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Brasília

Mãe cria abaixo-assinado para cobrar a construção de um parque inclusivo no Taguaparque 

A iniciativa partiu da analista Nayara Eleutério, mãe de Isaac Eleutério, diagnosticado com autismo não verbal

Pedro Nery

29/01/2026 18h39

taguaparque ganha novo cercamento, iluminação e reparos para receber população no período de férias (1)

Foto: Matheus H. Souza/Agência Brasília.

Larissa Barros

O direito de brincar ainda não é igual para todas as crianças no Distrito Federal. Em Taguatinga, uma mãe transformou a dor de ver o filho excluído no Taguaparque em mobilização. Ela criou um abaixo-assinado para cobrar a construção de um parque infantil inclusivo, com estrutura adequada para crianças neuro divergentes, e reacendeu o debate sobre acessibilidade e abandono de obras públicas na capital.

A iniciativa partiu da analista Nayara Eleutério, mãe de Isaac Eleutério, diagnosticado com autismo não verbal. Segundo ela, o Distrito Federal ainda carece de espaços públicos pensados para crianças neuro divergentes ou com limitações de mobilidade. “Quando se fala em inclusão para crianças como o meu filho, tudo ainda é muito teórico. Na prática, somos excluídos do convívio social”, relata.

Essa exclusão ficou evidente em uma experiência pessoal vivida no próprio Taguaparque. Ao levar o filho para brincar, Nayara percebeu que ele acabou isolado das outras crianças por falta de estrutura adequada e de equipamentos adaptados. O sentimento de frustração e impotência foi o que impulsionou a criação do abaixo-assinado. Segundo ela, a ausência de áreas preparadas afasta muitas famílias do lazer público e reforça uma segregação silenciosa.

O que torna a situação ainda mais delicada é que o projeto de um espaço inclusivo no parque chegou a sair do papel. As fundações da obra foram iniciadas em 2022, mas os trabalhos foram interrompidos e, hoje, o local permanece abandonado. Para a mãe, além do desperdício de dinheiro público, a paralisação evidencia a falta de políticas efetivas voltadas à inclusão de crianças com deficiência ou neuro divergência.

A mobilização tem como meta reunir pelo menos 500 assinaturas. Após alcançar esse número, o pedido será protocolado oficialmente junto à Administração Regional de Taguatinga e ao Governo do Distrito Federal. Nayara explica que, para muitas famílias atípicas, sair de casa para atividades simples de lazer é um desafio diário. Ambientes como cinemas, shoppings e parques de diversão costumam ter estímulos sensoriais intensos, capazes de desencadear crises, ou não oferecem estrutura adequada para garantir mobilidade, segurança e acolhimento.

“O parque, por ser um espaço amplo, aberto e cercado de natureza, acaba sendo um dos poucos lugares que ainda consigo frequentar com meu filho, com menos medo de julgamentos ou situações constrangedoras”, conta.

Ela também chama atenção para o preconceito que se intensifica à medida que a criança cresce. “Existe uma ideia equivocada de que crianças autistas são sempre pequenas, até uns seis ou sete anos. Nessa fase, a tolerância social costuma ser maior. Mas, quando a criança cresce e não se socializa da forma esperada, o preconceito também cresce”, afirma.

Segundo Nayara, crianças com desenvolvimento típico, da mesma idade do filho, já possuem mais autonomia e compreensão social. Muitas vezes, por falta de informação dos próprios adultos e pela deficiência na conscientização escolar, acabam reproduzindo atitudes preconceituosas, mesmo sem perceber.

Ela reforça que a inclusão vai além da instalação de um brinquedo adaptado. “Não se trata apenas da ausência de um balanço para o meu filho brincar. Mesmo que ele exista, se não houver sinalização clara de que aquele equipamento foi pensado para uma criança com rigidez cognitiva, sem noção de perigo e com limitações nas brincadeiras sociais, suas necessidades não serão respeitadas”, explica.

