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Brasília

Medicina estética: irregularidades em série colocam pacientes em risco

Arquivo Geral

24/07/2018 7h00

Foto: Kléber Lima/Jornal de Brasilia

Jéssica Antunes
jessica.antunes@grupojbr.com

A promessa de um corpo perfeito vem em fotos, relatos e indicações. Nas redes sociais, pessoas em busca de sonhos são seduzidas pelos resultados expostos de forma irregular. O Conselho Federal de Medicina veta qualquer tipo de propaganda porque cada corpo se comporta de um jeito. E, se as coisas podem dar errado até com médicos especialistas, que passam mais de uma década em formação, pior é quando o procedimento é feito por quem sequer tem habilitação.

Apelidado de Dr. Bumbum, o médico Denis Cesar Barros Furtado, 45, é alvo de pelo menos 15 ocorrências policiais no DF entre 2011 e 2018. A maioria está relacionada a falsidade ideológica, crimes contra o consumidor e exercício ilegal da profissão. Ele foi preso após a morte da bancária Lílian Calixto, 46. A paciente fez o procedimento na cobertura de um prédio no Rio de Janeiro, o que é irregular. O médico atuava também no DF, onde não tinha registro de especialidade.

Lílian Calixto, 46 anos, se submeteu ao procedimento estético.

“Os médicos habilitados para procedimentos estéticos são dermatologistas e cirurgiões plásticos. Não quer dizer que os outros não possam porque têm formação básica. A questão é que, quanto mais especializado, mais segurança há. O pior é que há não-médicos fazendo procedimentos: enfermeiros, fisioterapeutas, dentistas, profissionais de biomedicina”, afirma Marcela Cammarota, secretária da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica do DF (SBCP).

Nas redes sociais, anúncios de bioplastia, como a realizada pelo médico- celebridade, pipocam até entre clínicas de estética. A promessa é de plástica sem bisturi, com resultados imediatos e injeções aqui e ali. As consequências podem ser desastrosas.

Volume de irregularidades

De acordo com a médica Marcela Cammarota, da SBCP-DF, a fiscalização não dá conta da quantidade de irregularidades. “O volume é tão grande que sai da capacidade de julgamento. Temos vários processos em andamento, inclusive com denúncias ao Ministério Público, mas a Justiça é morosa”, diz.

A Promotoria de Justiça Criminal de Defesa dos Usuários dos Serviços de Saúde (Pró-Vida) tem dois procedimentos abertos envolvendo exercício ilegal da profissão, em fase preliminar. De acordo com o MPDFT, há muitas reclamações, mas não há estatísticas. O Tribunal de Justiça, por sua vez, não consegue estimar a quantidade de ações.

Marcela Cammarota aponta o desconhecimento da população. Para aumentar o bumbum, por exemplo, o recomendado é enxerto de gordura ou prótese. Ela estima que com R$ 20 mil é possível pagar por cirurgia segura em hospital, com anestesista e médico. É o mesmo valor cobrado pelo Dr. Bumbum no procedimento com PMMA, perigoso em grande volume.

“Esse mercado é fomentado pelo desejo pelo corpo perfeito e apelo das redes sociais, que são baratas para propaganda, têm pouca regulação e um alcance enorme. Usam imagens manipuladas, aliciam paciente a postar resultados. Tudo isso é vedado. Quem comete essa irregularidade deve ser alvo de desconfiança. Além disso, nenhum procedimento médico deve ser feito em uma casa. O local deve ter licença para funcionamento anual”, observa.

Complicações nas cirurgias plasticas no DF. Foto: Kléber Lima/Jornal de Brasilia

Efeito imprevisível

O Conselho Federal de Medicina tem um parecer sobre o PMMA (polimetilmetacrilato) e substâncias semelhantes. De acordo com o órgão, o uso pode causar problemas como edemas, processos inflamatórios e reações alérgicas. O uso pela cirurgia plástica no procedimento de bioplastia é “extremamente limitado e, quando em grandes quantidades, não seguro e imprevisível a longo prazo”.

Tanto a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica quanto a Câmara Técnica de Cirurgia Plástica do CFM recomendam que a substância seja utilizada apenas por médicos, em pequenas doses e com restrições. A substância é regida pela Vigilância Sanitária. Segundo pesquisa de 2016 feita pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o PMMA provocou deformidades e complicações em cerca de 17 mil pacientes no Brasil.

Marcas de um pesadelo

“Meu sonho virou um pesadelo”, diz uma autônoma de 35 anos. Há menos de dois meses, ela pagou R$ 13 mil por abdominoplastia e lipoescultura em uma clínica em Taguatinga. O médico é especialista e associado à Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Mas o título não foi suficiente para garantir que tudo ocorresse como o previsto.

Ela retirou gordura das costas, abdome e coxa, e aplicou enxerto no glúteo – como recomendado. A mulher saiu de lá sem macacão pós-cirúrgico, usando apenas uma faixa, por orientação. Dois dias depois, surgiram bolhas na barriga. O médico retirou o dreno após sete dias e não deu importância às bolhas.

“Ele mandou tratar em casa, com pomada e gaze. Eu só soube que era grave no posto de saúde, onde até hoje recebo assistência”, conta. Tratava-se de necrose devido à retirada excessiva de tecido, e uma parte deixou de ser irrigada. “Me sinto mutilada”, lamenta a mulher, que chegou a ter um buraco de 12 cm.

A paciente confiou nos relatos de conhecidos. “É desesperador. Eu me arrependo de não ter me informado melhor. O médico não prestou assistência, nunca ligou para saber se tive febre, dores. As pessoas devem pesquisar mais ”, aconselha.

Saiba Mais

Em 2014, a modelo Andressa Urach sofreu uma infecção e ficou internada em estado grave por vários meses após aplicar o PMMA nos glúteos e na perna. A substância é definitiva, não é absorvida pelo corpo e funciona como um cimento. Ela teve necrose e foi parar na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

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