Raphaella Sconetto
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Em operação há 20 anos, o metrô nunca recebeu investimentos, segundo alega a própria Companhia do Metropolitano do DF. Depois do descarrilamento que voltou a expor as panes constantes, o governo admite a dificuldade de evitá-las ao pretender reduzi-las em apenas 20% até o fim do ano. Enquanto a intenção é ampliar o sistema, servidores e especialistas apontam a necessidade de priorizar o básico: a manutenção.
Em meio às dificuldades, o GDF investirá R$ 87,7 milhões em obras de expansão e modernização do sistema metroviário. Além desse gasto, anualmente são pagos R$ 48 milhões à empresa responsável pela manutenção.
Junto ao recurso distrital, a União vai aplicar mais R$ 275,4 milhões. As obras implicam na entrega de três estações já construídas – Estrada Parque, 106 Sul e 110 Sul -, na criação de outras duas em Samambaia, além de ampliar a capacidade do sistema e construir ciclovia, viadutos, passagens para pedestres, paraciclos e estacionamentos.
Em média, os 160 mil brasilienses que utilizam o metrô se depararam, só no ano passado, com 73 falhas no transporte. Este ano, conforme o JBr. mostrou ontem, já foram oito. Por isso, as decisões contrariam especialistas e os próprios metroviários, que alegam que a prioridade é reparar o maquinário existente, e só depois ampliá-lo.
Mais servidores
De acordo com a diretora do Sindicato dos Metroviários, Renata Campos, o modelo atual travaria qualquer avanço. “Tem que bater na tecla de que, com déficit de funcionários e manutenções ineficientes, nada vai para frente. Tem que cuidar primeiro do que temos hoje. Nós, funcionários, não conseguimos dar conta de toda a demanda, a própria questão da manutenção é prejudicada pelo número de servidores”, alega.
Para Renata, o ideal seria contratar mais funcionários. “Temos os concursados aprovados em 2013 e até agora não foram chamados. Se não o fizer, o nosso dia a dia vai continuar assim: com falhas não divulgadas, trens constantemente recolhidos, uma manutenção mal feita, e o trem vai voltar para a população com mais problemas. Dependo da situação, o usuário não vai ter transporte. Está defasado. Precisa de mais estratégia”, indica.
Os altos investimentos também recebem críticas do pesquisador em transporte público Carlos Penna. “Gastam milhões em manutenção, mas os problemas que surgem são justamente nisso. A impressão é que todo esse dinheiro é gasto de maneira errada. Algo não está batendo”, provoca. “Como se transporta a população com qualidade se o número de trens é ineficiente, a manutenção não é suficiente e não tem funcionário?”, questiona.
Ainda de acordo com o especialista, se não resolverem de fato os problemas com reparo de trens e trilhos, a tendência é reduzir a circulação. “Dos 32 trens, 24 estavam circulando. Com o problema do descarrilamento, agora são 23. Estão brincando de dirigir o metrô. No fim do mês, todos recebem os salários, e assim vão empurrando, enrolando, até o dia que tiver um problema efetivamente maior”, dispara.
Em relação às medidas de expansão e manutenção, a categoria e o especialista são enfáticos: os equipamentos que existem vão se deteriorar, enquanto o governo traz o novo. “A questão não é ser contra a ampliação. Pelo contrário, o metrô precisa expandido para que mais pessoas tenham acesso. Eu não concordo em deixar estações apodrecendo, de lado, e partir para o novo. O resultado dessas ações é que o gasto vai vir em dobro. A população vai pagar duas vezes por algo que foi construído e terá de ser reformado”, finaliza Penna.
Relatórios já identificavam fragilizadas
Em 2013, uma auditoria do Tribunal de Contas do DF (TCDF) mostrou que um trem pode apresentar falhas ou avarias a cada dez viagens – são 400 km/falha. Quando comparada toda a frota. Quando isso ocorre, o tempo médio de liberação dos trens chega a 2,54 horas.
Naquele mesmo ano, a Controladoria Geral da União analisou a transferência de recursos financeiros da União para o Metrô-DF, no valor de R$ 30 milhões, visando a implementação do trecho Taguatinga–Ceilândia. A auditoria apontou a existência de sobrepreço na planilha do plano de trabalho do convênio, com prejuízo estimado em R$ 11,7 milhões.
Na época dos relatórios, o consórcio responsável pelo reparo e conservação dos vagões da capital era o Metroman – formado pelas empresas Siemens e Serveng-Civilsan. As empresas foram investigadas pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) por formar um cartel para fraudar licitações para a contratação de serviços de manutenção nos metrôs do Distrito Federal e de São Paulo.
Por isso, em dezembro do ano passado, o Ministério Público do DF moveu uma ação civil de indenização contra a Siemens. O órgão requereu um valor de quase R$ 240 milhões pelos atos ilícitos. Do montante, R$ 119 milhões por danos materiais – valor equivalente a 25% do total recebido pela Siemens ao longo dos seis anos de participação no Contrato nº 16/ 2007. O restante foi requerido para danos morais coletivos. Até agora, o Metrô não recebeu nenhuma quantia.
Versão oficial
A expectativa do governo é reduzir em 20% o número de falhas no sistema metroviário até o fim do ano, segundo informa a assessoria de imprensa da Companhia do Metropolitano do DF. A primeira licitação será para a compra de rádios, que serão instalados neste ano e prometem reduzir os incidentes e melhorar a comunicação entre pilotos e Central de Controle.
A companhia aponta ainda que esta será a primeira vez em que uma gestão está investindo no metrô. “Por exemplo, o Centro de Controle Operacional tem uma tela de controle da década 80. É um sistema obsoleto porque não foi trabalhado em outros governos. Então, com os investimentos, modernização de sinalização, da comunicação da via com centro de controle, do sistema de transmissão de dados, as falhas vão reduzir consideravelmente”, explica a assessoria do Metrô.
A respeito do déficit de funcionários, a instituição indica ainda que, no ano passado, as áreas técnicas foram beneficiadas com a convocação de 63 servidores, aprovados do último concurso, realizado em 2013. O restante, de um total de 188, será chamado até maio deste ano.