Crianças neuro divergentes, segundo ela, geralmente não conseguem participar de brincadeiras coletivas como pega-pega ou pique-esconde, o que limita ainda mais as possibilidades de interação. Sem informação e conscientização, outras crianças tendem a dominar o espaço ou se afastar, simplesmente por não compreenderem as diferenças.

A proposta do parque inclusivo, no entanto, não é separar crianças com e sem deficiência. Pelo contrário, a integração é vista como fundamental para o desenvolvimento de todos. “O que precisamos são adaptações que permitam a convivência”, defende.

Para Nayara, a presença de símbolos do autismo ou de placas de Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA) em espaços públicos ajuda a gerar curiosidade, diálogo e aprendizado. “Um espaço que dá visibilidade a diversidade mostra que existimos, que não somos apenas números em estatísticas”.

“Inclusão não é forçar alguém que não compreende a conviver com quem compreende. Inclusão é adaptar o ambiente para que pessoas diferentes possam coexistir no mesmo espaço sem constrangimento”.

A mãe também demonstra indignação com a paralisação da obra. “O GDF está constantemente realizando obras pela cidade. É difícil andar por Brasília sem ver um canteiro de obras. Sou uma trabalhadora comum, cumpro 44 horas semanais e não tenho formação técnica em urbanismo ou acessibilidade. Ainda assim, consigo enxergar essa necessidade”, afirma.

Segundo ela, não deveria ser necessário um abaixo-assinado para apontar o óbvio. “Existe uma estrutura enorme inacabada dentro de um parque público e não há playgrounds com balanços adaptados, rampas de acesso ou informações sobre diversidade”, diz.

Nayara também chama atenção para a invisibilidade de adultos autistas. “Muitas pessoas se perguntam por que não vemos tantos autistas adultos nas ruas. Eles existem. O que acontece é que estão trancados em casa, cuidados por mães, avós ou tias exaustas, falidas emocional e financeiramente, sem perspectiva de vida própria”.

Entre as reivindicações, ela pede a retomada do projeto do parque inclusivo, com atualização do planejamento, participação de profissionais especializados em desenvolvimento infantil e educação especial, além de ações de conscientização para o público que frequenta o espaço. “Esperamos, no mínimo, um cronograma claro da obra e a certeza de que fomos ouvidos”, afirma.

Mesmo para quem não convive diretamente com pessoas com deficiência, Nayara reforça que a causa diz respeito a toda a sociedade. “Cinco segundos para assinar podem transformar milhares de vidas. Não é sobre um playground. É sobre dignidade”.

Procurada pela reportagem, a Administração Regional de Taguatinga informou que tem conhecimento da demanda relacionada a implantação de um parque infantil inclusivo no Taguaparque. Segundo o órgão, a obra foi paralisada devido a necessidade de adequação ao plano de ocupação do Taguaparque, instrumento técnico que define e organiza a ocupação das áreas, garantindo que os equipamentos públicos estejam em conformidade com as diretrizes urbanísticas e ambientais do espaço.

A administração esclareceu ainda que, após a conclusão e validação desse plano, as obras do parque inclusivo poderão ter andamento, já que o equipamento está previsto dentro do escopo de projetos para o local. Em nota, a Administração destacou que reconhece a importância de espaços inclusivos e acessíveis, que promovam lazer, convivência social e igualdade de oportunidades para crianças com deficiência, neuro divergentes e suas famílias. O órgão afirmou, por fim, que mantém o compromisso com políticas públicas voltadas à inclusão e a melhoria da qualidade de vida da população e permanece a disposição para prestar demais esclarecimentos.

O formulário do abaixo-assinado é online, rápido e não exige CPF. A proposta é ampliar o alcance da mobilização e envolver a comunidade na cobrança por soluções. “Essa causa não é só das famílias atípicas. É de todos nós. Ninguém está imune a, um dia, precisar de compreensão para algo que a maioria não entende”. 

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