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Brasília

Moradores do Park Way defendem comércio local planejado e sustentável

Proposta em debate no PDOT quer garantir serviços essenciais sem comprometer a preservação ambiental da região

Redação Jornal de Brasília

03/06/2025 5h00

Atualizada 02/06/2025 18h40

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Crédito: Daniel Xavier

Por Daniel Xavier
daniel.xavier@grupojbr.com 

Criado em 1961 como um bairro essencialmente residencial, o Park Way, uma das regiões administrativas mais verdes do Distrito Federal, enfrenta um dilema moderno: como atender às crescentes necessidades da população local sem comprometer o meio ambiente? Em meio à revisão do Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT), — atualmente em revisão pelo Governo do Distrito Federal — um grande grupo de moradores se mobiliza para defender a criação de áreas comerciais planejadas e sustentáveis, capazes de oferecer serviços básicos com responsabilidade ambiental.

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Crédito: Daniel Xavier

Com uma população estimada em mais de 26 mil pessoas em 2025, segundo projeções baseadas na Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) de 2021, o bairro convive com a escassez de serviços essenciais. Farmácias, padarias, papelarias e postos de saúde estão, em sua maioria, localizados em cidades vizinhas, o que obriga deslocamentos diários até regiões como Núcleo Bandeirante e Águas Claras.

O bairro Park Way está inserido na Área de Proteção Ambiental (APA) Gama-Cabeça de Veado, responsável por cerca de 30% da água que abastece o Lago Paranoá. Diante dessa importância ecológica, moradores defendem que qualquer intervenção urbana siga critérios rigorosos de sustentabilidade. 

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Crédito: Daniel Xavier

Francisco Alves Oliveira Neto, 61 anos, conhecido como Francisco Molina, mora no bairro há 27 anos e atua há 17 em projetos comunitários. Ele destaca que a proposta de inclusão comercial não representa risco ao meio ambiente, desde que bem planejada. “O projeto prevê apenas atividades de baixo impacto ambiental, compatíveis com a infraestrutura atual e com melhorias futuras. Justamente para evitar o crescimento desordenado e clandestino — esse, sim, uma verdadeira ameaça ao lençol freático e à natureza da região”, afirma.

Um dos argumentos contrários à proposta é que o Park Way seria uma área “exclusivamente residencial”. Francisco contesta essa ideia: “A lei impede comércio dentro dos condomínios, mas o bairro como um todo não é exclusivamente residencial. É importante esclarecer que a implantação controlada de comércio por trechos específicos é perfeitamente compatível com as diretrizes da APA. O PDOT, inclusive, prevê que cada cidade deve promover o desenvolvimento econômico local para evitar deslocamentos. É disso que estamos falando”, completa Molina, um dos articuladores da proposta. 

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Crédito: Daniel Xavier

O Park Way é dividido em três trechos. No trecho 3, que abrange as quadras 1 a 5, o comércio já se instalou de forma espontânea e desordenada. “A necessidade empurrou os empresários a ocuparem aquele espaço, e a comunidade passou a consumir. Hoje temos chaveiro, verdurão, pamonharia, imobiliária, entre outros. Mas tudo isso está irregular. O que propomos é uma solução planejada e legal”, explica Francisco. “Queremos um Park Way planejado, com desenvolvimento sustentável, baseado em projeto urbanístico compatível com seu perfil e em harmonia com a natureza. Não é um retrocesso — é uma evolução responsável e necessária”, declara o morador Francisco. 

Pensando no futuro

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Crédito: Daniel Xavier

A proposta dos moradores está sendo encaminhada à Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Distrito Federal (SEDUH – DF) e, segundo Francisco, já recebeu sinalizações positivas. “Estamos enviando e-mails, participando das audiências e até conversamos com o secretário Marcelo Vaz. Nossa expectativa é que a proposta avance para a fase da LUOS”, diz, referindo-se à lei nº 948/2019, Lei Uso e Ocupação do Solo Urbano.

A mobilização não é isolada. Moradores como Tercia Gualberto, 61 anos, aposentada, também integram o movimento. Com mais de duas décadas de residência no bairro, ela destaca a importância de se evitar os erros do passado. “Nas quadras 1 a 5 o comércio surgiu sem qualquer estudo. Hoje, vemos o mesmo acontecendo em outras áreas. O DER-DF é quem concede as autorizações, mas não é o órgão adequado para isso. Precisamos de um ordenamento claro, com licitação, regras ambientais e urbanísticas”, defende Tercia.

Segundo Gualberto, a proposta também é uma resposta à falta de estrutura básica no bairro. “Se eu quiser tomar uma vacina, tenho que ir até a Candangolândia. Se houver um incêndio, o caminhão do Corpo de Bombeiros precisa vir de outra cidade. É uma situação que compromete nossa qualidade de vida. Por isso queremos serviços essenciais aqui, com planejamento e sustentabilidade”, comenta.

Gilma Ferreira, 61 anos, aposentada, moradora do Park Way há 40 anos, reforça a necessidade de comércio local. “Não queremos transformar o Park Way num setor comercial, mas sim garantir acesso a uma padaria, uma farmácia, uma papelaria. Hoje, temos que ir até o Núcleo Bandeirante ou Águas Claras para coisas simples. Isso aumenta o trânsito, consome tempo e é desgastante, principalmente para muitos idosos que moram aqui”, aponta Gilma.

Ela também destaca que a proposta tem como premissa o respeito ao meio ambiente. “Temos nascentes, fauna e flora que precisam ser preservadas. Mas dá para fazer isso com responsabilidade. Ninguém aqui quer um shopping. É comércio de pequeno porte, pequenas ilhas com regras claras, que atenda ao morador e valorize o bairro”, esclarece.

Segundo os moradores, o comércio irregular já existe — e ignorar a realidade não resolverá o problema. “Hoje temos áreas sendo mais degradadas por espécies de invasoras do que seriam por comércios de baixo impacto. A diferença é que, com planejamento, podemos reverter isso com soluções sustentáveis e integradas ao meio ambiente”, afirma Tercia.

Um abraço a comunidade

O movimento liderado por Francisco, Tercia, Gilma e outros moradores ganhou força nas redes sociais. Uma conta no Instagram criada para divulgar a proposta já alcança mais de 8.500 pessoas. “Isso mostra que o debate está crescendo e que os moradores estão se engajando. O PDOT é uma oportunidade de expressar o que queremos para o nosso bairro”, afirma Francisco.

Apesar das divergências, os defensores do comércio planejado pregam o diálogo. “Temos vizinhos com opiniões diferentes, e isso é normal. O importante é que todos participem. Queremos unir a comunidade, não dividir. A cidade precisa ser pensada coletivamente, com equilíbrio entre qualidade de vida, preservação ambiental e acesso a serviços básicos”, conclui Francisco. Com a proximidade da nova audiência pública sobre o PDOT, os moradores esperam que o governo ouça todas as partes e adote um modelo urbanístico que reflita as reais demandas do Park Way. A expectativa é que a discussão ajude a transformar o bairro em uma referência de convivência harmônica entre natureza, infraestrutura e bem-estar social.

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