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Brasília

Matagal toma conta da cidade

Arquivo Geral

27/12/2017 6h59

Atualizada 26/12/2017 20h52

Breno Esaki

RAFAELLA PANCERI
redacao@grupojbr.com

Áreas verdes se tornaram verdadeiros matagais em vários pontos do Distrito Federal. Devido ao atraso na licitação de roçagem, comandada pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), o mato cresce sem parar e expõe a população de Brasília à criminalidade e à proliferação de animais.

A burocracia inerente ao processo licitatório foi a responsável pela situação, segundo o presidente da Novacap, Júlio Menegotto. Atrasado em 19 dias, o serviço está mais adiantado nas áreas do Plano Piloto e em Samambaia. Enquanto isso, Guará, Taguatinga, Ceilândia e Brazlândia sofrem com a falta de equipamentos para a limpeza.

A empresa responsável pelas áreas já foi notificada a apresentar as máquinas de corte, sob pena de rescisão de contrato. O prazo estabelecido pela Novacap para que o DF esteja com toda a grama cortada é 15 de janeiro.

A última licitação de roçagem venceu em 31 de outubro deste ano. A licitação atual, no valor de R$ 128 milhões, foi realizada seis dias depois. Os contratos, por sua vez, foram assinados no mês seguinte – em 1º de dezembro. A burocracia não para por aí: o serviço de capinagem começou só cinco dias depois – prazo máximo, determinado por lei, para que as empresas contratadas apresentem os equipamentos de corte da grama e comecem a trabalhar na cidade.

O presidente da Novacap estima que o transtorno poderia ter sido evitado caso o processo licitatório fosse iniciado em julho de 2016. A realidade é que a licitação foi encaminhada ao Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), em 15 de dezembro, seis meses depois. “Embora os trâmites tenham sido demorados, esse tempo foi importante pelo alto valor da licitação. O processo foi transparente e deu competitividade às empresas”, frisa o presidente da Novacap.

Até o ombro

No Guará, uma das áreas que mais sofrem com a falta de roçagem, a opinião dos moradores é unânime: o mato alto favorece a atuação de criminosos, aumenta a violência e a proliferação de animais. Para a dona de casa Valcirene Portilho, de 56 anos, a região administrativa está “às moscas”.

Ela compara a área da QE 2, servida de comércio e residências, a um matagal. “Tem época que o mato chega até o ombro”, demonstra. “Prefiro andar pela pista, com os carros tirando fino, porque morro de medo de topar com um bicho”, assume a dona de casa.

Ela conta que criminosos aproveitam o tamanho das moitas para se esconder e assaltar quem passa pela área. “Isso acontece inclusive durante o dia”, garante.

Outra moradora, a fonoaudióloga Aline Oliveira, de 35 anos, conta que a situação é ainda mais grave à noite. “É um incômodo. Pessoas ficam usando drogas onde o mato está mais alto. Os motoristas perdem visibilidade. Os pedestres ficam sem segurança. Tem tempo que o Guará está assim”, acusa.

Já o funcionário público Romão Gomes Neto, de 79 anos, mora em uma quadra próxima, a QE 4, e acredita que a chuva acelera o crescimento da vegetação. Para o guaraense, o lixo jogado nos arbustos é inconveniente. Insatisfeito, resume: “tá feia a coisa”.

Segurança pública

Moradores do Areal também reclamam do crescimento excessivo da grama. “Está bem alta nos canteiros centrais. A administração está sempre podando, mas entendo que no fim do ano há uma baixa nos efetivos”, opina Clebson Nunes Souza, de 43 anos.

O professor de capoeira acredita que a situação prejudica a segurança dos moradores. Isso sem falar na presença dos animais. “Com a chuva, houve um crescimento repentino do mato. Bandidos se escondem e junta bicho, como rato, cobra e muito mosquito”, especifica.

“A falta de cuidados com o ambiente cria oportunidades para a ocorrência de crimes”, atesta o professor e pesquisador em segurança pública da Universidade de Brasília (UnB), Nelson Gonçalves. “Além do fato de criminosos se esconderem na vegetação, os transeuntes ficam sem visibilidade. Nas vias de trânsito, os motoristas podem não ver as transversais e gerar acidentes”, alerta Gonçalves.

A segurança pública não pode ser traduzida apenas em presença policial. Para o especialista, o poder público deve ampliar a atenção às questões ambientais. “Para impedir que as pessoas sejam vitimizadas, a vegetação deve ser devidamente podada”, recomenda.

Concorrência permite economizar

O último atraso na licitação de roçagem ocorreu na transição de governos, de acordo com o presidente da Novacap, Júlio Menegotto. Ele reconhece que a demora afeta a população, mas defende que a situação tem pontos positivos. “Fizemos um pregão eletrônico aberto a todo Brasil. Foi o mais disputado da história, com 200 propostas para 10 lotes. A concorrência trouxe economia de R$ 65 milhões”, revela.

Em 2016, a manutenção de áreas verdes custou R$ 110 milhões à Novacap. Em 2017, os 10 contratos foram assinados por R$ 63 milhões – economia de 53%. “Falta a população dar mais valor nisso. Esse valor economizado pode reforçar o caixa do governo em outras áreas. O mato alto incomoda momentaneamente”, enfatiza.

Memória

As árvores do canteiro central entre as pistas S1 e N1 foram podadas por funcionários da Novacap em 12 de dezembro, cinco dias após o assassinato do estudante da Universidade de Brasília (UnB), Arlon Fernando da Silva, de 29 anos, em frente ao Palácio do Buriti. A área ficava bastante escura durante a noite e favorecia a prática de crimes contra pedestres e ciclistas.

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