Carla Rodrigues
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Eles saíram da condição de invisíveis para porta-vozes da cultura. Uma mudança brusca, que, acima de tudo, exige coragem, especialmente para aqueles que ainda tentam vencer as barreiras impostas pelo recorrente uso de drogas. Foram anos de traumas, violência e abandono. São moradores de rua que agora estão perto de encontrar teto na morada das palavras. Isso graças ao projeto da revista Traços, que será lançada hoje.
Ao todo, 50 pessoas em situação de rua serão os vendedores oficiais da revista. A ideia, além de falar de Brasília de uma nova maneira, é fazer com que esses moradores de rua reencontrem a dignidade. E de uma forma aparentemente simples. Cada exemplar da revista custará R$ 5. Ao vender, o porta-voz ficará com o lucro de R$ 4 e utilizará R$ 1 da venda para comprar uma nova publicação.
Aqueles que aceitaram o desafio garantem: é o início de uma nova vida. “É uma oportunidade. E, principalmente, de enfrentar o preconceito. Além de ter o nosso dinheiro, vamos conhecer outras pessoas”, alegra-se Raimundo dos Santos, de 50 anos.
Para ele, a revista surge como um novo incentivo à leitura e à escrita. “Eu gosto de ler e mais ainda de escrever. Sou compositor”, revela. Segundo Raimundo, uma de suas composições sobre os pontos turísticos da cidade deve ser publicada na revista. “É um pagode. Eu já cantei para eles. Vai sair lá. Vai, sim”, comemora o vendedor.

Uma chance amorosa
Para Alexsandro Justino, 29 anos, vender as revistas significa uma chance com sua ex-mulher. “Quero resolver minha vida amorosa. Eu gosto dela, e ela gosta de mim. Só que, para eu reconquistá-la, ela disse que preciso de um emprego. Agora eu tenho”, afirma. “Busco algo diferente. Quero reconquistá-la”, ressalta, lembrando que, por anos, foi usuário de drogas. “Me separei por causa disso”, completa.
O idealizador e editor-chefe da revista Traços, André Noblat, conta que o projeto foi possível graças ao apoio da Lei de Incentivo à Cultura e ao suporte oferecido pelo GDF. “O projeto não é uma ideia nossa. Ele existe em 123 cidades. E, nesses lugares, fizemos pesquisas. Percebi que era importante o acompanhamento e o suporte psicológico para essas pessoas”, aponta, destacando a parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Humano e Social.
Nesta primeira edição, a revista traz matéria especial sobre as ocupações culturais que estão mudando o DF. “Nossa ideia é discutir a cidade. Falta em Brasília esse espaço para a cultura”, diz André Noblat.
Saiba mais
O lançamento da revista Traços está marcado para as 19h30 de hoje, na área externa do Museu Nacional.
Inicialmente, cada porta-voz da cultura vai receber gratuitamente um lote de 30 exemplares.
Os vendedores foram selecionados no Centro Especializado para População em Situação de Rua, da 903 Sul.
Os pontos de venda ainda serão definidos. Alguns bares devem entrar na lista.