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Brasília

Maria da Penha defende que lei saia do papel e que mulheres recebam mais incentivo para empreender

Redação Jornal de Brasília

09/03/2026 11h28

Foto: José Cruz/Agência Brasil/Arquivo

Por Fernanda Resende, Vitória Secundo, Mariana Mazzaro, Daniela Domingues e João Delattre
Agência de Notícias CEUB

No ano que a Lei Maria da Penha completa duas décadas, a ativista que dá nome à legislação entende que é necessário que o tema saia do papel no Brasil. Ela esteve em Brasília, nos dias 4 e 5, para o Movimente 2026, promovido pela Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e defendeu, também, que para proteger as mulheres é necessário incentivo para empreender.

“A lei precisa ser efetivada e não apenas celebrada”, afirmou.

A legislação foi publicada em agosto de 2006 completa 20 anos em 2026 e permanece como o principal instrumento legal de combate à violência doméstica no país.

A ativista e outras mulheres presentes no evento do Sebrae reforçaram a necessidade de que mulheres tenham autonomia econômica. Emprego e renda são, no entender das participantes, o caminho de crescimento e transformação social no combate à desigualdade de gênero.

Sobrecarga


As participantes destacaram que mulheres ocupam menos cargos de liderança não por falta de capacitação, mas devido a barreiras estruturais, como sobrecarga doméstica, invisibilização profissional e dificuldades no acesso a crédito. 

De acordo com um estudo apresentado pelo Sebrar, mulheres concentram 29,4% do volume de crédito bancário e pagam taxas, em média, quatro pontos percentuais superiores às dos homens, além de enfrentarem maior índice de recusa em financiamentos.

A proposta do projeto do Sebrae é promover capacitação, ampliar o acesso a mercado e estimular o desenvolvimento de lideranças femininas. As atividades do programa também buscam identificar as dificuldades das empresárias de se destacarem no meio comercial considerando questões como oferta de creches como parte da rede de apoio, mobilidade, saúde e enfrentamento à violência contra a mulher.


Outro participante do evento foi a empresária Cris Arcangeli, que disse acreditar que os pilares do empreendedorismo são a competência, credibilidade, coragem e inovação. Ela apresentou a palestra: “ O que você faz de único?“.

Durante sua palestra, ela defendeu a adoção do selo “feito por mulheres” para promover sororidade entre mulheres empreendedoras.

A empreendedora Daniela Correa, de 32 anos, está à frente do Instituto do Corpo Humano. Ela decidiu que o cuidado com a mulher não poderia ser apenas medicamentoso. Precisava ser holístico, unindo o bem-estar mental ao físico.

​​”Nós temos que buscar essa confiança através de conteúdos teóricos e treinamentos constantes para passar o que eles transmitem com naturalidade”, desabafa.

​Para sustentar esse espaço, ela equilibra o acolhimento com uma liderança firme, investindo pesado no treinamento de sua equipe para garantir que a essência feminina seja respeitada em cada atendimento.

Engenharia

Aos 39 anos, a arquiteta e engenheira Viviane dos Santos Cardoso transformou o canteiro de obras em um espaço de afirmação.

Viviane atua no campo da engenheria. Foto: Mariana Marazzo/Agência Ceub

​Após identificar que o preconceito obstruía sua ascensão no mercado tradicional, ela fundou a Vívea Gestão Integrada de Projetos, provando que a liderança feminina é eficaz e necessária na construção civil.

​Em entrevista à Agência de Notícias CEUB, Viviane revelou que o maior desafio não é técnico, mas cultural.

​Ela descreve um cotidiano de “estado de alerta”, onde sua competência é testada constantemente por clientes e colegas, enfrentando desde preconceitos, o que incluiu a resistência de subordinados em cumprir ordens de uma mulher.

​Para a empresária, o conhecimento técnico é o principal escudo contra o machismo.

​Sua trajetória reforça que a igualdade plena no setor só será alcançada quando o mercado conferir à voz feminina o mesmo voto de confiança destinado aos homens.

“O lugar da mulher é onde ela decide projetar, construir e liderar”, afirma.

Cosméticos

Superar o apagamento da individualidade foi o maior desafio de Patrícia Castellano Silva antes de consolidar a Bela Bruna Cosméticos.

Empresária defende autonomia no setor da beleza. Fotor: Vitória Secundo/Agência Ceub 

​A empresária de 53 anos transformou um recomeço financeiramente devastador em um manifesto de autonomia feminina no setor de beleza.

​Com uma trajetória que soma 14 anos de marca própria, Patrícia recorda o início precoce em um mercado de vendas que, na época, objetificava a mão de obra feminina.

​Após a separação, ela precisou reconstruir seu patrimônio e sua identidade do zero. ​Hoje, Patrícia defende que o mercado ainda precisa evoluir para enxergar a competência profissional antes do gênero. Para ela, o legado de sua marca vai além dos produtos: é o exemplo de que é possível retomar as rédeas da própria vida.

Permanecer no mercado

Cristiane da Silva é administradora. Foto: Arquivo pessoal

A empreendedora Cristiane da Silva, de 36 anos, formada em administração de ampresas, tem 15 anos de experiência em gestão empresarial. Ela sentiu a necessidade de empreender após se tornar mãe, diante da dificuldade de conciliar a maternidade e a permanência no mercado de trabalho, exigência de cumprimento de horário e disponibilidade para viagens. 

A sua sugestão para as mulheres que querem iniciar e estão com poucos recursos financeiros, é começar com o que tem hoje, ter coragem e arriscar.

Coragem

A trajetória da pernambucana Júlia Cordeiro, fundadora da Contabelli, encontrou nas tias contadoras a referência profissional que definiu seu caminho.

Ainda jovem, decidiu cursar contabilidade e ingressou na faculdade aos 17 anos, já com um objetivo claro: abrir o próprio negócio. Diferente de grande parte da categoria, nunca teve como meta o funcionalismo público.

À frente da Contabelli, Júlia assumiu o desafio de liderar equipes, gerir empresas e criar um ambiente de trabalho acolhedor, sem abrir mão da firmeza. Casada e mãe de duas meninas, de 8 e 5 anos, ela lida diariamente com a conciliação entre maternidade, vida pessoal e gestão empresarial — uma rotina que exige organização, coragem e resiliência.

Entre os maiores desafios da trajetória, Júlia destaca o posicionamento no marketing digital. Produzir conteúdo, gravar vídeos e se tornar referência nas redes sociais foi um processo difícil, mas hoje faz parte do propósito do negócio. “Uso as redes para compartilhar informação gratuita e ajudar outras empresárias”, afirma.

Ela diz que já enfrentou preconceitos, especialmente no relacionamento com clientes homens.

“Precisei reafirmar minha competência. Acolho, mas acolho com força”, resume.

Seu foco de atuação são mulheres do setor da beleza, que muitas vezes enfrentam dificuldades na transição do operacional para a gestão.

“Elas começam como profissionais técnicas e, de repente, se tornam empresárias sem formação em liderança. Meu papel é apoiar esse processo”, explica.

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