Brasília abriga uma das histórias mais surpreendentes da nova geração de crianças com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) no país. Aos 11 anos, o brasiliense Rafael Kessler Ferreira transformou uma tarde comum de estudos em uma fórmula matemática própria, hoje conhecida como Fórmula de Kessler, validada por professores da Universidade de Brasília (UnB) e reconhecida por instituições de todo o país, como o Ministério da Educação (MEC), a Câmara Legislativa do Distrito Federal, o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e a Ordem dos Advogados do Brasil do Distrito Federal (OAB-DF). Em breve a fórmula Kessler será publicada em uma revista especializada.
O menino Rafael, que também é programador, multimedalhista olímpico, fluente em inglês e leitor da Bíblia em português e espanhol, ainda criou uma língua inteira, a Hyroasc – língua falada no universo fictício de Kednlane, inspirada na proposta do jogo Chants of Sennaar, que trabalha com símbolos, tradução e construção de significado entre povos. O garoto também desenvolveu jogos e materiais didáticos.

A descoberta da fórmula ocorreu durante a resolução de uma questão da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas – OBMEP de 2022. “Eu tinha que contar palitos nos quadrados e percebi que aquilo era uma progressão que cresceria sempre. Não fazia sentido ficar contando tudo de novo”, explica Rafael. A partir daí, começou a testar padrões no papel até perceber um comportamento numérico recorrente. “Quando meu pai perguntou se aquilo funcionaria também para retângulos, eu testei e deu certo. Foi aí que nasceu a Fórmula de Kessler”, relata.
O talento precoce, no entanto, não surgiu repentinamente. Desde muito pequeno, Rafael apresentava sinais que escapavam às etapas tradicionais do desenvolvimento infantil. Mas sua mãe, Robertha Munique, professora de línguas e presidente do recém-criado Instituto Raises, precisou percorrer um caminho solitário até compreender o que estava diante dela. “O maior desafio foi perceber que não era só curiosidade. Era algo muito maior”, conta. Segundo ela, a superdotação se manifestou entre os 4 e 5 anos. “Ele teve atraso de fala por também estar dentro do espectro autista, mas quando venceu essa etapa começou a ler sozinho aos cinco anos e já falava inglês”, declara Munique.

A mudança da rotina
A rotina familiar precisou ser inteiramente reorganizada. “Nossa casa virou um laboratório de ideias”, relata Robertha. Leitura avançada, programação, criação de jogos, matemática e discussões complexas agora fazem parte do cotidiano. “Eu tive que adaptar o mundo a ele. Cada passo exige presença, sensibilidade e planejamento”, completa.
Nem sempre o ambiente escolar acompanhou o ritmo acelerado do menino. Segundo a mãe, houve fases de estranhamento e solidão. “A escola ainda é um espaço pensado para a rotina, e crianças como o Rafael não se encaixam. Ele já viveu silêncios desconfortáveis, por estar muito à frente, e a solidão de não ter pares intelectuais por perto”, diz. Mesmo assim, o percurso também revelou professores que o acolheram e reconheceram seu potencial.

A trajetória da Fórmula de Kessler também surpreendeu a família. “Ele chegou com a ideia muito clara. Não estava ‘tentando criar uma fórmula’, ele estava resolvendo algo que fazia sentido para ele”, afirma Robertha. Quando docentes da Universidade de Brasília confirmaram a validade matemática por indução, ela entendeu a dimensão do feito. “Ver um menino de 10 anos explicar sua própria fórmula para professores universitários foi marcante. Ali eu percebi que meu papel era proteger e abrir caminhos.”
Além dos reconhecimentos recebidos, Rafael será homenageado no dia 2 de dezembro, no Rio de Janeiro, durante o lançamento dos materiais do programa Compromisso Nacional Toda Matemática, do Ministério da Educação, no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA).
Movimento por direitos e visibilidade
A história do menino se entrelaça com outro marco no Distrito Federal. Será lançado o Instituto Rede de Apoio, Incentivo e Suporte Educacional e Emocional ao Superdotado – (Raises), no próximo dia 29 de novembro, no Departamento de Matemática da UnB. A associação surge para enfrentar a invisibilidade histórica de crianças e adolescentes superdotados ou com dupla excepcionalidade (2E). “Faltam protocolos, faltam políticas públicas, faltam fluxos de atendimento. Faltava alguém olhar para essas famílias. O Instituto Raises nasce para preencher essa lacuna”, afirma Robertha, que presidirá o instituto.

O evento reunirá pesquisadores, professores, autoridades do DF e crianças superdotadas que participarão de oficinas e atividades práticas. Também haverá atendimento jurídico, orientações técnicas e apresentação das frentes de trabalho da instituição.
A causa é urgente. Estima-se que 2,3 milhões de estudantes brasileiros tenham Altas Habilidades, mas menos de 30 mil estão identificados oficialmente pela escola. No DF, o cenário é semelhante: baixa identificação e dificuldade de acesso a direitos como Plano Educacional Individualizado (PEI), Aceleração de Estudos e Atendimento Educacional Especializado (AEE).
Questionado sobre o futuro, Rafael se mantém fiel à simplicidade das grandes mentes. “Meu maior sonho é continuar criando. Quero aprender muita coisa, fazer descobertas e ajudar outras crianças superdotadas para que ninguém se sinta sozinho.” Já a mãe resume o que deseja para ele. “Meu maior sonho é que ele seja feliz. Minha maior preocupação é que o talento dele seja limitado pela falta de políticas públicas. Ele tem um brilho que não se apaga. Meu trabalho é garantir asas e, também, um lugar seguro para pousar”, declara Robertha.