Francisco.
Apesar das divergências, os defensores do comércio planejado pregam o diálogo. “Temos vizinhos com opiniões diferentes, e isso é normal. O importante é que todos participem. Queremos unir a comunidade, não dividir. A cidade precisa ser pensada coletivamente, com equilíbrio entre qualidade de vida, preservação ambiental e acesso a serviços básicos”, conclui Francisco. Com a proximidade da nova audiência pública sobre o PDOT, os moradores esperam que o governo ouça todas as partes e adote um modelo urbanístico que reflita as reais demandas do Park Way. A expectativa é que a discussão ajude a transformar o bairro em uma referência de convivência harmônica entre natureza, infraestrutura e bem-estar social.