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Brasília

Máfia dos Concursos: Enem pode ter sido alvo de quadrilha

Arquivo Geral

31/10/2017 7h00

Foto: John Stan

Jéssica Antunes
jessica.antunes@grupojbr.com

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que começará a ser aplicado neste domingo, pode ter sido alvo da Máfia dos Concursos. A suspeita da Polícia Civil do DF também recai sobre a prova do ano passado, quando 109.743 pessoas fizeram a prova. Em Goiás, há confirmação de que a quadrilha aprovou candidatos de forma fraudulenta. Aqui, isso ainda está sob investigação. Na segunda fase da operação Penoptes, cinco pessoas foram presas na capital.

Responsável pela aplicação do Enem em todo o País, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) afirmou que “irá se manifestar após ter acesso ao inquérito”.

De acordo com Adriano Valente, delegado-adjunto da Delegacia de Combate ao Crime Organizado (Deco), todas as bancas e certames de concursos e vestibulares foram alvo de tentativa de fraude desde 2006. A apuração das atuações da organização criminosa deve ter novos desdobramentos. Ontem, a operação foi deflagrada em conjunto com a PCGO, estado onde ficou comprovada a fraude. Para a próxima prova, o grupo tentaria golpe via ponto eletrônico.

Envolvido dentro de banca

Dois meses após a primeira fase que levou os líderes do grupo à prisão, outros oito mandados de prisões temporárias e preventivas foram expedidos para a capital. Entre os presos está Ricardo Silva do Nascimento, ex-funcionário do Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos (Cebraspe), o antigo Cespe, alvo também em Goiás.

A banca é responsável por todas as provas da Universidade de Brasília (UnB) e por concursos públicos locais e nacionais. De dentro da entidade, o suspeito participava da cadeia de produção dos certames. Conforme o delegado Valente, ele preenchia o gabarito corretamente antes de digitalizá-los, de forma que a pessoa envolvida na fraude fosse aprovada. Sozinho, ele teria movimentado mais de R$ 1 milhão apenas no ano passado.

Saiba Mais

  • Pela primeira vez em dois fins de semana, neste ano o Enem será personalizado. Cada aluno receberá o caderno com identificação nominal e código de barras em todas as páginas.
  • O número de detectores de metais será ampliado, e sinais de radiofrequência vão acusar uso de ponto eletrônico e celulares.
  • A identificação biométrica também é obrigatória e a polícia escoltará a entrega e o recolhimento das provas. Tudo para evitar fraudes no certame e rastreamento, em caso de irregularidades.

 

Segundo a PCGO, ficou comprovado que o homem fraudou gabaritos para aprovar candidatos que pagaram pela vaga no concurso para delegado da corporação. O edital foi divulgado em novembro de 2016 com 36 vagas e salário de R$ 15.250,02. Pela aprovação, pelo menos 13 candidatos teriam pago entre R$ 125 mil e R$ 375 mil. O certame está suspenso pela Justiça.

Atuação por diversas frentes

Ricardo Silva do Nascimento trabalhou por três anos no Cebraspe e foi demitido no início do ano. Marcus Figueiredo, advogado da instituição, afirmou que o desligamento ocorreu após identificação de quebra de protocolo do padrão de segurança. “Diversos procedimentos e internos foram instaurados e estão sob sigilo”, disse.

Braço direito de Ricardo, Weverson Vinicius da Silva aliciava candidatos e também foi preso. Outro envolvido é André Luís dos Santos Pereira, preso em Goiânia. Ele teria comprado vaga em um concurso, mas, sem aprovação, passou a trabalhar com o líder do grupo, Helio Ortiz. Ele investia o dinheiro do golpe em Kriptacoin e foi investigado em outra operação, a Patrick, voltada à falsa moeda.

Alda Maria de Oliveira e Milson Iran da Silva, suspeitos de aliciar candidatos a vagas de Medicina, foram presos temporariamente e confessaram participação.

Outras oito pessoas foram levadas para depor. Entre elas, Mário Gomes da Nóbrega, ex-coordenador da Polícia Legislativa da Câmara Legislativa do DF, que teria apoiado a tentativa de fraudar o concurso da Casa, com salários até R$ 15 mil. Mário foi exonerado do cargo em fevereiro e, hoje, atua como secretário parlamentar. Nóbrega foi delegado por 30 anos e administrador da Estrutural. A reportagem não conseguiu contato com ele. A CLDF informou aguardar o desdobramento da investigação.

Sem pudor

Uma vaga custava, de imediato, de R$ 5 a R$ 20 mil. Depois da aprovação, o candidato ainda deveria pagar até 20 vezes o valor do salário do edital. “Eles não tinham pudor de oferecer a facilidade. Abordavam na porta de cursinhos, diziam que só seria possível passar com o esquema. Muitos se sentiam intimidados”, ressaltou Maurílio, Coelho, delegado da Deco.
A quadrilha agia de quatro formas: com uso de ponto eletrônico; uso de celulares deixados em alguma parte do local de prova, como banheiros; uso de identidades falsas; ou funcionários das bancas participavam da fraude, como no caso do funcionário do Cebraspe.

“A PCDF vai chegar a todos os que entraram pela porta dos fundos na administração pública”, avisa o delegado-adjunto Valente. Mais de cem suspeitos foram identificados e cerca de dez tiveram a participação confirmada. Eles podem responder por fraude a certame licitatório e, dependendo do envolvimento, por organização criminosa.

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