Raphaella Sconetto
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A angústia de ver um familiar precisar de leito em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da rede pública faz com que centenas de pessoas entrem com pedidos na Justiça para garantir o direito fundamental de acesso à saúde. No ano passado, a Defensoria Pública prestou 1.114 atendimentos desta natureza – e 709 viraram ações judiciais. Enquanto isso, pelo menos 80 pacientes aguardam na fila para uma vaga nas UTIs, correndo risco de morrer.
Os dados são ainda mais impressionantes e “gravíssimos”, como descreve a Defensoria. Em 2017 o órgão começou a computar os casos em que o governo descumpriu as liminares. E o resultado é que, só no ano passado, 645 pessoas ficaram sem vaga na rede pública.
Urgência
João Pereira dos Santos, 69 anos, está internado há um mês no Hospital Regional de Taguatinga (HRT). O homem é doente renal crônico, hipertenso e diabético. Em decorrência de uma infecção, precisou amputar a perna e, no último sábado, o estado de saúde se agravou: sofreu uma parada cardiorrespiratória. Hoje, está entubado, sedado e aguardando um leito de UTI.

Internado há um mês no HRT, João tem quadro delicado e precisa de UTI
Segundo a filha dele, a administradora Keli Ávila Santos, 42 anos, tudo começou com uma falta de ar. “Ele deu entrada dessa forma, mas evoluiu com um quadro de infecção no pulmão e peritonite (inflamação por um fungo ou bactéria no tecido do abdômen). Dentro desse quadro, por ele ser diabético, a circulação do pé ficou prejudicada, e precisou amputar a perna”, explica.
Após amputação, João Pereira apresentou infecção generalizada. Só que, conforme Keli, o idoso estava evoluindo bem ao tratamento. “Estava comendo, sentando, conversando. Ele vinha melhorando. Mas no sábado teve a parada cardiorrespiratória”, lamenta a administradora.
Corrida contra o tempo
Ainda no sábado, a família de João correu até a Defensoria Pública e ao Tribunal de Justiça do DF (TJDFT) para conseguir uma liminar que garanta a UTI. Por conta da doença renal, o homem precisa fazer hemodiálise diariamente, por isso, foi solicitada a vaga com suporte para fazer o tratamento renal, em prioridade máxima.
No entanto, a frustração veio logo em seguida. Mais de 48 horas depois, com a liminar em mãos, Keli não conseguiu solucionar o problema do pai. Para ela, o problema não é o atendimento dos médicos.
“Montaram uma mini-UTI. Não é negligência deles. Mas eles não conseguem fazer o impossível, não conseguem prestar um atendimento ainda melhor porque não existe suporte”, aponta. “Estou com o papel, mas sentada, esperando meu pai morrer, porque não consigo nenhuma resposta”, completa.
Familiar contesta transparência
A administradora Keli Ávila critica o sistema da Central de Regulação – que distribui os leitos da rede pública. “Você não sabe em que posição está na fila, não sabe em quais hospitais estão procurando, se estão indo pessoalmente, se estão ligando. A gente não sabe de nada. É uma fantasia. Se fizessem um bom serviço, eles mostrariam as informações da regulação”, provoca.
O questionamento dela se estende aos hospitais particulares, conveniados à Secretaria de Saúde, e que poderiam prestar o atendimento. “Quantos hospitais privados existem em Brasília? Vários. Mas todos dizem que não tem vaga. Outra coisa: quais são conveniados? Fui a três. De início, me tratavam como uma cliente, diziam que para internar era um valor, mas quando dizia que tinha a liminar, mudavam de assunto. Diziam que não existe vaga”, reclama. “Ou seja, se uma decisão do juiz não vale nada, o que vale? Onde a gente vai recorrer?”, indaga.
Ela desabafa que o seu único desejo é que o pai receba toda a terapia necessária a garantir qualidade de vida. “Eu sei que o estado de saúde dele é grave, e que os tratamentos podem não resolver. Mas eu queria ter a certeza de que ele teve todo o cuidado necessário. É melhor morrer sendo cuidado do que morrer sem receber um atendimento digno”, conclui.
Versão oficial
Em nota, a Secretaria de Saúde informou que ainda não havia encontrado vaga para João Pereira dos Santos até a noite de ontem. “As buscas seguem ativas pela Central de Regulação, tanto em unidades da rede pública quanto em unidades particulares. Assim que houver vaga ele será direcionado ao leito”, esclareceu. A pasta, no entanto, não respondeu aos questionamentos do Jornal de Brasília sobre como a família consegue acesso às informações da Central de Regulação, e nem quais hospitais particulares são conveniados com o governo. A única forma de contato entre família e regulação, segundo a pasta, é por meio do médico assistente.