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Brasília

Médico legista cria metodologia inédita para agilizar buscas por desaparecidos

Estudo analisou 120 casos no DF e aponta que a maioria dos corpos é encontrada a até 3 km do local do desaparecimento

Redação Jornal de Brasília

23/12/2025 12h14

Foto: Divulgação

Por Caroline Purificação

Um estudo desenvolvido pelo médico legista do Instituto Médico Legal (IML) do Distrito Federal, Alexandre Castro, pode mudar a forma como a polícia inicia a busca por pessoas desaparecidas que acabam sendo encontradas mortas. A pesquisa, baseada em dados reais e validação científica, comprova que a maioria dos corpos é localizada a uma curta distância do ponto onde a vítima desapareceu, em um raio de até dois a três quilômetros, conforme afirma o médico.

O trabalho teve início ainda na especialização em antropologia forense do pesquisador e avançou para o mestrado e, agora, para uma tese de doutorado em andamento. A proposta dele é transformar uma prática intuitiva, já utilizada por investigadores, em uma metodologia científica capaz de auxiliar nas investigações, sistemas automatizados e na elaboração de políticas públicas voltadas ao enfrentamento do desaparecimento de pessoas. 

O Distrito Federal registrou uma das maiores taxas de localização de pessoas desaparecidas do país, chegando a cerca de 97% dos casos solucionados em 2024, a maioria com a pessoa encontrada viva, segundo Alexandre. E uma taxa de 95% até outubro deste ano, segundo informações da Secretária de Segurança Pública do DF (SSP-DF). O médico afirma que a metodologia usada no seu estudo tem como foco encontrar os corpos dos casos que evoluem para a morte, embora o número seja uma parcela menor. 

Comprovação por dados

Na primeira etapa da pesquisa, foram analisados 120 casos solucionados entre 2018 e 2024 na sessão de antropologia forense do IML do DF. O levantamento cruzou o local do desaparecimento com o ponto de recuperação do corpo, além de dados do perfil biológico das vítimas, como sexo, idade, estatura e cor da pele.

Em relato ao Jornal de Brasília, Alexandre explica como o resultado o surpreendeu: “Eu imaginava distâncias maiores, algo em torno de 10 quilômetros. Mas os dados mostraram que, na maioria dos casos, a distância ficou entre 2 e 3 quilômetros”.

Inicialmente, a análise considerava se o desaparecimento e a localização do corpo ocorreram na mesma região administrativa. Com o avanço da pesquisa, a metodologia passou a trabalhar com georreferenciamento em metros e quilômetros, ampliando a precisão dos dados.

Já no doutorado, a abordagem foi refinada para trabalhar com a ideia de “raio”, e não de linha reta. A mudança torna a metodologia mais aplicável à prática policial, já que, quando um corpo é encontrado, não se sabe em qual direção a pessoa desapareceu, segundo explicou o médico. Assim, o foco passa a ser uma área circular ao redor do ponto de localização.

Protocolo científico validado

Segundo o pesquisador, verificar boletins de ocorrência de desaparecimento próximos ao local onde um corpo é encontrado já é um padrão comum entre os investigadores. A novidade é que, agora, esse procedimento pode ser respaldado por evidências científicas. Mas ele explica que exceções ainda são esperadas.

“O que antes era um achismo passa a ser comprovado estatisticamente. Isso permite que a polícia comece as buscas de forma mais objetiva, priorizando ocorrências em um raio específico”, afirma.

A expectativa é que os dados possam subsidiar o desenvolvimento de sistemas automatizados, mapas inteligentes e até ferramentas com uso de inteligência artificial. A ideia é que, ao registrar o local onde um corpo foi encontrado, o sistema indique automaticamente os desaparecimentos registrados nas proximidades, agilizando a investigação.

A prática e o impacto social

Além do georreferenciamento, a pesquisa também trabalha com a correlação de variáveis, como roupas, adornos, tatuagens e outras características físicas, atribuindo “pesos estatísticos” para estimar a probabilidade de um corpo pertencer a determinada pessoa desaparecida.

Na próxima fase do doutorado, o estudo passa a incorporar também as circunstâncias da morte, o ambiente onde o corpo foi encontrado e o tempo entre o desaparecimento e a localização, tornando a análise ainda mais completa.

Para o pesquisador, embora os casos fatais representem uma parcela menor das ocorrências, o impacto para as famílias é profundo. “Mesmo quando a pessoa é encontrada morta, a identificação rápida permite encerrar um ciclo de angústia. A família consegue viver o luto, enterrar o parente, ter um lugar para chorar”, destaca ele.

Do Distrito Federal para o Brasil

Outro ponto central do estudo é a possibilidade de replicação em nível nacional. A proposta é que a metodologia possa ser aplicada em outros estados, mas considerando as características regionais. A metodologia irá contribuir para a construção de um banco de dados mais amplo sobre os desaparecidos em todo o país. 

“O objetivo é que o que foi feito no DF possa ser reproduzido no Amazonas, no Rio de Janeiro, no Mato Grosso, e que, no futuro, a gente tenha um panorama nacional”, afirma Alexandre com expectativa.

A pesquisa envolve o IML, o Departamento de Polícia Técnica (DPT), a Polícia Civil do Distrito Federal e a sessão de antropologia forense do instituto. Para Alexandre, o estudo reforça o papel da ciência como aliada na formulação de políticas públicas e no aprimoramento das investigações criminais.

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