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Brasília

Menino brasiliense de 11 anos cria fórmula matemática inédita 

Reconhecido pela CLDF, MEC, IMPA e OAB-DF, Rafael Kessler desenvolveu teoria própria, criou uma língua, programou jogos e agora motiva evento que busca dar visibilidade às Altas Habilidades 

Daniel Xavier

27/11/2025 18h15

menino brasiliense de 11 anos cria fórmula matemática inédita brasiliense rafael kessler ferreira créditos arquivo pessoal (2)

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Brasília abriga uma das histórias mais surpreendentes da nova geração de crianças com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) no país. Aos 11 anos, o brasiliense Rafael Kessler Ferreira transformou uma tarde comum de estudos em uma fórmula matemática própria, hoje conhecida como Fórmula de Kessler, validada por professores da Universidade de Brasília (UnB) e reconhecida por instituições de todo o país, como o Ministério da Educação (MEC), a Câmara Legislativa do Distrito Federal, o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e a Ordem dos Advogados do Brasil do Distrito Federal (OAB-DF). Em breve a fórmula Kessler será publicada em uma revista especializada.

O menino Rafael, que também é programador, multimedalhista olímpico, fluente em inglês e leitor da Bíblia em português e espanhol, ainda criou uma língua inteira, a Hyroasc – língua falada no universo fictício de Kednlane, inspirada na proposta do jogo Chants of Sennaar, que trabalha com símbolos, tradução e construção de significado entre povos. O garoto também desenvolveu jogos e materiais didáticos.

menino brasiliense de 11 anos cria fórmula matemática inédita brasiliense rafael kessler ferreira créditos arquivo pessoal
menino brasiliense de 11 anos cria fórmula matemática inédita brasiliense rafael kessler ferreira créditos arquivo pessoal

A descoberta da fórmula ocorreu durante a resolução de uma questão da  Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas – OBMEP de 2022. “Eu tinha que contar palitos nos quadrados e percebi que aquilo era uma progressão que cresceria sempre. Não fazia sentido ficar contando tudo de novo”, explica Rafael. A partir daí, começou a testar padrões no papel até perceber um comportamento numérico recorrente. “Quando meu pai perguntou se aquilo funcionaria também para retângulos, eu testei e deu certo. Foi aí que nasceu a Fórmula de Kessler”, relata.

O talento precoce, no entanto, não surgiu repentinamente. Desde muito pequeno, Rafael apresentava sinais que escapavam às etapas tradicionais do desenvolvimento infantil. Mas sua mãe, Robertha Munique, professora de línguas e presidente do recém-criado Instituto Raises, precisou percorrer um caminho solitário até compreender o que estava diante dela. “O maior desafio foi perceber que não era só curiosidade. Era algo muito maior”, conta. Segundo ela, a superdotação se manifestou entre os 4 e 5 anos. “Ele teve atraso de fala por também estar dentro do espectro autista, mas quando venceu essa etapa começou a ler sozinho aos cinco anos e já falava inglês”, declara Munique.

 brasiliense rafael kessler ferreira e sua mãe robertha munique créditos arquivo pessoal
brasiliense rafael kessler ferreira e sua mãe robertha munique créditos arquivo pessoal

A mudança da rotina

A rotina familiar precisou ser inteiramente reorganizada. “Nossa casa virou um laboratório de ideias”, relata Robertha. Leitura avançada, programação, criação de jogos, matemática e discussões complexas agora fazem parte do cotidiano. “Eu tive que adaptar o mundo a ele. Cada passo exige presença, sensibilidade e planejamento”, completa.

Nem sempre o ambiente escolar acompanhou o ritmo acelerado do menino. Segundo a mãe, houve fases de estranhamento e solidão. “A escola ainda é um espaço pensado para a rotina, e crianças como o Rafael não se encaixam. Ele já viveu silêncios desconfortáveis, por estar muito à frente, e a solidão de não ter pares intelectuais por perto”, diz. Mesmo assim, o percurso também revelou professores que o acolheram e reconheceram seu potencial. 

menino brasiliense de 11 anos cria fórmula matemática inédita brasiliense rafael kessler ferreira créditos arquivo pessoal (7)
menino brasiliense de 11 anos cria fórmula matemática inédita brasiliense rafael kessler ferreira créditos arquivo pessoal (7)

A trajetória da Fórmula de Kessler também surpreendeu a família. “Ele chegou com a ideia muito clara. Não estava ‘tentando criar uma fórmula’, ele estava resolvendo algo que fazia sentido para ele”, afirma Robertha. Quando docentes da Universidade de Brasília confirmaram a validade matemática por indução, ela entendeu a dimensão do feito. “Ver um menino de 10 anos explicar sua própria fórmula para professores universitários foi marcante. Ali eu percebi que meu papel era proteger e abrir caminhos.”

Além dos reconhecimentos recebidos, Rafael será homenageado no dia 2 de dezembro, no Rio de Janeiro, durante o lançamento dos materiais do programa Compromisso Nacional Toda Matemática, do Ministério da Educação, no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA).

Movimento por direitos e visibilidade

A história do menino se entrelaça com outro marco no Distrito Federal. Será lançado o Instituto Rede de Apoio, Incentivo e Suporte Educacional e Emocional ao Superdotado – (Raises), no próximo dia 29 de novembro, no Departamento de Matemática da UnB. A associação surge para enfrentar a invisibilidade histórica de crianças e adolescentes superdotados ou com dupla excepcionalidade (2E). “Faltam protocolos, faltam políticas públicas, faltam fluxos de atendimento. Faltava alguém olhar para essas famílias. O Instituto Raises nasce para preencher essa lacuna”, afirma Robertha, que presidirá o instituto.

menino brasiliense de 11 anos cria fórmula matemática inédita brasiliense rafael kessler ferreira créditos arquivo pessoal (3)
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O evento reunirá pesquisadores, professores, autoridades do DF e crianças superdotadas que participarão de oficinas e atividades práticas. Também haverá atendimento jurídico, orientações técnicas e apresentação das frentes de trabalho da instituição.

A causa é urgente. Estima-se que 2,3 milhões de estudantes brasileiros tenham Altas Habilidades, mas menos de 30 mil estão identificados oficialmente pela escola. No DF, o cenário é semelhante: baixa identificação e dificuldade de acesso a direitos como Plano Educacional Individualizado (PEI), Aceleração de Estudos e Atendimento Educacional Especializado (AEE).

Questionado sobre o futuro, Rafael se mantém fiel à simplicidade das grandes mentes. “Meu maior sonho é continuar criando. Quero aprender muita coisa, fazer descobertas e ajudar outras crianças superdotadas para que ninguém se sinta sozinho.” Já a mãe resume o que deseja para ele. “Meu maior sonho é que ele seja feliz. Minha maior preocupação é que o talento dele seja limitado pela falta de políticas públicas. Ele tem um brilho que não se apaga. Meu trabalho é garantir asas e, também, um lugar seguro para pousar”, declara Robertha.

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