RAFAELLA PANCERI
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Nem a crise que assola o País é capaz de diminuir a força do Natal. Em três famílias do Distrito Federal, por exemplo, os pratos podem até variar, mas a vontade de reunir a família e expressar gratidão pelo ano que passou são constantes. Moradores da Cidade Estrutural, Ceilândia e Lago Sul comemoram os tradicionais dias 24 e 25 de dezembro de maneira bem própria. Para uns, a diversão fica por conta da troca de presentes. Para outros, o barato é rever familiares que moram longe e se divertir com a casa cheia. Para as crianças, a espera pela visita do Papai Noel dá à noite um tom mágico.
“No Natal, eu não vou ter como comprar Chester, então vou fazer um frango. Pra acompanhar, vai ter arroz com milho e vinagrete”, conta a costureira Cleia Costa dos Santos, 34, que mora na Cidade Estrutural com o filho de dois anos, Mikael Pereira dos Santos. Mãe solteira, vai passar o Natal longe da família. “Minha mãe mora em Águas Lindas e o resto, no Piauí. Preferia passar com eles, mas as passagens estão muito caras”, lamenta.
Mesmo com dificuldades, ela destaca que tem muito a agradecer, quando fizer uma oração à meia-noite do dia 25 de dezembro. “Recebi muitas bênçãos nesse ano. Deus me tirou do aluguel. Tenho um teto para ficar embaixo. Tem gente que mora debaixo da ponte”, exemplifica. “Também fico feliz com a creche onde meu filho fica, que é de graça. Olha o tanto de brinquedo que ele ganhou lá”, aponta, e mostra caminhões de plástico, carrinhos, baldes e uma bola, da qual o pequeno não desgruda. Os agradecimentos também são relacionados à casa. “Deus me deu um banheiro neste ano, com água e descarga. Consegui fechar o telhado do barraco”, compartilha, sorrindo. “Agora tenho até televisão”, conta, orgulhosa.
Natal, para a costureira, é sinônimo de relembrar o nascimento de Jesus e ficar mais perto de quem ama. O carinho pelo filho e pela casa, erguida com tábuas e lonas, se traduz na decoração temática. Na porta da cozinha, uma fileira de pisca-piscas recebem a reportagem. “Mas não funciona”, adverte.

João Stangherlin
Casa cheia
Na casa da matriarca Antônia Ximenes do Prado, 91, são esperadas 85 pessoas para festa de Natal. A casa de 150 m², em Ceilândia, fica “lotada, com gente até na varanda”, garante a idosa. A filha, Luzilmar Ximenes Mesquita Matos, 57, aposentada, mora com a mãe e admite, entre gargalhadas: “não sei onde vou colocar tanta gente! A casa não é tão espaçosa, mas o coração é grande”, pondera. O planejamento da festa começa no início do mês, com o sorteio do amigo secreto e a divisão dos pratos da ceia entre as famílias participantes.
Religiosa, a família reza antes de meia-noite. “É um momento importante porque o Natal é o nascimento de Cristo. Somos católicos e uma irmã é evangélica, mas participa normalmente. Agradecemos pelo ano que passou e pela vida de todo mundo. Pedimos por aqueles que estão nos hospitais e que não têm as mesmas coisas que a gente tem”, descreve Matos”.
Depois de rezar, é hora de jantar. As famílias levam o que gostam de comer e se sentam em sofás e cadeiras espalhadas pela casa. No final da noite, o amigo secreto agita a festa. “É por causa dele que todo mundo quer vir. Acontece madrugada adentro”, define a aposentada.
À espera do bom velhinho
“Vocês acreditam em Papai Noel?” A pergunta do Jornal de Brasília feita aos primos Luiza Lustz Goulart, 9, e Bruno Lustz Rodrigues, 8, moradores do Lago Sul, teve respostas diferentes. O garoto diz que sim, e garante que os presentes aparecem na casa da avó, após a meia-noite, sem explicação lógica. “Achei minha bicicleta lá fora”, conta, animado, ao se lembrar do Natal passado. A garota tem dúvidas. “Não sei como os presentes aparecem. Meia-noite eles estão aqui, do nada. Quando eu era mais nova, acreditava muito em Papai Noel. Mas ainda acredito um pouquinho”, reconhece Luiza.
Avó das crianças, a procuradora federal Elaine Lustz Portela, 62, faz questão de preparar a ceia e oferecer o jantar aos convidados em casa. “Acolho amigos que não têm família em Brasília. Ao todo, são cerca de 25 pessoas”, destaca.
Família reunida
Decorada com motivos natalinos, a residência tem miniaturas de papais noéis e bonecos de neve espalhadas pelos móveis, além de uma árvore de Natal com quase dois metros de altura, enfeitada com fotos dos netos, bolas coloridas e pisca-pisca. “A montagem é divertida. Juntamos as crianças e ouvimos músicas de Natal. Todo ano, um neto diferente coloca a estrela no topo”, explica Portela.
“Nós gostamos muito de Natal. Ensinei a minhas quatro filhas a importância da data. Elas deixam de viajar para vir para cá. Como minha mãe está viva, é uma oportunidade de estar com ela”, acrescenta.
“Sempre fazemos uma prece antes do jantar. Agradecemos por tudo que temos, porque sabemos que somos privilegiados em um país pobre, com tantas dificuldades”, frisa a procuradora.
Depois da oração, peru, pernil e lombo assado roubam a cena. As crianças preferem uma sobremesa que leva bombom, sorvete e wafer. Uma salada tropical lembra uma falecida amiga da família. “Ela quem me ensinou. Faço todo ano. É como se ela estivesse aqui com a gente”, compartilha Portela.
Ponto de vista
As reuniões familiares se tornaram sinônimo do Natal nos países nórdicos, entre os séculos 15 e 16. Por conta das temperaturas baixas, as pessoas evitavam ir para a rua. “Daí o costume de estar reunido em família, em torno de uma mesa, com uma ceia posta”, explica o professor voluntário da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, Álvaro Ribeiro.
A troca de presentes também é tradição antiga. Vem das festas à colheita, celebradas no antigo Império Romano. “O presente era o que a natureza dava, as dádivas e os dons – os alimentos”, explica Ribeiro, e acrescenta que, mais tarde, as pessoas passaram a imitar a atitude dos Três Reis Magos, citados na Bíblia. “Eles levaram presentes ao rei como forma de carinho e devoção”. A população cristã passou a fazer isso com os mais pobres, por meio de doações. Atualmente, o costume está incorporado aos círculos familiares. “Até o século 19, os presentes eram feitos à mão, geralmente comida e roupas. Depois de introduzida a lógica capitalista, começaram a ser comprados e vendidos”, analisa.
Além dos presentes, o peru assado é ícone da data. O professor explica que o costume pode ter vindo da Inglaterra e dos Estados Unidos. “Os protestantes comemoram o dia de Ação de Graças com uma ave na mesa. Nos EUA, é feriado nacional”. Para além da simbologia cristã, o Papai Noel é outro grande sucesso. “Muita gente não sabe o porquê de a roupa ser vermelha. É uma referência aos bispos da Igreja Católica”, explica Ribeiro.